Educador português
quer desconstruir a organização do tempo e do espaço pedagógicos em busca
de mudanças radicais na educação
O professor Rui Canário
é homem de modos gentis, autor de textos complexos, mas dono de
fala clara, simples e desnorteante. Em tom calmo, como se estivesse falando
obviedades, é capaz de dizer coisas como: "Por séculos,
a educação ficou refém da escola, e os professores
ganharão com a quebra desse monopólio"; ou "As
pessoas têm saudades de uma época de ouro da Educação,
mas esquecem que nunca houve uma época de ouro. Talvez ela ainda
esteja por vir, em um futuro que pode levar séculos".
E foi, assim, quase
com humildade, que Canário encantou, no último dia 28 de
setembro, uma platéia atenta de mil educadores, na abertura do
IV Congresso de Educação Saber 2000, promovido pelo Sieeesp,
em São Paulo.
Doutor pela Universidade
de Lisboa, autor de diversos livros (nenhum deles editado no Brasil),
Canário participa de um grupo de pesquisa que inclui outros grandes
nomes da educação contemporânea, como Antonio Nóvoa.
Ao mesmo tempo, desenvolve projetos de campo, como novos modelos de ensino
para comunidades rurais portuguesas e para grupos minoritários,
como ciganos.
Depois de sua palestra,
Rui Canário recebeu Educação para a seguinte entrevista.
Revista Educação
- O senhor quer dizer quando afirma que nossa escola perdeu o prazo de
validade. Rui Canário - Costumo dizer isso porque há uma
maneira escolar de conceber os processo de aprendizagem, que não
se pode confundir com educação, de uma maneira mais ampla.
Essa forma escolar encarnou uma organização do espaço
e do tempo pedagógico que se tem mantido inalterada, apesar das
reformas e inovações no campo escolar. Vivemos hoje um período
de desconstrução dessa forma, e sua reinvenção,
a partir do conceito de educação permanente. Isso significa
valorizar a experiência dos alunos, valorizar a pesquisa (onde as
perguntas são mais importantes do que as soluções),
valorizar processos não-formais de educação, articular
a educação de adultos e de crianças, inserir socialmente
a ação especificamente escolar.
Educação
- Essa reinvenção da escola já acontece? O senhor
acredita em mudanças profundas a curto prazo? Canário - Ainda estamos muito no início de um
processo, que certamente levará bem mais tempo do que a duração
de uma vida humana. As mudanças, por enquanto, só acontecem
nas periferias dos sistemas, como projetos de ensino rural em Portugal.
Já tive referências sobre algo semelhante no MST (Movimenmto
dosTrabalhadores Rurais Sem Terra), no Brasil, mas não conheço.
Educação
- De toda forma, como seria uma escola que trabalhe dentro desses princípios? Canário - Temos visto muitas inovações
e progressos, mas não posso conceber como as escolas mudarão
este modelo, sem mudar sua estrutura de espaço e de tempo. Por
exemplo, na questão do espaço, que é standard. O
espaço fundamental da educação na escola é
a sala de aula. Tem as mesmas dimensões, as pessoas sentam-se sempre
de costas uma para as outras, de frente para um professor, que tem o dom
da revelação do conhecimento. O essencial da escola acontece
aí. O resto é secundário. Há corredores e
pátios, que funcionam como o canto do ringue de boxe, para descanso
do combate. A escola deveria ter espaços diversificados para as
diversas formas de trabalho: individual, em pequenos grupos, em grandes
grupos. Na Universidade de Paris VIII, o espaço mais importante,
para onde tudo converge, é a biblioteca. Esse é um caminho.
Cada vez mais, os alunos devem passar o tempo nas midiatecas, produzindo
conhecimento. A escola deve ter uma multiplicidade de ações
educativas, e não só aulas.
Educação
- E em relação ao tempo? Canário - Acontece a mesma coisa. Os horários
são repetitivos. Ora, por que as aulas duram 50 minutos? Na vida,
quando estamos gostando de fazer algo, queremos parar nos primeiros 50
minutos? Queremos mudar de atividade? O tempo da escola é o tempo
da linha de montagem. É desumanizante. A verdade é que a
escola parece a grande empresa fordista, cada professor sabe fazer seu
bocadinho e o aluno é a matéria-prima em transformação.
Mas a revolução que devemos buscar é outra. O aluno
não é um produto, nem um objeto, nem um cliente. A meu ver,
ele deve ser visto como um trabalhador, um produtor do saber. E mais:
precisamos admitir que as pessoas não são ensinadas: só
aprendem. Ninguém substitui o trabalho sobre si mesmo. As experiências
e os saberes de quem aprende é a principal matéria da qual
a educação deve partir.
Educação - Mas, quando falamos em qualidade de ensino,
não estamos novamente pensando como empresa, em certo sentido? Canário - Sim. Em todo o mundo, a escola é subordinada
à racionalidade econômica e à forma escolar, da qual
falei acima. Mas educar não é treinar pessoas. O conceito
de qualidade é transposto do meio empresarial, onde o objetivo
é produzir mais, e isso não pode ser o valor máximo
de uma atividade educativa. Não acho positivo que a escola continue
subordinada aos valores que regem o mundo econômico. Não
se trata de negar esse mundo, mas de valorizar a realização
integral do ser humano.
Educação
- Mas, então, quando criticamos as escolas que temos hoje, estamos
criticando o quê? Canário - Esse é o problema. No Brasil ou em Portugal,
e em muitos outros países, as pessoas criticam como se a escola
tivesse vivido uma idade de ouro. Mas isso nunca aconteceu, e o que havia
era uma escola extremamente elitista. Quando veio, a massificação
trouxe consigo um conjunto de fatores que podem ser visto como negativos,
embora a massificação em si seja uma conquista. A ascensão
através do diploma escolar marcou a visão da escola na sociedade,
e hoje, quando os diplomas não são garantia de emprego,
a escola perde também importância para a sociedade.
Educação
- Que outros fatores negativos originaram-se da massificação? Canário - Por exemplo, a desvalorização
do professor, que se proletarizou. O aumento pela demanda de professores
massificou também a formação, levou à perda
de importância social. Acho que é fundamental se revalorizar
a função dos professores, mas acho que eles não podem
esperar isso do governo ou da direção das escolas. Devem
se posicionar nesse contexto de transformações, em que a
massificação como conhecemos deixará de existir.
A educação vai deixar de ser sinônimo de escola, acontecendo
em outros ambientes, por exemplo, ambientes comunitários. A educação
vai deixar de ser refém da escola, e os professores ganharão
com a perda do monopólio.
Educação
- Isto acontece em todo o mundo? Há uma homogeneidade entre os
sistemas escolares? Canário - A Educação é um dos domínios
em que há mais similaridade, em todo o mundo. Nas grandes linhas,
os modos de atuação são comuns e parecidos, sejam
países ricos ou pobres, democráticos ou ditatoriais. Todos
evoluem de forma semelhante, tendendo, por exemplo, à massificação
do ensino. Um dos motivos para que isso seja assim, é justamente
porque o sistema escolar surgiu para acabar com os particularismos, para
unificar línguas, valores, homogeneizar.
Educação
- Nos últimos anos, a educação brasileira vem recebendo
uma avalanche de novos conceitos. Temos a Pedagogia de Projetos, da Universidade
de Barcelona (Espanha); a influência de Construtivistas, de várias
procedências, as Inteligências Múltiplas (Estados Unidos).
Que caminhos escolher? Canário - O mais perturbador, a meu ver, é que
esses conceitos surjam, cada um, como soluções globais,
muitas vezes até como um conjunto de receitas. Todas essas correntes
são válidas, tem seus aspectos positivos e também
aspectos negativos, como tudo. A contribuição de Piaget,
por exemplo, é fundamental, ao mostrar como se produz o conhecimento.
Mas quero sublinhar que, de um ponto de vista científico, nenhuma
teoria pode ser prescritiva, não pode ter caráter de receita.
A verdadeira questão é a mesma de sempre: como o educador
vai se apropriar dela para tornar a sua prática mais lúcida?
A pergunta é a mesma de sempre: o que é educar? Por isso
dou muito valor ao brasileiro Paulo Freire, às suas idéias
da educação de um ponto de vista da filosofia e da política.
Ele nos ensina que a resolução do problema da escola não
é separável de um reequacionamento da sociedade.
Educação
- Já que falamos do professor, como deve ser a sua formação
para esta escola reinventada? Canário - Acredito que mais do que a formação
nas faculdades, o professor deverá completar seu aprendizado no
fazer, no trabalho dentro da escola. Acredito que a função
do professor deverá se organizar em quatro pólos: como analista
simbólico, que equaciona e resolve problemas; como profissional
das relações entre pessoas e saberes; como artesão,
que constrói e reconstrói o seu saber profissional permanentemente;
como construtor de sentido para as ações educativas. Valorizo
muito o lado generalista do professor das primeiras séries. Deveríamos
aprender com o professor de educação infantil e com os professor
das séries iniciais. Acho que a tendência atual é
reverter a especialização excessiva, que produziu ignorantes
especialistas. Em todas as áreas, inclusive na Medicina.
Educação
- O senhor tem ressaltado a importância de valorizar o saber do
aluno. O professor de hoje não faz isso? Canário - Freqüentemente, não. É como
o caso real que contei em minha apresentação do Saber 2000.
Certa vez, uma professora perguntou ao aluno sobre como poderia ser medida
a altura de um prédio, utilizando um barômetro (aparelho
que mede pressão). A resposta esperada seria que o estudante respondesse
que, ao chegar ao topo do edifício, seria tirada a pressão
atmosférica, para que se calculasse a altitude. O aluno fez um
raciocínio diferente, e apresentou alternativas. Por exemplo: 1)
amarrar um barbante no barômetro e descê-lo até a base
do edifício. Quando encostasse no chão, poderia se medir
o barbante e saber o resultado. A resposta não foi aceita. 2) Não
se dando por vencido, o estudante elaborou outra solução,
desta vez jogando o aparelho atmosférico prédio abaixo.
Com isso poderia cronometrar o tempo da queda, fazendo cálculos
a partir do peso do barômetro. A resposta foi desdenhada. Mesmo
assim, o aluno insistiu, desta vez utilizando sombras. Como? A partir
da medida da sombra do barômetro contra o sol, o aluno calcularia
quantos aparelhos iam ser necessários para alcançar o tamanho
da sombra do prédio, e a partir daí calcular as proporções.
Nada feito. Já exausto, o aluno deu sua cartada final. Propôs
que se fosse feito uma troca com o porteiro do edifício. O barômetro
em troca da informação pedida. Resposta errada! Isso ilustra
dois problemas da educação, hoje: o desprezo pelos ensinamentos
adquiridos fora de aula e a preferência pelas perguntas cujas respostas
já sabemos.