Polêmico
projeto de lei pretende pôr fim a estrangeirismos incorporados desnecessariamente
por nossa língua pátria
O Brasil destaca-se
cada vez mais, no limiar do século 21, como o país das contradições,
a começar pela língua oficial, o português. A respeito
disso, há uma ampla discussão: o estrangeirismo, tendência
que incorpora palavras estrangeiras à língua pátria.
Em meio a erros e acertos, o uso de palavras importadas já soa
aos ouvidos com certa familiaridade.
No Planalto Central,
o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B/SP), sustenta a colegas legisladores
que a língua portuguesa quase pode ser falada em inglês,
dado o domínio lingüístico desse idioma no país.
Ele é autor do projeto de lei número 1.667, que tem por
objetivo a promoção, proteção e defesa da
língua portuguesa no Brasil. O projeto já foi aprovado pela
Comissão de Educação e Cultura do Congresso Nacional
e se encontra na Comissão de Constituição e Justiça.
Por não criar despesa nem impostos, pode ser aprovado sem precisar
ir a Plenário.
O projeto de lei,
equivocadamente, passou a ser propagado como uma proposta radical que
proíbe o uso de palavras estrangeiras. A verdadeira intenção
é a promoção e preservação do idioma,
incentivando a aprendizagem do português e coibindo o uso desnecessário
de palavras importadas quando há equivalentes na língua
portuguesa, além de estimular neologismos e reforçar o aportuguesamento.
O autor do projeto explica: "Sou contra a substituição
de palavras já existentes no português por palavras de língua
estrangeira, como é o caso de delivery, que substitui 'entrega
em domicílio', play offs, no lugar de 'eliminatória', ou
sale, em vez de 'liquidação'".
A idéia nasceu
com o processo de integração econômica a partir dos
anos 90, com o surgimento da Área de Livre Comércio das
Américas (Alca) e de uma lei francesa chamada Toubon, de proteção
ao idioma pátrio. Na França, existem leis que obrigam o
uso da língua em todo o círculo de propaganda e venda de
bens e serviços - da embalagem à garantia, nas placas, anúncios
ou inscrições afixadas nos lugares públicos, nos
seminários e congressos (ainda que em tradução simultânea).
As publicações escritas em outros idiomas devem trazer,
ao menos, um resumo em francês, assim como os contratos de trabalho,
sem falar, evidentemente, do ensino. A conclusão a que chegou Rebelo
é que, além de conseqüências econômicas
e sociais, a globalização traz seqüelas culturais.
Como exemplo, cita
o Timor Leste, que restaurou a língua portuguesa imediatamente
após a independência da Indonésia. "Há
uma relação muito próxima entre política,
poder, economia, ideologia e idioma", ressalta. Para ele, a globalização
trouxe alterações nas tarifas alfandegárias, rivalizou
a relação entre países e estimulou o protecionismo.
"Por que com o idioma seria diferente?", questiona.
Rebelo não
questiona a influência natural de um idioma sobre outro: "É
um processo importante e necessário". O problema, para o deputado,
é que a renovação tem sido muito maior que o esforço
da preservação. "Meu projeto visa a estabelecer o equilíbrio
entre mudança, continuidade e permanência. Não é
nada contra a língua estrangeira, mas em defesa do nosso idioma".
A dúvida presente
é a seguinte: Como uma lei pode resolver um problema que nos parece
muito mais conseqüência da fragilidade cultural, da ineficiência
educativa e da falta de consciência de um povo? Nesse ponto, o deputado
é enfático: "Não há lei que impeça
a violência no trânsito, não há lei que impeça
crimes hediondos, mas há lei que iniba. O que impede o crime no
trânsito e a violência é a civilização
e a educação, mas eu duvido que alguém queira jogar
o código de trânsito no lixo por causa disso".
O desrespeito ao idioma
oficial é cometido pelo próprio governo. O Banco do Brasil
denomina de Personal Banking o caixa eletrônico; o IBGE batiza sua
página na Internet de IBGE Teen. O projeto de lei abrange a comunicação
oficial, o governo, as empresas, a mídia, o trabalho, o ensino,
o campo jurídico (elaboração de contratos) e os eventos
públicos.
Os grandes incomodados
foram os donos de empresas brasileiras que se sentem atraídos em
batizar seus estabelecimentos com nomes estrangeiros. As marcas internacionais
continuarão usando seus nomes originais, mas as nacionais terão
de mudar. "Há quem ache isso rigoroso, mas em Portugal existe
uma lista com nomes portugueses e as pessoas não podem batizar
um garoto com o nome de Willian, ou uma menina com o nome de Sheila. Nossa
lei é muito mais flexível e tolerante", garante Rebelo.
Outro entrave se refere
à punição, maior para pessoa jurídica (empresa)
e menor para pessoa física (cidadão). "A multa em UFIRs
foi retirada na Comissão de Educação já que
percebemos que a punição deveria ter o sentido de educar",
pondera o deputado. O infrator será primeiramente notificado para
fazer a mudança e, apenas se não acatar, receberá
uma punição educativa, que pode ser prestar um serviço
à comunidade ou disponibilizar ao governo (no caso de empresas)
uma parcela de seus produtos.
"Sou contra multas",
afirma Josué Machado, jornalista e autor da coluna Língua
desta revista. Segundo ele, é bobagem combater com unhas e dentes
a tentativa de infiltração de neologismos no Brasil: "É
comum que a língua do povo dominador invada outra; foi assim com
o grego, o latim. A língua do império é o inglês,
é natural que ela invada o português". Machado acredita
que o projeto do deputado é bem-intencionado, mas comenta que "os
excessos de purismos são uma balela". Mas também observa
que "é permissivo e terrível usar estrangeirismos,
porque denota uma falta de cultura. Aqui, o ensino é fraco, a leitura
é pouca, as pessoas não têm tempo de ler, enfim, o
Brasil é um país pobre de cultura", lamenta.
E a liberdade de expressão,
como é que fica nessa história? Como compatibilizá-la
com o projeto de lei? Para Aldo Rebelo, a livre manifestação
do pensamento não vai de encontro à sua proposta já
que as pessoas não estão impedidas de se manifestarem em
outros idiomas, de escutarem músicas estrangeiras ou de falarem
outra língua - como é o caso dos indígenas.
Pasquale Cipro Neto
(leia mais na pág. X), autor de Inculta & Bela (Publifolha,
149 págs., R$ 18), não é contrário ao projeto
de lei de Aldo Rebelo, mas acredita que lei não resolve o problema.
Para ele, o grande mérito do projeto é colocar o assunto
em discussão: "Não acredito que uma proibição
resolva". Em resposta a Pasquale, Rebelo é enfático:
"O que eu podia fazer é uma lei, porque eu sou deputado; se
eu fosse jornalista, escreveria um artigo em defesa da língua;
se fosse compositor, faria uma música".
Aliás, contra
o projeto de Rebelo não faltam depoimentos enfurecidos. Marcos
Bagno, linguïsta e autor dos livros A Língua de Eulália
(Contexto, 216 págs., R$ 19,50) e Preconceito Lingüístico
(Loyola, 136 págs., R$ 8), comenta que o projeto do deputado se
baseia numa concepção ultrapassada de língua, porque
"os estrangeirismos não fazem mal nenhum, pelo contrário,
enriquecem a língua portuguesa". Em uma carta-protesto enviada
ao autor do projeto, Bagno fuzila: "O projeto diz que 'nosso homem
do campo' não compreenderá o termo printar, porque é
um verbo formado com base no inglês. Mas será que esse mesmo
camponês entenderia o verbo imprimir?".
Segundo Bagno, a compreensão
ou não de uma palavra nada tem a ver com sua origem ou etimologia;
tem a ver com a coisa ou o fato que ela designa, com o mundo de referências
ao qual remete. Portanto, nem o brasileiro mais culto e bem informado
poderá entender termos que não façam parte do seu
universo de referências. "Só quem conhece o mundo dos
navios a vela, por exemplo, saberá o que é o sobregatinha,
giba, ostaga e draiva, entre outros termos igualmente poéticos
e estranhos, mas que são português 'puro'. Para muita gente
culta, eles soam mais estrangeiros do que drive, reset, delete, insert
ou download", argumenta. "O nosso camponês, por outro
lado, saberá perfeitamente o que é pênalti, gol e
drible, termos de origem inglesa que ficaram quase inalterados no português
do Brasil, bem como o nome do próprio futebol."
Bagno sustenta ainda
que não existe, hoje, nenhuma língua que seja falada como
há cinco mil anos: "O latim virou português e isto é
uma verdade comprovada cientificamente". O lingüista - que defende
tese sobre preconceitos lingüísticos na USP - sugere que se
analise a carta de Pero Vaz de Caminha, na qual existem muitas diferenças,
principalmente na gramática, em relação ao português
falado hoje. Mas, existem discordâncias. Barbosa Lima Sobrinho,
em A Língua Portuguesa e a Unidade Nacional, afirma que "não
se vê nenhuma alteração básica de Os Lusíadas
em relação aos textos de hoje, estrutura gramatical, vocabular".
O deputado Aldo Rebelo também concorda e diz que o português
manteve as linhas gerais na gramática, de maneira que seja possível
entender os textos fundadores, escritos no século XII, apesar dos
arcaísmos e das diferenças de pronúncia.
"Esse projeto
é imbecil", metralha o colunista da Folha de S. Paulo, Marcelo
Coelho. E ironiza: "Vou ter que andar com uma caderneta com todas
a expressões que já foram consagradas pelo uso? A língua
portuguesa deve se defender de si mesma. Essa lei não pega e nem
vai pegar. A questão da língua é domínio cultural
e a única maneira de vencer isso é lutando pela maior independência
do país, pela difusão cultural".
*Colaborou: Luciana
Vicária
Entrevista - Pasquale Cipro Neto
O limite é
o bom senso Para o professor Pasquale Cipro Neto, invasão de termos estrangeiros
se combate com educação - e não com leis
Luciana Vicária
Educação
- Na opinião do senhor, palavras como "hot dog", "scanear"
ou "deletar" devem ser traduzidas para o português? Pasquale - É uma questão delicada. Em tese, não
sou contrário ao estrangeirismo desde que seja uma novidade e venha
preencher uma lacuna, um termo que falte na língua. O que me incomoda
é o estrangeirismo usado de forma tola, para manifestação
de poder e coisas do gênero. Usa-se o estrangeirismo só a
título de tolice, para mostrar uma determinada "erudição".
Quanto a isso, não há lei que possa combater. Eu acho que
esse tipo de estrangeirismo tem de ser ridicularizado.
Educação
- O senhor poderia citar um exemplo? Pasquale - O cidadão que diz na TV que tivemos um pequeno
"delay na transmissão", por exemplo, é um imbecil.
O telespectador não entende o que é um pequeno "delay".
Outro exemplo é o "approach da curva" repetido em narrações
da corrida de Fórmula 1. O que é o "approach"
da curva? Esse tipo de estrangeirismo que as pessoas não entendem
é tonto.
Educação
- A incorporação de termos faz parte do processo evolutivo
da língua? Pasquale - Claro que sim, isso é normal em qualquer idioma
do mundo. Na prática, não existem línguas puras,
é algo que se idealizou, mas que não existe. Todas as línguas
sofreram influências de outras, com trocas e penetrações.
No tempo do império romano era chique saber grego, era a língua
da cultura clássica.
Educação - A importação de cultura estrangeira,
músicas, costumes, moda, tudo isso não acaba trazendo mais
termos importados?
Pasquale - Certamente, mas existe um abuso. Na Barra da Tijuca
(RJ) existe uma espécie de mini Miami. Lá, o povo adotou
uma espécie de "maiamês way of life". Chegaram
até a colocar uma estátua da liberdade em exposição
(fora de lugar porque, que eu saiba, ela não fica em Miami). Essa
importação de cultura descontrolada, de ideologia, de modo
de vida, é fruto de um estágio mental inferior. E depois,
na Copa do Mundo, essas mesmas pessoas balançam a bandeira do Brasil
e dizem que são brasileiras. Na verdade, elas não têm
idéia do que seja o Brasil e não conhecem nada da cultura
local.
Educação - Qual é, então, o limite entre
o exagero e o aceitável no uso de termos estrangeiros? Pasquale - O limite é o bom senso e o bom senso não
tem medida. É a necessidade, é o uso natural, espontâneo,
aquele que vem para preencher espaços ociosos. Isso é natural
em qualquer língua do mundo. O exagero está na loja que
escreve numa tabuleta "sale" ou "50% off". Eu não
entro numa loja dessas não porque sou professor de português,
mas porque minha inteligência é ofendida.
Educação
- O projeto do deputado Aldo Rebelo prevê a restrição
do uso de palavras e expressões de outros idiomas. Qual a opinião
do senhor a respeito?
Pasquale - Acho que o grande mérito do projeto é
colocar o assunto em discussão e talvez resolver um dos únicos
problemas que a lei possa resolver, que é a grafia. A grafia no
Brasil é uma babel monumental. O vocabulário ortográfico,
quando trata de termos estrangeiros, não tem um procedimento padrão,
alguns termos são aportuguesados, outros não. Falta critério.
Esse mérito o projeto tem, traz à tona um problema. Daí
a imaginar que lei resolva uso de estrangeirismo, acho que não
resolve.
Educação
- O deputado argumenta que a língua portuguesa é madura
e que, por isso, deve impedir o estrangeirismo. O que o senhor acha disso?
Pasquale - Isso é natural, a língua faz isso sozinha,
nós sofremos um ataque monumental no fim do século passado
e começo deste século - eu faço questão de
lembrar que o século ainda não mudou, a virada é
agora, 31 de dezembro deste ano - nos anos 20, 30 do francês. No
Rio de Janeiro, por exemplo, as famílias chiques - chique é
uma palavra francesa - só falavam em português com os criados.
A comunicação entre as pessoas da família era feita
em francês, o português era língua para se falar com
peão. Incorporamos muitos termos como: gripe, camelô, garagem,
vitrine e não aconteceu nada, não houve abalo, a estrutura
da língua foi mantida.
Educação
- A cultura é uma maneira eficaz de se preservar uma língua? Pasquale - A cultura e a educação. O povo lê
muito pouco, as escolas não funcionam bem e as pessoas não
tem amor à tradição cultural. Para preservar a língua
é preciso instituir um sistema educacional que fortaleça
isso. Quantos brasileiros já leram Machado de Assis? Guimarães
Rosa? Graciliano Ramos? São poucas pessoas que tem acesso a uma
educação de qualidade.
Educação
- Como o senhor avalia a situação do ensino fundamental
no Brasil?
Pasquale - Infelizmente não posso falar bem, a começar
pela estrutura da escola, pelo salário e despreparo do professor.
Está tudo muito ruim e por mais que se faça, por mais que
se tenha feito nos últimos anos, não mudou grande coisa.
O pior é saber que o professor ganha o que ganha e ainda tem de
ser policial. A escola pública se transformou num campo de batalha.
O traficante invade, o professor tem que tourear. Vamos ficar aqui brincando
de educação? A situação é terrível,
o país está à beira da guerra civil. O competente
jornalista Clóvis Rossi escreve há muito tempo que o Brasil
é a Colômbia amanhã. No começo, as pessoas
diziam que ele era maluco, mas está aí, o que está
acontecendo no Brasil hoje? Enquanto isso, fazemos de conta que as coisas
vão bem.
Educação
- A globalização permite um intercâmbio entre pessoas
de idiomas e culturas diferentes. Mas, até o momento, de poucas
pessoas. Isso reforça a desigualdade?
Pasquale - Sim, mas isso tem um efeito contrário: o feitiço
se volta contra o feiticeiro. A exclusão social é tão
grande que o Brasil não consegue mais profissionais em determinadas
áreas porque a estrutura é tão canalha que não
cria condições para que as pessoas estudem e se formem competentes.
Moral da história: ficam lacunas e o Brasil precisa buscar pessoas
fora do país. Aqui se privilegia mais a estupidez, a burrice, a
bossalidade. Com isso, perdem-se muitos talentos.
Educação
- O lingüista David Crystal afirma que as línguas estão
ameaçadas de extinção e que, ao mesmo tempo, o inglês
dominará o mundo.
Pasquale - Não acredito que as línguas estejam ameaçadas.
Talvez como segunda língua o inglês realmente reine. No mundo
ocidental sim, no oriental não. Na China, por exemplo, há
um bilhão de pessoas que não falam inglês. Mas que
o inglês domina como língua universal numa parte do mundo,
isso é inegável. Daí a supor que as línguas
venham a morrer, é uma outra história, totalmente diferente.
Na Itália, em cidades pequenas, mas ao mesmo tempo modernas, as
pessoas continuam falando o dialeto local, que é conhecidíssimo.
As pessoas são bilíngües, falam o italiano e o dialeto
local, e vai tudo bem, obrigado.
Educação
- Em Portugal, o mouse do computador é rato. Isso também
não é o outro lado do exagero? Pasquale - Lá, em geral, a população começa
usando o português. Se pegar, melhor. Os portugueses tiveram uma
influência brutal dos franceses em determinado período da
história. Há quem diga até que o fato de eles terem
travado a língua se deve ao francês. Tanto que os portugueses
de hoje tem dificuldade para ler Camões, os brasileiros lêem
bem melhor.
Educação
- Afinal, somos vítimas ou culpados pela invasão desses
termos importados? Pasquale - Em certo ponto somos culpados porque falta uma resistência
natural ao abuso. Mas não confunda, eu já disse e repito,
não há língua pura. O exagero é típico
de periferia, de um país como o Brasil. A partir do momento em
que uma pessoa usa um termo estrangeiro e não se faz entender,
ela é burra.
*Colaboraram: Juliana
Rocha Barroso e Lia Carolina Rossi