O empresário
Antônio Ermírio, comentando a queda de Ciro Gomes nas pesquisas
de intenções de voto para a presidência da República,
disse, em tom de reprovação: "O que ele falou sobre
as mulheres e os barões paulistas não se fala nem em pensamento."
Havia dito o dr. Ciro que a Patrícia Pillar tinha a incumbência
de dormir com ele (sorte dele). Dissera também que os barões
paulistas queriam mandar em tudo, mas que, com ele na presidência,
a coisa ia ser diferente. Algo assim.
O que importa aqui
é a fala do dr. Antônio Ermírio. "Falar em pensamento"?
Como seria isso? A pessoa falaria de si para consigo? Distração
dele, claro. É um senhor inteligente, autor de peças, bom
de raciocínio e de números, trabalhador, produtivo e cheio
da bufunfa. Pena que não desfrute dela como poderia. Mas isso é
problema dele. Talvez tenha querido dizer que "não se deve
nem pensar" em coisas como as que o dr. Ciro disse com sua bocona
grande e incontinente, querendo fazer graça à custa de sua
senhora, como diria um barão paulista. Mas pensar, já se
sabe, é um exercício livre.
Por enquanto, pensa-se
o que se quer e diz-se o que convém. Isso, claro, quem não
sofre de incontinência verbal, problema que costuma complicar a
vida de políticos. É a regra geral, principalmente para
eles, especialistas na arte desacreditada de dizer, com grande convicção
aparente, coisas que as pessoas minimamente perceptivas sabem ser mentiras
descabeladas. Eles sabem estar dizendo mentiras, sabem que as pessoas
sabem e insistem em dizê-las. Um espanto. Fingem dizer a verdade
e os do círculo mais próximo fingem acreditar. Assim vai
a cousa morro abaixo.
O consolo é
que, depois do Fernandenrique e do Bush Júnior, se houver depois,
será difícil ficar pior. Não se deveria falar isto
nem em pensamento: mas um levou o Brasil à ruína, multiplicando
por dez a dívida pública, por cinco o desemprego e por 98
a desesperança de seu povo perdido e malpago; o outro ameaça
levar o mundo ao brejo depois da façanha de transformar os 3 trilhões
de dólares de superávit da Grande República do Norte
em 2 trilhões de dólares de déficit nos 12 meses
iniciais de seu governo profícuo. Uma glória. Um tem camadas
de verniz cultural, o outro é tosco como um cactus texano. Mas
o resultado, guardadas as proporções, é o mesmo.
O que se há
de fazer?
Orgulho sem preconceito
A expressão
serial killer ressurgiu com o matador de garotas do Parque do Estado,
em São Paulo. É uma expressão sempre usada quando
aparece um maníaco matador em série ou matador serial.
Verdade que o inglês é uma língua sintética
e favorece a criação de expressões como essa. Ainda
mais que é na Inglaterra e nos EUA que costumam surgir tipos assim.
Mas não há motivo para orgulho porque eles já brotam
por aqui com freqüência. Por isso, que tal adotar uma expressão
nacional equivalente a serial killer? Matador serial e matador em série
são as mais próximas.
Orgulho, sim, devemos
ter porque os políticos desta boa terra são incorruptíveis,
preocupados com o bem-comum, livres da tentação de meter
a mão no dinheiro público e mandá-lo para lugares
gostosinhos como a Suíça, as ilhas Cayman e a Ilha de Jersey,
entre outros. Vivam eles.
Josué Machado é jornalista e autor do livro
Manual da Falta de Estilo (Ed. Best Sellers)