Para
proteger e manter a vida, finalidade máxima da educação, é preciso transbordar
amor
A docência
é uma forma de desdobramento. Piegas? Não, verdadeiro. Ser
professor é ser aquele que, antes de tudo, se compraz no encontro,
na junção, na relação. É ser aquele
que tem como mote algo que é extremamente romântico - e por
isso bonito, jamais descartável: termos uma humanidade que viva
em confraternização, com fraternos, irmanada.
Não há
nenhum risco em assumir essa amorosidade. Fernando Pessoa já dizia
que todas as cartas de amor são ridículas, mas mais ridículo
é quem não as escreve. Quem não ama é incapaz
de se desdobrar.
Em tempos ego-narcísicos
como os nossos (nos quais a palavra de ordem continua sendo acumular o
máximo possível de bens e aumentá-los a qualquer
custo, em benefício individual), a docência parece caminhar
na contramão dessa lógica: sempre que pudermos, queremos
é aumentar o que de melhor temos para poder repartir ainda mais.
Quanto mais aquilo que acumulamos (conhecimentos, valores, emoções)
puder ser partilhado, mais nos sentimos bem. Somos incontidos; parece
que não cabemos em nós mesmos, precisamos transbordar.
É fundamental
valorizar a atividade docente como um ato de amorosidade. Há quem
diga que, em se tratando da realidade brasileira, isso é praticamente
impossível. Mas é exatamente em condições
difíceis que a amorosidade é imprescindível.
Só se desiste
de algo quando se deixou de amá-lo. O mesmo serve para o ato docente:
não se pode desistir. É preciso alimentar essa amorosidade,
colocá-la em conjunto, debatê-la, lutar por ela. Educação
e atividade docente não se fazem isoladamente. A briga que vale
a pena ser brigada é a briga coletiva, ensinou Paulo Freire. Organizar-se
e reivindicar condições dignas de trabalho serve para fortalecer
esse amor; estudar, aperfeiçoar-se, refletir sobre a docência
também ajuda a manter sadia a amorosidade. Porque ela tem que ser
competente; senão, é mera boa disposição.
Há alguns professores
hoje que, se pudessem, escolheriam o dia 2 de novembro, Finados, como
Dia do Professor. Ora, Finados é a desistência. Fico tentado
a nos colocar em 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, não
porque santos sejamos, mas por dos santos partilharmos a sã loucura,
que é fazer o que precisa ser feito, e que pareceria um contra-senso
fazer. Claro que muitas políticas públicas quase colocam
o Dia do Professor em 31 de outubro, Dia das Bruxas; esotéricas
ou pedagogicamente dissimuladas, a verdade é que essas políticas
vêm sendo assustadoras.
No mês passado,
em 19 de setembro, Paulo Freire faria 79 anos; esse também poderia
ser um belo Dia do Professor, não? Afinal, o que fez nosso Mestre
foi engravidar milhares de homens e mulheres pelo mundo afora com sonhos
e idéias, entre as quais a principal é que a finalidade
da educação é proteger e manter a vida.
No entanto, como sempre
ele nos lembrava, é preciso estar vigilante a respeito da própria
amorosidade e não permitir o enfraquecimento da esperança.
Por isso, quando fazemos uma lista das razões pelas quais somos
docentes, a coluna dos "apesar de" não pode ficar maior
do que a dos "por causa de".