Luiz Inácio
Lula da Silva assumirá a presidência da República,
em primeiro de janeiro de 2003, sublinhando duas circunstâncias
históricas para o país. No último pleito, no final
de outubro, foi eleito presidente com cerca de 53 milhões de votos,
o segundo maior número da história da humanidade (o recorde
é do norte-americano Ronald Reagan, em 1981, com 55 milhões
de votos). Lula traz outro ineditismo à sua posse: nasceu em Garanhuns
(PE), no agreste nordestino, filho de uma família pobre. Foi engraxate,
tintureiro e torneiro mecânico. Nunca fez faculdade.
Na escola da vida,
também se formaram milhares de senhoras e senhores que, hoje, tomam
coragem de retomar os estudos formais. Representam uma minúscula
parte dos 14,536 milhões de habitantes que, segundo o IBGE, têm
60 anos ou mais. Têm, em média, 3,4 anos de estudos, mas
trazem aos bancos escolares a riqueza de suas vivências: muitos
nasceram nas décadas de 30 e 40, foram jovens numa época
em que a expectativa de vida da população era baixa e ser
avô ou avó também era ser sobrevivente. Conhecem de
perto o preconceito, que outrora confinou as mulheres à tutela
de pais e maridos, mantendo-as longe dos livros e na frente do fogão.
Resistiram a golpes de Estado, aos anos de chumbo da ditadura, a torturas
e perseguições. Lutaram pelas diretas, tiveram suas poupanças
confiscadas, viram o patrimônio do país sendo dissolvido.
Quando protestaram, foram chamados de "vagabundos".
Esses veteranos são
arquivos vivos da história do Brasil, testemunhas dispostas a compartilhar
seus anos de experiência com professores e colegas de classe. Finalmente,
a universidade deixa de ignorá-los e abre suas portas aos alunos
maduros. O ensino não dissolve suas convicções nem
elimina suas cicatrizes, mas rejuvenesce.
É assim, como
um grupo de alegres colegiais, que eles redescobrem seu valor. Não
desligam a TV, mas ignoram a novela em busca do noticiário. Têm
pressa de saber. Seu empenho não é sem resultado e voltam
a dialogar com filhos e netos, a debater assuntos da atualidade, a alta
do dólar, os rumos do país. Eles sabem e viveram para contar.
Por isso, não têm medo.