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Na
bagagem Madeleine Lacsko Dois irmãos viajam pelo Brasil doando livros para escolas de regiões carentes É com uma bagagem de 15 toneladas que dois irmãos paulistanos percorrem os sertões brasileiros. Levam o que os moradores dos povoados mais afastados precisam, gostam e não têm como comprar: livros.
Nos povoados afastados
dos grandes centros, livros são uma raridade. Existem escolas onde
se aprende a ler e a escrever sem que essas habilidades adquiram a importância
que têm. As únicas publicações às quais
se tem acesso são os livros didáticos distribuídos
anualmente pelo Ministério da Educação. Ana Elisa e Luiz Eduardo
Salvatore verificaram essa realidade na primeira expedição
da empresa que fundaram, a Trilha Brasil. O projeto inicial era percorrer
o país em busca de imagens e informações para produzir
exposições e um documentário. Eles voltaram a São
Paulo, onde moram, com o material que desejavam produzir, mas trouxeram
também as bases para o projeto Livro na Estrada e Pé na
Tábua. Os locais por onde
eles passaram são os mais carentes, aqueles em que tudo falta.
Antes do início do projeto, os irmãos ensaiaram formas de
trabalho social. Resolveram problemas, mas de forma localizada e paliativa.
A decisão foi criar um projeto que realmente pudesse modificar
a vida das comunidades visitadas. Nas visitas a escolas,
por exemplo, puderam verificar várias deficiências. Os professores
reclamam mais preparo e engrossam, com pais e alunos, o cordão
dos que não têm acesso a livros que não sejam didáticos.
Os irmãos Salvatore providenciaram, então, as publicações
que faltavam. O projeto Livro na
Estrada e Pé na Tábua começou com o mapeamento das
escolas carentes. Esses dados serviram depois de roteiro para a entrega
dos livros. O projeto agora inicia uma nova fase. Além de distribuir
livros, a idéia é avaliar os resultados. "Nossa intenção
é verificar se a criança mais carente, tendo material próprio,
realmente se sente mais motivada para estudar", explica Salvatore. Os formulários
de avaliação, feitos por uma pedagoga contratada, devem
ser preenchidos pelos professores. O material também é acompanhado
de fichário com sugestões de atividades, como a maratona
de livros, na qual há uma competição premiando o
aluno que ler mais durante determinado período. Outras idéias
são a criação de uma biblioteca circulante e de um
projeto de bibliotecários mirins, no qual os próprios alunos
controlam o empréstimo dos livros doados. Os educadores também
ficam encarregados de preencher dois formulários de postagem gratuita.
No primeiro, o professor descreve suas condições de trabalho,
as principais carências da comunidade e as necessidades de cursos
de reciclagem. No segundo, aponta as mudanças observadas depois
que o material foi entregue à escola e aos alunos. A tabulação
dos dados vem sendo feita conforme as respostas chegam a São Paulo. Na última viagem,
o Trilha Brasil percorreu 90 escolas nos Estados de Goiás, Minas
Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Cada um
dos estabelecimentos recebeu volumes suficientes para formar uma pequena
biblioteca. Além disso, cada aluno ganhou um kit de material escolar
contendo dois livros, uma revista, um calendário, canetas esferográficas,
lápis preto, lápis de cor, borracha, apontador, canetinha
e régua. Todo esse material
é patrocinado por empresas e doado em campanhas de arrecadação.
Ana Elisa explica que "a busca por doações ficou mais
fácil depois que nós fomos finalistas do prêmio Eco
2000 [concedido pela Câmara Americana de Comércio de São
Paulo]. Agora as pessoas vêem que se trata de um trabalho sério,
de credibilidade." Ela também
explica que o projeto tem a intenção de ser multiplicador:
"Não sugerimos que as outras pessoas façam exatamente
o que fazemos, mas queremos abrir os olhos para a existência do
outro e para o fato de que há inúmeras maneiras de ajudar." Os irmãos largaram
o exercício tradicional de suas profissões – ele é
advogado e ela é designer gráfica –, mas garantem que continuam
fazendo o que aprenderam na faculdade. Ana Elisa cuida de todo o material
gráfico que deve ser apresentado a potenciais patrocinadores, enquanto
seu irmão se encarrega da argumentação. Para eles, o melhor
do projeto é o envolvimento com os moradores do sertão e
também a realização pessoal. Quando iniciaram o Trilha
Brasil, nem amigos nem familiares acreditavam na viabilidade. "Diziam
que esse projeto deveria ser só um hobby de fim de semana",
lembra Salvatore. |
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