Há alguns meses,
participando de um congresso sobre O Professor e a Leitura de Jornal,
pudemos debater a respeito da "overdose" ferramental que invade
cada vez mais o cotidiano social e, sem dúvida, também o
mundo da escola.
Relembrávamos
nesse debate uma das mais contundentes reflexões sobre a vida humana
e que não pode ser esquecida, tamanha é a importância
que carrega também para o debate pedagógico: Alice no País
das Maravilhas, escrita no século XIX pelo matemático inglês
Charles Dodgson (que deu a si mesmo o apelido Lewis Carroll).
Nessa obra, Alice
cai. Ela está atrás de um coelho e cai em um mundo desconhecido
(na verdade, a menina cai dentro de si mesma). Entre as inúmeras
personagens fantásticas da obra, duas delas estão muito
próximas de nós: uma é um coelho que está
sempre atrasado, correndo para lá e para cá com o relógio
na mão; a outra é um gato do qual somente aparece o sorriso,
somente ficam visíveis os dentes e, às vezes, o rabo. Há
uma cena que a gente não deve ocultar – principalmente quando se
fala em ferramentas para o trabalho pedagógico e, muitas vezes,
da percepção equivocada da tecnologia como redentora da
educação: o encontro de Alice com o gato. Contando resumidamente,
na cena, Alice está perdida, andando naquele lugar e, de repente,
vê no alto da árvore o gato. Só o rabão do
gato e aquele sorriso. Ela olha para ele lá em cima e diz assim:
"Você pode me ajudar?" Ele falou: "Sim, pois não."
"Para onde vai essa estrada?", pergunta ela. Ele respondeu com
outra pergunta (que sempre de! vemos nos fazer): "Para onde você
quer ir?". Ela disse: "Eu não sei, estou perdida."
Ele, então, diz assim: "Para quem não sabe para onde
vai, qualquer caminho serve."
Para quem não
sabe para onde vai, serve de qualquer maneira o jornal, a revista, o livro,
a internet, o videocassete, o cinema etc. E aí, qualquer um de
nós, na ansiedade de modernizar o modelo pedagógico, eletrifica
sofregamente a sala de aula ou, mais desesperadamente, sonha em fazer
isso, imaginando o quanto o trabalho seria espetacular com esses instrumentos.
Daí, se possível, o professor enche a sala de aparatos tecnológicos,
como se, para fazer algo que interesse às pessoas, precisasse eletrificar
continuamente o processo, metendo aparelhos eletrônicos ligados
para todo o lado. Muitos dizem que, como os alunos estão habituados
com isso, precisamos modernizar o ensino. Será?
Depende da finalidade
do "para onde se desejar ir". Se você sabe para onde quer
ir, vai usar a ferramenta necessária. O que se deve modernizar
não é primeiramente a ferramenta, mas sim o tratamento intencional
dado aos conteúdos trabalhados na escola.
Por isso, é
preciso trazer sempre na memória o ditado chinês que diz:
"Quando você aponta a lua bela e brilhante, o tolo olha atentamente
a ponta do seu dedo."
*Professor de pós-graduação em educação
(Currículo) da PUC-SP.