Literatura
de cordel ganha salas de aula e transforma-se em instrumento pedagógico,
da educação infantil ao ensino médio
"Cordel quer dizer barbante
Ou senão mesmo cordão,
Mas cordel-literatura
É a real expressão
Como fonte de cultura
Ou melhor poesia pura
Dos poetas do sertão.
(...)
O chamado trovador
Ou poeta popular
Era semi-analfabeto
Porém sabia rimar,
Seus folhetos escrevia
E os sertanejos os liam
Por ser o seu linguajar.
(...)
O cordel é dividido
Escrito, cantado, oral,
Porém o cordel legítimo
É aquele tipo jornal,
Que trazia a notícia nova
Em sextilhas, nunca em trova
Que agrada o pessoal.
(...)
O cordel sendo cultura
Hoje tem sua tradição,
Chamado literatura
Veículo de educação
Retrata histórias passadas
Que estão documentadas
Para toda geração."
Estrofes retiradas
do folheto Origem da Literatura de Cordel e A Sua Expressão de
Cultura Nas Letras de Nosso País, de Rodolfo Coelho Cavalcante.
Veio o rádio,
a televisão, a internet. A cada novo avanço tecnológico
das comunicações era decretado o fim dos folhetos de cordel.
No entanto, apesar de ter enfrentado momentos de penúria, a tradicional
literatura popular escrita em versos sobreviveu, e mais: ganhou os bancos
escolares, nos quais alunos da educação infantil ao ensino
médio a estudam e praticam.
No ano passado, em
uma viagem pelo nordeste, berço do cordel no Brasil, a professora
de português Regina Pavani Patriota adquiriu alguns folhetos e,
impressionada com o envolvimento das pessoas daquela região com
esse tipo de literatura, resolveu apresentá-la aos estudantes da
Escola Estadual Padre Manoel de Paiva, de ensino médio, localizada
no bairro do Campo Belo, em São Paulo, onde leciona.
"É muito
interessante porque é popular e aborda temas atuais e do cotidiano",
explica. No semestre passado, Regina realizou atividades de leitura e
preparação de textos pelos próprios estudantes. "Se
eles têm dificuldade para escrever prosa, imagine então em
versos. Mas o resultado foi impressionante e todos se envolveram bastante",
orgulha-se.
Patativa -
A professora conta que a maioria dos alunos não sabia o que era
cordel. Fernanda Andrade Pinheiro, 16 anos, foi exceção.
Seus primos são donos da editora Hedra que, em 2000, colocou no
mercado uma série de livros de bolso com textos de cordelistas
famosos (Série Biblioteca de cordel, 10 volumes, cerca de 130 págs.,
R$ 10 cada). "Além disso, um outro primo meu é prefeito
de Assaré (CE) e chegou a conhecer o poeta Patativa. Trabalhar
com literatura de cordel em sala de aula é interessante porque
é uma maneira de se envolver mais com a poesia", acredita
a estudante. Sua colega de sala, Suzana Aparecida de Oliveira, também
aprovou as atividades sugeridas pela professora. "Eu já tinha
ouvido falar em cordel mas nunca havia lido nada, foi bom conhecer",
revela.
A expressão
"literatura de cordel" foi cunhada por estudiosos da cultura
popular para designar os folhetos vendidos em feiras, em uma referência
ao que se fazia em Portugal, onde cordéis eram sinônimo de
livros impressos em papel barato, vendidos a preços baixos e expostos
pendurados em barbantes, cordões, daí o nome.
Embora os folhetos
brasileiros sejam uma herança portuguesa, esse tipo de literatura
existiu (e em alguns lugares ainda existe) em quase todo o mundo, principalmente
na Europa (Alemanha, Holanda, França e Inglaterra). Aqui ela começou
a desenvolver-se no final do século XIX e fez sucesso nos sertões
e áreas rurais, desempenhando a função informativa
dos jornais, já que a circulação destes ficava restrita
às capitais e cidades de maior importância. Estima-se que
o Brasil já produziu mais de 40 mil folhetos. Hoje, acredita-se
que existam 2 mil poetas em atividade.
Envolvendo realidade
e ficção os temas abordados pelos cordelistas são
os mais diversos, desde disputas eleitorais entre políticos e problemas
sociais até histórias de amor e aventura que têm como
personagens reis, rainhas e princesas. No entanto, dois assuntos destacam-se
na preferência dos poetas: a religião (principalmente a devoção
do povo a Padre Cícero e Frei Damião) e o cangaço
(narrações sobre as façanhas de homens como Lampião
e João Calangro).
Além da arte
poética, os folhetos também trazem ilustrações
em suas páginas - reproduções de desenhos, fotos
coloridas ou então as tradicionais xilogravuras de artistas populares.
As gravuras talhadas em madeira (imburana, cedro ou pinho) passaram a
ser utilizadas na década dos 40 como uma forma de poetas e editores
baratearem o custo de produção de suas obras.
Em abril passado,
o Sesc Pompéia, na capital paulista, sob a curadoria do jornalista
Audálio Dantas, organizou a exposição 100 Anos de
Cordel, oferecendo feira de folhetos e xilogravuras, shows musicais, oficinas
e palestras sobre a literatura popular. Motivada pelo evento, a escola
de educação infantil Grão de Chão, situada
no bairro de Perdizes, em São Paulo (SP), programou uma visita
com seus alunos da pré-escola.
Há quatro anos
os professores já haviam desenvolvido um trabalho sobre os cem
anos da Guerra de Canudos utilizando o cordel. "Naquela oportunidade,
apresentamos aos alunos os aspectos geográficos do nordeste. Dessa
vez, quisemos trabalhar a estrutura de linguagem dos folhetos: suas rimas,
versos, estrofes", explica a coordenadora pedagógica Paula
Antunes Ruggiero.
Aos alunos foram apresentados
alguns cordéis, como A Raposa e o Urubu e Criança Responde,
este último, um jogral de perguntas e respostas com temáticas
infantis. Depois, entre outras atividades, as crianças fizeram
o registro de uma festa de aniversário em pequenas trovas. Foi
uma produção coletiva, com os meninos construindo rimas
com o auxílio da professora.
Cultura popular
- "As crianças do Grão de Chão têm
muito contato com literatura. Desde muito cedo eles ouvem poesia, parlendas
e histórias, além disso valorizamos a cultura popular e
a apresentamos com muito respeito", comenta Regina, que completa:
"O encanto no aluno nasce na forma como o professor apresenta o material.
Quando a gente mostra um cordel e diz 'olha que coisa legal que eu trouxe
para vocês', contando a história, explicando o porquê
do nome, isso produz na criança o desejo de olhar aquilo com carinho."
Postura semelhante
é a das professoras Josca Ailine Baroukh, a Jô, Madalena
Monteiro e Lynn Carone, que lecionam no Vera Cruz, no bairro do Alto de
Pinheiros, São Paulo (SP), para as crianças do ensino infantil.
O projeto pedagógico escolhido para este ano visa apresentar aos
estudantes maneiras de brincar diferentes daquelas que eles praticam hoje,
na era das diversões eletrônicas.
Assim, começaram
a procurar uma história a partir da qual pudessem desenvolver atividades
lúdicas integradas ao aprendizado. Madalena, que também
é contadora de histórias, sugeriu o livro A Pedra do Meio-Dia
ou Artur e Isadora (Editora 34, 77 págs., R$ 9), de Bráulio
Tavares, escrito em forma de cordel e no qual são apresentados
diversos desafios aos personagens.
Baseadas na narrativa,
as professoras criaram um jogo de caça ao tesouro para as crianças.
Primeiramente, depois de conhecer a história, todos tiveram de
recontá-la. Uns fizeram de forma escrita, outros de forma oral.
"Os alunos adoram rima e envolvem-se bastante com os textos poéticos",
diz Lynn.
Em sua sala, Jô
optou por anotar os comentários dos alunos. "Com isso, procurei
mostrar as diferenças entre a linguagem escrita e a falada, pois
eles repetiam muito 'aí' e 'então'. Juntos, fizemos a edição
daquilo que eles recontaram e produzimos um livro, cujas ilustrações
são 'xilogravuras' feitas com isopor", conta. Embora o resultado
final tenha sido um texto em prosa, em algumas partes os alunos produziram
rimas. "A sonoridade das palavras fica guardada na cabeça
deles."
Todos os professores
que têm trabalhado com o cordel - mesmo os que lecionam em uma cidade
como São Paulo, onde é difícil encontrar folhetos
à venda - se mostram satisfeitos com o resultado das atividades
que aplicam aos alunos. Com a intenção de sugerir novas
formas de usar essa literatura como instrumento pedagógico, os
pesquisadores Hélder Pinheiro e Ana Cristina Marinho Lúcio
lançaram recentemente Cordel na Sala de Aula (Editora Duas Cidades,
110 págs., R$ 12), livro que conta a história dos folhetos,
apresenta um painel dos temas mais presentes e traz sugestões metodológicas
de sua abordagem nas escolas. Mas os autores avisam: "É possível
criar um ambiente agradável de invenção e apreciação
dos folhetos sem o tormento da criação obrigatória.
Afinal, como lembra Carlos Drummond de Andrade, precisamos mais de amadores
de poesia do que propriamente autores."
Entenda os folhetos
- Pelejas - os desafios
aparecem nos cordéis em uma reprodução do que acontece
nas feiras e casas de cantadores de viola. Nesses folhetos, cada poeta
mostra suas habilidades no verso e procura depreciar o oponente. Geralmente
são escritas em ritmo de "martelo" (versos decassílabos,
com acentuação nas terceira, sexta e décima sílabas).
- Folhetos de circunstância
ou de época - esta modalidade relata os últimos acontecimentos
políticos do País e do mundo, além de histórias
curiosas de assassinatos de pessoas famosas ou assombrações
que andam pelo sertão. Alguns tornaram-se clássicos, como
os que versam sobre as mortes de Padre Cícero, Getúlio Vargas
e Tancredo Neves.
- ABCs - poemas narrativos
em que cada estrófe corresponde a uma letra do alfabeto.
- Romances - folhetos
comumente escritos em sextilhas, com rimas em ABCBDB. Também são
mais volumosos: têm de 24 a 56 páginas, enquanto as pelejas
e folhetos de circunstâncias têm de 8 a 16 páginas.
Fonte: Cordel na Sala de Aula, de Hélder Pinheiro e
Ana Cristina Marinho Lúcio.