Pedagoga
fala sobre como colocou em prática seus sonhos de educadora
Nilda Teves queria
ser uma boa professora. Bacharel em matemática e física,
quando ia fazer o mestrado em filosofia da ciência, decidiu voltar
a fita: prestou vestibular para pedagogia. No segundo ano do curso, ao
descobrir que a aplicada aluna era graduada, o titular do departamento,
Newton Sucupira, a tomou como assistente, no mestrado de educação.
Ela nunca mais parou. Com um currículo recheado de realizações
no setor, Nilda Teves foi secretária de Estado de Ciência
e Tecnologia do Rio de Janeiro, adjunta do gabinete civil daquele Estado,
superintendente-geral de Ensino da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
diretora-geral de Ensino da Secretaria de Estado da Educação,
além de haver presidido a Fundação de Apoio às
Escolas Técnicas do Rio (Faetec). Conviveu com figuras como Dumerval
Trigueiro Mendes, José Honório Rodrigues, Anísio
Teixeira, Darcy Ribeiro nada menos que a elite das humanidades daquele
tempo. Terminando um longo trabalho de reformulação curricula!
r na Universidade Veiga de Almeida (RJ), Nilda Teves apresentou, em julho,
os resultados de uma pesquisa em torno da percepção que
os universitários têm do professor e de sua missão.
Para falar sobre essa pesquisa e sobre o ofício de lecionar, ela
concedeu a seguinte entrevista.
Revista Educação A senhora é considerada uma educadora
pragmática, que pensa com os pés no chão.
Nilda Teves Penso com os pés no chão e o sonho
nas estrelas, como boa física. Penso em educação
numa visão global, a educação técnica, a educação
humanística, artística. Em nenhum país do mundo você
universaliza o ensino superior, isso é um blefe. É preciso
pensar nos segmentos da educação, educação
básica, média e superior. O ideal é que se tenha
sempre o máximo na educação média, e nós,
nessa educação média, precisamos olhar para o ensino
técnico como um ensino fundamental de qualidade. Sou uma defensora
contumaz do ensino técnico.
Educação Será que, às vezes, a discussão
não fica apenas na questão da universidade?
Nilda É preciso pensar a educação não
restrita ao âmbito da escola. Em 1992, fui chamada para ser diretora-geral
do ensino no governo Brizola. O vice-governador, Nilo Batista, que era
também secretário de Segurança, me encomendou um
projeto: "Preciso tirar esses meninos da rua." Então,
fiz uma comissão de alto nível, para elaborar um projeto
supimpa. Quando terminei, fomos até a casa do Darcy Ribeiro [então
secretário especial de Educação], que disse: "Ah,
que pena, minha filha, seu projeto chegou tarde. Eu vou colocar todos
eles no Ciep [Centro Integrado de Educação Pública]."
Eu disse: "Você vai fazer uma loucura, porque não se
pode tirar os meninos da rua e colocá-los diretamente numa escola.
Eles quebraram os códigos de sociabilidade. Então, essas
crianças não têm hábitos de higiene, elas precisam
de uma ante-sala para desenvolver a sociabilidade, para depois ir para
a escola; ir direto seria um erro." O Darcy nunca foi educador, era
um visionário, mas militância de sa! la de aula o Darcy nunca
teve. Era um antropólogo. Educador era o Anísio Teixeira.
Educação A senhora não implantou seu projeto?
Nilda Eu brinquei com o Darcy, perguntei o que ele ia fazer com
a cola que os meninos usavam. E ele disse que tinha de botar um cheiro
ruim na cola, para que eles não cheirassem. Por exemplo, cocô
de vaca, de cavalo. Eu disse: Você é um gênio. Beijei
o Darcy, cheguei na minha sala e bati a minha carta de exoneração,
fui embora. Aí, a esposa do Nilo disse que o [então prefeito]
Marcelo Alencar queria ler o meu projeto. Eu disse a ele que a idéia
era criar uma república na qual os meninos tivessem onde morar,
para adquirirem uma referência de domicílio. Não vou
educar ninguém na rua. Tem de ter casa para tomar banho, escovar
os dentes, ter hora de dormir, hora de acordar, não vai fazer o
que quiser, pois é fundamental trabalhar a internalização
de limites.
Educação As crianças de rua perdem a concepção
de limites?
Nilda Quando uma criança vive na rua, perde os dois referenciais
básicos da construção do pensamento, que é
a noção de tempo e de espaço. A noção
de tempo é vivenciada com um cotidiano ritualizado: segunda é
aula, terça tem dentista, domingo é dia da missa. E a noção
de espaço se cria com uma vivência em uma casa. Aqui é
a sala, ali é o banheiro, não pode fazer isso na cozinha.
Na rua, eles desconstroem as referências de entendimento, porque
eles não são índios. Pois o índio tem a referência
de entendimento do tempo pelas luas, pela maré, pela subida do
rio, pela colheita, ele trabalha com a natureza que informa a sazonalidade.
Mas a criança de rua não; para ela, todo dia é a
mesma coisa. Por isso eu insistia: quero um tempo para ajudar a reconstituir
essa criança.
Educação E como aconteceu esse projeto com crianças
de rua?
Nilda O Marcelo Alencar perguntou o que eu precisava para implantar
o projeto. Eu disse que queria uma casa. Peguei um imóvel do município
na Praça Saenz Peña, fizemos obras e, em um ano, ressocializei
os meninos todos, tirando da droga, botando-os dentro de uma escola de
banho tomado. Quando o Marcelo acabou o mandato, ele não fez o
sucessor e eu voltei para casa e continuei minha vida, com o testemunho
do Juizado de Menores dizendo que foi o melhor trabalho já visto
no Rio de Janeiro. Até que o Marcelo foi eleito governador, voltou
a me chamar e perguntou sobre aquele projeto. Ele me levou de helicóptero
a Quintino Bocaiúva para conhecer uma construção
de 1 milhão de m2 que era a antiga Funabem, como a Febem de São
Paulo. Eu fiz um projeto. A minha primeira fantasia era um condomínio
de repúblicas a dos maiores, dos menores, dos pequenininhos,
das mulheres. Uma gestão para ensinar democraticamente a viver
em condomínio. Quando eu terminei o projeto, me disseram que ele!
[Marcelo Alencar] queria que eu ficasse: "Eu te coloco como subsecretária
do gabinete civil e você comanda aquilo lá." Educação Como a senhora conseguiu implantar
seu projeto?
Nilda Eu disse que ia sozinha lá, se eu fosse com o aparato
do Estado, não ia dar certo. Aí eu fui, tinha 1.200 funcionários
federais cedidos, duzentos e poucos meninos, mas eu consegui conquistar
aquela gente toda. No final do governo, a gente abriu a escola técnica,
fiz a reforma estadual, assumi a presidência de uma fundação,
fiz a reforma técnica do ensino do Rio, criando cursos, como a
Escola Técnica com telecomunicações, instrumentalizado
com robótica, treinei a escola com satélite, botei fibra
óptica. Criei uma coisa chamada Centro de Educação
Integral [CEI]. Se você me perguntasse em quem eu me inspirei, eu
lhe diria: em Anísio Teixeira. O meu projeto tinha três pilares:
escolaridade, ludicidade e trabalho. Porque é nesse tripé
que, para mim, se sustenta a educação e o ensino médio,
principalmente para as classes populares. Os alunos não aprendiam
somente a usar um computador, aprendiam a consertar, montar e vender o
computador, autocad, design, tudo. Quando fecham! os o governo, a escola
que eu criei tinha três anos. No segundo ano, ela ficou em décimo
lugar no ranking das escolas e no terceiro ano ficou em segundo lugar
eu só perdi para o Pedro II e empatei com a Escola Técnica
Federal do Estado.
Educação O que aconteceu com esse projeto?
Nilda Esse projeto com o governador Garotinho se tornou um grande
blefe, porque eles quiseram expandir pelo viés do político.
Para montar uma escola desse tipo, você trabalha arduamente durante
três anos com o corpo técnico, muda currículo, adapta,
avalia, registra no Conselho Estadual da Educação. Não
é assim, aluga uma sala ali, bota 20 computadores alugados, um
campo de futebol e diz que aquilo ali é um CEI. Quando eu saí,
deixei 25 mil alunos. Tinha fila de uma semana para conseguir uma vaga.
Educação Vamos falar sobre a pesquisa com os universitários?
Nilda Pesquisa só tem sentido, mesmo que ela seja uma
pesquisa pura, se alimenta de alguma maneira políticas públicas
ou privadas. Pesquisa tem que ser para alimentar a intervenção.
Nós temos agora uma prioridade na formação de professores,
prioridade do MEC. Eu pensava o seguinte: O que essa gente pensa que é
ser professor? Vamos ver se há uma diferença substantiva
no olhar [do estudante universitário] entre o que é ser
professor quando se está entrando na universidade e quando se está
saindo, o que é ser professor para ele. Ou seja, se nós
realmente conseguimos mudar a visão, se ele passa a ter uma visão
da função social do professor, da responsabilidade política
do professor, da missão do professor.
Educação A senhora costuma dizer que a geração
que vem vindo aí não tem "Anísios Teixeiras"
dando sopa.
Nilda Digo isso porque a minha geração teve pessoas
que dedicaram a vida aos estudos, porque dinheiro não era o fator
mais importante. O conhecimento era muito importante, saber era muito
importante, o curso era mais longo. É engraçado que foi
essa geração que inventou a internet, inventou o computador.
A geração que não foi educada com computador inventou
o computador, assim como o analfabeto criou o alfabeto. Essa geração,
que é de pesquisadores, de cientistas, de pessoas que levavam o
conhecimento como uma coisa nobre, sagrada, essa gente vivia com um salário
razoável, não era miserável, e tinha isso como missão
patriótica, humanística, missão de vida. Você
vai reduzindo os cursos de quatro anos para três anos, para dois
anos, para um ano, não sei o quê. Eu fiz o mestrado em quatro
anos, até defender a minha tese eu levei dez anos. Mas estudar
todas as obras de Lock, Rousseau, você não faz em dois anos.
Educação Isso muda radicalmente a formação
do aluno, não é?
Nilda Isso é que me deu e me dá até hoje
o estofo de poder pensar em educação em qualquer nível.
Se você me pedir para bolar um curso de doutorado em qualquer coisa,
eu sento, vou estudar a matéria, monto uma equipe que entenda daquele
assunto, e aposto com você que vai sair um bom curso. Isso eu adquiri
na faculdade de educação. Isso eu não adquiri via
internet pegando os "paperzinhos" de um e de outro, fazendo
recorte e colando. Colagem é o que os meus alunos fazem e eu vejo.
Eu acho que houve um barateamento do saber, fruto da revolução
do mundo de hoje. Mas parece que está fechando um círculo,
porque tem uma geração agora querendo saber história,
querendo fazer filosofia. Tem uma geração que está
vindo e que parece assustada com esse caos. Uma pequena parte do professorado
entrou no mundo dos negócios, do alto rendimento. O magistério
virou também uma parte de negócios, e não aquele
compromisso com o saber, com o aluno.