Senhoras
e senhores acima dos 45 anos descobrem as vantagens de voltar à
universidade sem a preocupação com notas e avaliações,
mas aproveitando as aulas como nunca
Há cerca de
dez anos, Maria Antonina Lima Solda, hoje com 60 anos, ouviu falar pela
primeira vez em universidade para a terceira idade, numa entrevista do
programa de Jô Soares. Ela, uma mulher que apenas havia completado
o curso primário, ficou entusiasmada com a possibilidade de voltar
aos bancos escolares. "Mas, na época, minha mãe estava
doente e muito idosa, e como eu cuidava dela, acabei desistindo da idéia",
ela comenta. Não chegou a ser uma desistência, e sim um adiamento.
Em 1994, viu um anúncio no jornal sobre o curso da Universidade
São Judas e, dessa vez, resolveu entrar. A filha incentivou-a e
tomou a iniciativa de matriculá-la.
Era a segunda turma da Universidade Aberta à Maturidade daquela
instituição. Algumas universidades, como a São Judas,
têm mudado a nomenclatura de Universidade Aberta à Terceira
Idade (Uati) para Universidade Aberta à Maturidade, por ampliarem
a faixa etária dos alunos, não mais restrita aos maiores
de 60 anos. Atualmente, é possível encontrar "jovens"
de até 40 e poucos anos nessas classes.
As idades variam,
mas não o entusiasmo. Quando entrou na universidade, apesar da
grande expectativa, Maria Antonina ainda recuperava-se da perda da mãe.
Oito anos depois, ela nem pensa em parar de estudar. "O curso ajuda
muito a ampliar a auto-estima e nos estimula a perseguir nossos ideais."
Com o impulso dos novos aprendizados, Antonina, que sempre gostara de
escrever, tomou coragem para publicar um livro. Lançou, no ano
passado, E a Vida Continua (Ed. Papel & Virtual, com versão
eletrônica no site www.papelvirtual.com.br), um romance biográfico,
centrado na trajetória de sua mãe que, em plenos anos 30,
ousou deixar a casa da família para morar sozinha e trabalhar no
Rio de Janeiro.
Na PUC-SP, Albanita de Paiva, que acabou de completar 71 anos, também
não costuma perder aulas. Cursou, até agora, 12 semestres
e chegou a se "formar" (após um ano e meio de aulas),
com festa, missa de formatura, beca e tudo a que tinha direito. Mas continua
se interessando por novas disciplinas, como a de contos de fadas para
adultos. A seu ver, só agora, com a idade e a experiência
de vida acumuladas, é capaz de compreender a psicologia contida
nessas histórias e usufruir plenamente esse conhecimento.
A aluna também
se entusiasma com o novo enfoque dado a matérias apenas toleradas
nos primeiros anos escolares. Surpreende-se com fatos e análises
da história do Brasil antes inimaginados. Descobre, na geografia,
uma disciplina muito além da lista de nomes de rios e cidades para
ser decorada. Agora, aprende a importância da geografia humana,
da geopolítica e da geoeconomia. E deslumbra-se com a riqueza do
universo latino-americano, pouco ou nada explorado em nossa cultura tradicionalmente
europocentrista.
Antonina, Albanita
e mais milhares de pessoas matriculadas nos cursos das universidades abertas
à maturidade comprovam as mais recentes descobertas científicas
acerca da plasticidade do cérebro humano. Há pouco, ainda
se acreditava que o tamanho e o potencial desse órgão seriam
geneticamente determinados e que, na velhice, até 40% das células
cerebrais poderiam ser destruídas pelo processo normal de envelhecimento.
O resultado seria, com o tempo, a redução inevitável
da capacidade cerebral.
"Hoje, os neurocientistas
sabem que o cérebro é um órgão com surpreendente
plasticidade – dinâmico, crescendo e mudando o tempo todo",
afirma a pedagoga Mariúza Pelloso Lima num dos capítulos
de Longevidade – Um Novo Desafio para a Educação (Cortez,
192 págs, R$ 21). Pós-graduada em educação
pela PUC-SP, mestre em gerontologia e coordenadora da Universidade Aberta
à Terceira Idade, em Osasco (SP), Mariúza argumenta que
a luta pela longevidade não teria sentido se não objetivássemos
também uma melhor qualidade de vida durante a velhice.
A partir de 1972,
com o advento da tomografia computadorizada e, depois disso, com a tomografia
por emissão de pósitrons, capaz de gerar imagens da anatomia
e do funcionamento cerebral, começou-se a entender melhor a estrutura
e a função do cérebro. Hoje, começa-se a descobrir
o quanto variáveis como alimentação, mudanças
no estilo de vida, exercícios físicos e mentais podem influenciar
a atividade mental.
O problema reside
na democratização desse conhecimento. "Infelizmente,
essa ‘nova velhice’ é possível a um número muito
restrito de idosos – aqueles que têm acesso ao saber, à possibilidade
de aquisição de medicamentos e atendimentos médicos
particulares, de desfrutar de instituições de ensino e de
lazer; que têm independência econômica e garantam sua
autonomia", alerta Mariúza Pelloso Lima.
O acesso às
universidades abertas integra esse contexto. Nadir Aparecida de Matos
Nogueira, coordenadora da Uati da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp) e do I Congresso Unifesp de Universidades Abertas à Terceira
Idade, afirma que a discussão dos valores cobrados pelas instituições
de ensino para esse tipo de público é um dos focos do evento.
A preocupação central, entretanto, recai na regulamentação
desses cursos e na proposição de um programa básico
e, além disso, no preparo do profissional envolvido com esse formato
de ensino. "Vamos discutir a capacitação desses profissionais,
pois, embora todos sejam habilitados para lecionar a matéria, muitos
não sabem ministrar aulas para classes tão heterogêneas
ou não sabem respeitar o ritmo mais lento do idoso", observa
Nadir.
Na maturidade, ou
logo após a retirada do mercado de trabalho, com a aposentadoria,
a tendência é as pessoas sentirem-se excluídas da
sociedade. "O objetivo da universidade é abrir possibilidades
de reinserção social para essas pessoas. A proposta é
que elas continuem ativas, exercitando a mente e o intelecto, com atividades
culturais, mentais e corporais", explica Maria Esmeralda Mineu Zamlutti,
coordenadora da Universidade Aberta à Maturidade da Universidade
São Judas. Fica mais fácil interagir com a sociedade quando
sabemos o que acontece no mundo. E, segundo a professora, os alunos da
maturidade saem das aulas com sede de discutir com a família o
seu aprendizado.
Freqüentam os
cursos alunos não só de várias idades, mas também
de diferentes níveis socioeconômicos e culturais. Um levantamento
feito pela Unifesp mostra que 32% desses estudantes têm nível
superior e 14%, o ensino médio. Mais da metade, portanto, teve
apenas o ensino básico ou é semi-alfabetizado. O que todos
têm em comum é a vontade de continuar ativos e participativos
na sociedade. E como em qualquer grupo, eles acabam se aproximando por
afinidades. Encontram na universidade amigos, oportunidade de conversar
e companhia para atividades extraclasse. Muitos fazem passeios e viagens
juntos.
"Hoje me preocupo
mais comigo mesma, aprendi a dizer ‘não’ e a aceitar mais as coisas
da atualidade; não digo mais ‘no meu tempo’, pois nosso tempo também
é agora. Isso facilita o convívio com meus filhos e netos",
diz Maria Antonina Solda. Albanita de Paiva também nota a mudança
nas colegas de classe: "No começo, havia algumas colegas que
nunca tinham tomado um táxi sozinhas, dependentes do marido e dos
filhos para tudo. Hoje, elas falam, participam e chegam aqui de colar
e batom, todas arrumadas."
Uma característica
comum em todas as faculdades com programas de ensino para a terceira idade
é a pouca adesão de alunos do sexo masculino. Abel Alfredo
Perpétuo, de 88 anos, é um dos raros homens da turma da
São Judas, na universidade desde 1997. De origem portuguesa, cursou
o antigo ginasial na Espanha, onde estudou filosofia, humanidades e literatura.
"Sou do tempo de Fernando Pessoa, mas foi um amigo meu, Vasco Reis,
quem participou de um concurso literário que ganhou o prêmio
concorrido também por Pessoa." Era uma época na qual
as escolas da Ibéria, assim como no Brasil, ensinavam latim. Abel
Perpétuo estudou a língua por cinco anos. E também
francês, inglês, alemão e grego.
Ele veio para o Brasil
em 1937, a tempo de acompanhar muitos dos mais importantes acontecimentos
históricos do país. Naquele tempo, mal se falava em teoria
da relatividade, circulavam poucos automóveis pelas cidades e o
rádio ainda era novidade. Por isso, alunos como ele sentem-se à
vontade para levantar o braço na aula e dizer ao professor "eu
não concordo" ou "não foi bem assim". Com
essa postura, crítica e atenta, ganham alunos e professores.
A psicóloga
e pedagoga Vitória Kachar, organizadora do livro Longevidade –
Um Novo Desafio para a Educação, questionou em sua tese
de doutoramento a função da aprendizagem para o idoso. Como
professora da universidade aberta da PUC-SP, ela tem usado o computador
como conceito e ferramenta de inclusão social. "O velho tem
uma aparência física que não é valorizada,
muitos deles já não trabalham e a maioria das mulheres dedicou
a maior parte da vida ao marido e aos filhos, então, a universidade
é uma oportunidade de buscarem algo para si próprios."
Segundo ela, dominar o computador torna-se uma forma de se aproximar ou
de ser respeitado pelos mais jovens. E, para as mulheres, principalmente,
é também uma forma de desmitificar um recurso "masculino".
Além disso, o uso da informática serve para ocupar o tempo
e trazer entretenimento.
A maioria dos cursos
das Uati tem um ano e meio de duração. Concluído
o período, ninguém quer ir embora. Para o aluno, a universidade
passa a ser um espaço afetivo e social. Como sinaliza Vitória,
é o momento de as instituições começarem a
rever o significado da velhice – na França, com o avanço
da longevidade, já se fala em "quarta e quinta idades"
– e também de pensar em uma aprendizagem com autonomia.
Atividades culturais,
como os corais, são outro atrativo para aqueles preocupados em
manter-se ativos na maturidade. A advogada Luiza de Carvalho, 56 anos,
só foi fazer o curso por isso. Mas acabou se interessando por outras
aulas, como a de expressão corporal e de oratória.
Os temas de saúde
e sexualidade também despertam a atenção. "Nessa
idade, amor e sexo continuam sendo temas tabus", constata Maria Esmeralda.
Nem sempre do ponto de vista deles, mas porque, a partir de certa idade,
começam a ser podados para essas experiências. As pessoas
têm dificuldade em compreender quando alguém de 70 anos fala
que está apaixonado. "É uma velha", diz a família.
Em nossa cultura machista, o homem costuma ter um pouco mais de permissão
para isso. Mas, para a mulher, a experiência está vetada.
É pecaminoso. Só agora essa idéia está começando
a mudar.
Como a volta aos bancos
escolares não tem como objetivo a educação formal,
todos sentem-se livres para usufruir algo a mais de cada aula. Em geral,
ensaia-se repetidas vezes o abandono à rigidez e aprende-se a experimentar,
buscando outros significados para antigos conhecimentos e testando novos
pontos de vista. A mudança de referências costuma ser positiva,
mas pode gerar conflitos familiares. Pode tornar-se incômodo lidar
com esse ser mutante, cheio de novas exigências. Nesse caso, em
vez do incentivo, surgem as recriminações. Abel Perpétuo
confessa que só continua nas aulas por fazer "ouvidos moucos"
aos resmungos da mulher. Antonina Solda diz ser incentivada pelo marido,
mas não consegue convencê-lo a participar.
Na sala de aula, os
professores não cansam de ser surpreendidos: pessoas maduras ou
idosas – assim como todo aprendiz, em qualquer idade – têm deslumbramento
e muita curiosidade com o conhecimento. Cabe ao educador ser receptivo
a esse tipo de atitude. E à sociedade começar a questionar
seriamente o que é envelhecer, lembrando que o processo não
inclui só perdas, mas uma série de coisas positivas, como
experiência. Com sorte, também seremos velhos.