Fotógrafa
Mila Petrillo recebe prêmio Jornalista Amigo da Criança por
seu trabalho à frente de projetos sociais pela infância e
juventude
Sua câmera já
registrou os eventos mais importantes envolvendo educação
e cidadania nos últimos 15 anos. Esteve em centenas de ONGs e programas
sociais para trazer, até nós, as cores e faces da infância
e juventude brasileiras.
O leitor de Educação
já conhece bem o trabalho da fotógrafa Mila Petrillo: há
mais de um ano a revista vem publicando suas imagens, entre elas as do
Projeto Axé e da Cidade Escola Aprendiz. Filha de pai produtor
de publicidade e mãe pintora, Mila cresceu entre tanques de química
e tinha equipamentos disponíveis o tempo todo.
Começou cedo,
fazendo imagens de cena e reproduções de obras de arte.
Já fez fotos policiais, de espetáculos, de política,
mas foi no caderno de cultura do jornal Correio Braziliense que aperfeiçoou
sua sensibilidade para fotografar crianças e adolescentes.
Este mês, o
trabalho de Mila Petrillo foi reconhecido pela Agência de Notícias
dos Direitos da Infância (Andi) com o título Jornalista Amigo
da Criança, prêmio já concedido a profissionais do
calibre de Clóvis Rossi, Élio Gaspari e Sebastião
Salgado.
Não é
difícil reconhecer a assinatura invisível dos trabalhos
de Mila. Sua extensa quantidade de imagens sempre procura retratar cenas
alegres, mesmo que sob condições adversas, como é
o caso das cerca de 100 mil crianças desnutridas atendidas pelo
Iprede, no Ceará. "É uma cena de Somália, aqui
perto de nós, no Brasil", lamenta. Mas não desanima
e segue em frente, máquina fotográfica em punho, 7 kg de
equipamentos nas costas, olho atento, a registrar novas iniciativas -
da sociedade organizada, de empresas, do governo -, que ajudem colorir
quadros tristes como esse.
Educação
- Como você começou a fotografar?
Mila Petrillo - Fui para o Correio Braziliense em 1984, para trabalhar
com o Reinaldo Jardim, um gênio do jornalismo que praticamente inventou
o Caderno 2. Ralei muito no caderno de cultura. Eram doze páginas
para um único fotógrafo. Naquela época não
se tinha a quantidade de fotos de divulgação que se tem
hoje: peças de teatro, gente que vinha de outros países,
artistas de outros estados, era preciso fotografar tudo. Trabalhava de
manhã, à tarde e à noite e ainda tinha uma filha
de três anos para cuidar. Mas Brasília não é
como São Paulo e eu levava minhas três filhas - depois vieram
outras duas - ao jornal, andava com elas a tiracolo para tudo quanto é
canto. Eu era a única fotógrafa mulher do departamento.
Tinha um chefe machista que vivia dizendo que "mulher trabalhando
tirava emprego de pai de família". Para me desafiar, ele me
mandava cobrir Cidades, Política, Polícia. Foi uma época
maravilhosa, mas também muito puxada. Me deu experiência
e rapidez. Depois disso, fiz fotos para Istoé, Veja, Folha, Globo
Rural, Marie Claire, Elle, Estadão, enfim, uma porção
de outros lugares.
Educação
- Como você se envolveu com os projetos sociais que trabalham com
crianças e adolescentes?
Mila - Comecei fotografando o Projeto Axé, na Bahia, sete
anos atrás. Foi uma experiência muito forte para mim, profunda,
honesta e transformadora. Sinto o Axé como um divisor de águas.
Fiquei dez dias lá, patrocinada pela Kodak, e foi operando-se em
mim uma transformação muito profunda. Os meninos do Axé
abriram mão de uma liberdade rápida, das ruas, e trocaram
isso por uma possibilidade maior de futuro. Evitaram aquele destino trágico
dos garotos em situação de rua. Não perdi esse vínculo
com o Projeto Axé até hoje. E também com Césare
La Rocca, criador da pedagogia do desejo que é implantada no Axé.
Lá, todo trabalho é feito no sentido de tornar os meninos
"desejantes", trabalhando com arte e com estética para
se chegar à ética. Depois do Axé, vieram as fotos
para o Instituto Ayrton Senna, em 1995. Eles queriam fazer uma revista
e precisariam de fotos dos 15 projetos que apoiavam. Entre esses projetos
estão o Instituto de Prevenção à Desnutrição
e à Excepcionalidade (Iprede) e a Escola de Dança e Integração
Social para Criança e Adolescente (Edisca). O Iprede trabalha com
crianças desnutridas, é uma coisa que choca. Você
chega lá e se depara com aquela cena de Somália, aqui no
Brasil, em Fortaleza, no Ceará. Criança de 6 meses pesava
1,8 kg, depois de já estar no projeto há dez, quinze dias.
É uma realidade dura e muito triste, que sempre me abalou.
Educação
- Como é o trabalho da Edisca?
Mila - A Edisca é um projeto que envolve dança e
foi criado pela bailarina Dora Andrade, também em Fortaleza. Ela
começou a fazer um trabalho com meninas de baixíssima renda,
que viviam próximas ao lixão de Jagurunçu. Dora criou
um projeto de excelência para essas garotas, com atendimento integral.
Os espetáculos da Edisca são de tanta qualidade que podem
ser vistos em qualquer lugar do mundo com olhos rigorosos e críticos,
não há necessidade de se ter uma visão generosa.
Esse misto de educação e arte, aliás, é muito
inspirador. É dessa maneira que os projetos sociais vêm seduzindo
garotas e garotos em situação de rua, tão acostumados
ao abandono.
Educação
- Este mês você será diplomada Jornalista Amiga da
Criança pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(Andi). Que outros prêmios você já recebeu pelo trabalho
em educação?
Mila - Recebi o Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, em 1998,
com uma série de fotos da Edisca que foram publicadas na revista
Marie Claire. Ganhei três vezes o Prêmio Apac, concedido pela
Associação dos Produtores de Arte e Cultura de Brasília
para profissionais que trabalhavam com imagens na área cultural.
Também ganhei a Comenda Carlos Gomes pela atuação
na fotografia de cultura. E recebi o Prêmio Meia Sola, dado pela
Fundação Cultural do Distrito Federal para pessoas que gastam
a sola fazendo fotos. O troféu é um sapatinho de criança.
Quanto ao Jornalista Amigo da Criança, me sinto muito honrada,
já que se trata de uma estratégia de reconhecimento e de
manutenção da pauta de educação. É
uma maneira de firmar um compromisso. De certa forma, trabalho com essa
preocupação há muito tempo, desde que comecei a cobrir
a área de educação e cidadania.
Educação
- Como você escolhe as cenas e objetos a serem fotografados?
Mila - De maneira totalmente espontânea. Quando se está
fotografando, automaticamente você fica alerta, ligada, para ter
uma resposta rápida a qualquer estímulo que apareça.
Sempre vou fotografar sem nada pré-concebido, nunca consegui planejar
nada. Eu sou muito gastadeira de filme e muitas vezes eu só vou
perceber o que realmente aconteceu quando vou revelar o material. Em um
dia normal de trabalho, fotografando projetos sociais, gasto uns 20 filmes
de 36 poses. Tenho dificuldade em editar o material, depois. Se me pedem
50 fotos, separo 200. Uso flash eventualmente, mas quando isso acontece
tento ao máximo fazer com que ele seja só a luz que falta.
E não tenho problemas com fotos posadas. Quando você vai
fotografar a criança e ela te percebe, ela posa espontaneamente,
é ela quem quer. E essa é a verdade daquele momento. As
crianças adoram posar, uma entra na frente da outra, fazem muita
algazarra. Na Bahia, elas até se chamam de "amostrados".
Aquela coisa do adulto de "ai, não fico bem em foto"
não há com criança. É a forma com que elas
querem ser representadas.
Educação
- Mas como você resolve quando a criança está com
vergonha?
Mila - Quando a criança está envergonhada costuma
ser bonita a foto. Mas tenho uma empatia muito grande com elas porque
tenho muitos filhos, adoro criança, me relaciono bem com elas.
Acontece muito de você fotografar a criança tímida
e ela ir se abrindo, até dar aquele sorriso. Mas não me
importo se ela estiver triste ou brava. Todo momento verdadeiro é
bonito.
Educação
- Se pudesse imaginar uma cena ideal, qual seria a fotografia que você
gostaria de fazer?
Mila - Gostaria de chegar nas periferias e ver pessoas saudáveis,
alegres, morando em um lugar bonito e limpo, com crianças bem alimentadas,
cuidadas, indo para uma escola de qualidade. Tenho feito alguns trabalhos
nas favelas no Rio de Janeiro e sempre me impressiona como esses lugares
têm uma arquitetura interessante, desordenada, com pessoas que têm
um convívio comunitário intenso - totalmente distorcido,
claro, principalmente por causa do tráfico de drogas -, que resolvem
comunitariamente seus problemas, suas deficiências. Quando essas
pessoas tiverem boas condições e aquele lugar tiver saneamento
básico, quando elas puderem pintar as suas casas e trabalhar, e
principalmente quando tiverem seus filhos nas escolas, acho que será
uma cena muito bonita para se fotografar. Essas pessoas fazem muito com
o pouco que têm.
Educação
- Qual máquina fotográfica você usa?
Mila - Eu tenho um equipamento super bom, mas não o utilizo
completamente, é uma Nikon F-5. É como se eu tivesse uma
Mercedes e a usasse como um Fusquinha. Tem um visorzinho que dá
para fazer coisas que eu não tenho a menor idéia. Eu acho
uma complicação fazer a programação, prefiro
o ajuste manual. Meu equipamento pesa uns 7 ou 8 kg. Não tenho
nenhum problema na coluna, a maior parte dos meus colegas de profissão
tem e reclama do peso do equipamento. Acho que tenho uma perna forte que
segura a onda. E também sou muito descansada. Não sou uma
obsessiva por equipamentos, não carrego muita coisa, só
o básico. Isso porque não posso prescindir da agilidade.
É mais importante poder me movimentar com rapidez do que ter tantos
recursos.
Educação
- Que imagem na mídia mais marcou você?
Mila -É sempre profundamente doloroso ver as fotos da fome,
de pessoas muito magras. Aliás, quando eu era pequena, adorava
ver revistas de fotografia e eu me lembro de que era totalmente insuportável
enxergar as cenas da Nigéria e da Biafra. Eu via algumas revistas
várias vezes e decorava as páginas que tinham essas imagens
para pular, era horrível. Recentemente, foi muito forte ver na
imprensa aquela seqüência de fotos na Palestina, do pai abraçado
com o filho, pedindo para não atirarem. Eu chorei muito com aquilo.
Tanto com a foto quanto com as imagens na televisão. É terrível
ver a cena da criança morta e do pai ali, sem poder fazer nada.
Educação
- Qual é a importância do trabalho do fotógrafo na
cobertura de educação?
Mila - O fotógrafo pode ajudar a infância e a juventude
da mesma forma que todo mundo pode. Cada um, cada profissional, com seu
trabalho, tem alguma coisa a acrescentar para a cidadania e para a educação.
No caso específico de quem trabalha com projetos sociais, talvez
seja importante você produzir imagens fortes, que realmente retratem
o trabalho que vêm fazendo. O fotógrafo ajuda quando revela
o que há de bom, para que sirva de exemplo e inspiração
para outros, e também quando retrata o que há de ruim, para
que possa causar espanto e indignação. Através das
imagens ele é capaz de mobilizar as pessoas a agirem conscientemente
quando o assunto são crianças e adolescentes. Isso tudo
me faz sentir muito responsável pelo meu trabalho.