Contato
com a arte pode mudar destino de jovens que convivem com pobreza, drogas
e violência
Uma vez por semana,
um grupo de 42 adolescentes encontra-se na Escola Municipal Dejane Ribeiro
Campos, em Cuiabá (MS) para dar início a mais um ensaio
da Orquestra de Flautas Doce - um dos orgulhos da cidade. Os mais experientes
comandam as batutas, os mais novos, as flautas doce. Nem todos sabem manusear
com precisão os instrumentos. Mesmo assim, participam do ensaio.
"Não vira
uma bagunça. Os mais velhos são respeitados e orientam os
novatos. Todos tocam os instrumentos, é uma metodologia que torna
o processo mais interessante", afirma Gilberto Mendes, coordenador
e idealizador do programa, que é financiado pela Secretaria Municipal
de Educação.
A orquestra de Cuiabá
é uma das ações que mereceu destaque no livro Cultivando
a Vida, Desarmando Violências (583 págs., R$ 30). Lançado
pela Organização das Nações Unidas para a
Educação, Ciência e a Cultura (Unesco), a publicação
selecionou 30 ações exemplares no combate à violência
e proteção dos direitos humanos.
Fruto de uma pesquisa
de mais de um ano que levou em conta 222 experiências, o livro da
Unesco registra uma tendência que se espalha pelo Brasil: o uso
da arte, por organizações não-governamentais e poder
público, como instrumento de socialização entre jovens.
"Queríamos
ilustrar a diversidade dos projetos de promoção à
cidadania. Todos, no entanto, traziam presente um elemento cultural. Alguns
de forma bastante intensa, outros em menor proporção",
afirma Mary Garcia Castro, coordenadora da pesquisa da Unesco. Ela lembra
que a violência é incompatível com o belo, daí
a importância da arte.
Segundo a pesquisadora,
o mérito desses trabalhos é fazer do jovem o protagonista
de sua mudança. "Com a arte, eles são criadores e criaturas,
assim como os pintores." A transformação dos jovens
é visível em outra das experiências selecionadas pela
Unesco. Em Belém (PA), por exemplo, a Secretaria Municipal de Educação
e os jovens uniram-se para embelezar a cidade. Em 1999, foi lançado
o projeto Cores de Belém.
Atualmente, a iniciativa
está presente em dez escolas, unindo o governo a grupos que se
tornaram grafiteiros. "Despertamos nos jovens um novo olhar sobre
o patrimônio público e, ao mesmo tempo, damos possibilidades
para que eles procurem mais elementos para congregar seu movimento artístico",
afirma a coordenadora da equipe técnica de arte-educação,
Celza Chaves.
Como resultado, a
prefeitura conseguiu diminuir o índice de depredação
patrimonial e legitimar o trabalho artístico dos jovens. "Os
participantes afastaram-se dos meios da marginalidade e deixaram de cometer
atos de vandalismo. Também houve uma melhora na auto-estima desses
jovens", conta Celza.
Além de promover
uma mudança na estrutura emocional dos adolescentes, as ações
destacadas pela Unesco também contribuem para diminuir um apartheid
brasileiro: a exclusão do acesso aos bens culturais. Só
na cidade de São Paulo, segundo pesquisa da Organização
Mundial da Saúde (OMS), 88% dos jovens que residem em bairros com
alto índice de violência e uso de drogas nunca assistiram
a espetáculos de balé clássico, e 52% nunca foram
a um museu de arte. A situação dos meninos que vivem nas
ruas do centro não é diferente. Pior, nesse caso, é
que eles dormem nas portas dos cinemas e mendigam na entrada do Teatro
Municipal.
Para inverter o quadro,
há seis anos a Fundação Projeto Travessia promove
os direitos de crianças e adolescentes moradores de rua da região
central da cidade. Com trabalhos sócio-educativos, a entidade faz
da arte um dos elementos de "travessia" para que eles abandonem
o uso das drogas, deixem de cometer delitos, voltem ao convívio
social e criem novos projetos de vida.
"Utilizamos a
arte como uma maneira de apresentar o mundo para esses meninos. O trabalho
artístico é também um forte comunicador. Com tintas
nas mãos, os adolescentes contam suas histórias sofridas
e, na mistura de cores, percebemos que a violência ainda não
os matou", explica Regina Kutka, artista plástica e educadora
da Fundação.
O teatro, o balé,
o cinema, a música erudita e até mesmo a programação
de televisão só passaram a fazer parte da vida da ex-menina
de rua Odília Sharon Rosa Barbosa de Oliveira, 16 anos, quando
ela começou a participar das atividades promovidas pela Fundação.
"Quando eu morava
na rua, tinha muita vontade de ir ao cinema, mas estava sempre na correria,
roubando ou usando cola. Agora eu vejo peça de teatro, paro para
escutar música e, na semana passada, fui ver Planeta dos Macacos
no cinema", diz Odília. Na opinião dela, a arte foi
fundamental para mudar. "Experimentei a arte da rua, que só
atrasou meu lado, que me destruiu um pouco. A outra, salvou minha vida",
conclui.