Houve tempo em que
a maioria das mulheres era encarada como enfeite, objeto de prazer e matriz.
Isso acabou faz tempo. Talvez não de todo, convém admitir,
e é bom que um ou outro desses aspectos se mantenha para dar cor
e sentido à vida. O fato é que elas passaram a ter acesso
a alguns cargos que não reivindicavam ou a que não as julgavam
capazes. Coisa feia. Passaram então a conquistá-los com
competência e algum encanto, privilégio de quem pode. Daí
certa resistência de autoridades, autores e gramáticos a
flexionar os nomes dos cargos exercidos por elas.
Se as mulheres já
eram princesas, rainhas, imperatrizes, ainda que por direito divino, por
que não senadoras, deputadas, vereadoras, prefeitas, ministras,
embaixadoras, consulesas, juízas, delegadas e o que mais ocorrer?
Presidente ou presidenta?
- A flor se despetala, no entanto, em relação a "presidente".
A maioria considera correto "a presidente" por causa da uniformidade
dos adjetivos terminados em "nte", do latim "ns",
como amante, ausente, demente, estudante, ouvinte, prudente, vidente,
e outras. Por isso Machado de Assis (1839-1908) escreveu em "Quincas
Borba": "À mesa fê-lo sentar ao pé de si,
tendo do outro lado a presidente da comissão."
Mas Antônio
Feliciano de Castilho (1800-1875) escreveu em "Sabichonas":
"À nossa presidenta, e às minhas sócias, peço
se dignem perdoar-me o intempestivo excesso."
Apesar da boa razão
etimológica, é provável que pela devastadora pressão
feminista "presidenta" venha a se firmar, porque muitos especialistas
já a consideram a forma preferível. Imagine-se dona Ruth
Cardoso na presidência da República. Se não fosse
chamada de "presidenta", usaria a palmatória. Em relação
aos outros cargos, no entanto, a forma feminina é aceita sem discussões.
Não foi por
resistência, portanto, que uma repórter escreveu por engano
"cônsul brasileira" (engano do computador, claro). É
consulesa.
Sobre o sentido de
embaixatriz e embaixadora já houve alguma discussão entre
os sábios. Caldas Aulete e outros dicionários registram
embaixatriz como a mulher que desempenha funções iguais
ou semelhantes às de embaixador e também mulher de embaixador.
E embaixadora como mulher encarregada de missão particular e forma
feminina popular de embaixador. O Aurélio e o Melhoramentos registram
as mesmas acepções, mas consideram, com a maioria dos especialistas
modernos, que embaixadora é representante diplomática e
que embaixatriz se tornou a mulher do embaixador.
Já que estamos
na diplomacia, é bom lembrar que embaixador (do italiano ambasciatore)
é a categoria mais alta de representante diplomático de
um Estado junto de outro Estado ou de um organismo internacional. E também
o título de ministro de primeira classe. Quanto a cônsul
(do latim consul, consulis, antigo magistrado romano), é o funcionário
diplomático encarregado de proteger os cidadãos de uma nação
em país estrangeiro.
Embora os dicionários
nem sempre registrem a forma feminina, é óbvio, convém
repetir, que ela corresponde às mesmas funções exercidas
por mulheres. Porque elas já substituem bem os homens em tudo,
não raro com vantagem. Se não em tudo, em quase tudo. Às
vezes, lamentavelmente, em concorrência desleal até nas coisas
do amor. Isso não fica bem.
PS - Na verdade
toda essa conversa é meio vã, porque a lei federal nº
2.749, de 2/4/56, e a lei estadual nº 27.407, de 8/2/57, determinam
que se dê forma feminina às palavras designativas de cargos
ocupados por mulheres. Mas já se sabe que há leis que pegam
e leis que não pegam. É só olhar ao redor.