É
preciso cuidado para falar aos alunos sobre terrorismo e não fabricar
supostos culpados
Uma das obras mais
importantes para compreendermos os caminhos tortuosos e os desatinos que
eventualmente as ações governamentais e manifestações
sociais podem adquirir é um estudo da historiadora norte-americana
(duas vezes vencedora do prêmio Pulitzer de Literatura) Barbara
W. Tuchman, chamado A Marcha da Insensatez. Nele, a autora percorre a
história para identificar inúmeras situações
nas quais os governantes em diferentes nações e continentes,
tomaram decisões e assumiram posturas contrárias ao que
seria sensato.
Essa pesquisa tem
uma epígrafe extraída da clássica As Máscaras
de Deus: Mitologia Primitiva, de Joseph Campbell. Hei-la, resumida: "Não
vejo razão alguma que possa induzir alguém a supor que,
no futuro, os mesmos argumentos já escutados não venham
a ressoar ainda (...) trazidos à luz por homens sensatos para fins
sensatos, ou por criaturas ensandecidas visando ao absurdo e ao desastre."
Frente aos desnorteantes
fatos presenciados pelo mundo nos turbulentos dias que se passam, é
preciso que o educador tenha muita sapiência (e paciência)
ao debater o assunto em sala de aula.
Essa cautela busca
não favorecer o alastramento da compreensão ingênua
e simplória sobre a identificação e incriminação
dos responsáveis pelo terrorismo em suas variadas manifestações.
Ao mesmo tempo, necessita evitar a interpretação indigente
precária sobre as intenções hegemônicas. Basta
observar como foi fácil (passados os primeiros instantes de estupefação,
logo após os atentados) eleger rapidamente pessoas para serem os
verdadeiros, exclusivos e únicos responsáveis.
Assim, juntaram-se
às vítimas do terrorismo direto também aquelas que
foram (e ainda são) levianamente tachadas como cúmplices,
simpatizantes ou protetoras dos autores. Enquanto as investigações
foram sendo apuradas e os mecanismos de autodefesa levantados, muitas
dessas pessoas tornaram-se vítimas do desejo de desforra cega,
ficando soterradas por injúrias, preconceitos e acusações
genéricas.
A insensatez vem à
tona em circunstâncias como essas. Há uma quebra na nossa
visão de alteridade, isto é, na capacidade de perceber o
outro como um outro e não como um estranho.
Vai por terra, desse
modo, a compreensão do que significa antropodiversidade, a diversidade
humana como riqueza e parte da imprescindível biodiversidade. Passa-se
a entender a diferença cultural, étnica e religiosa como
sendo um defeito. Ora, a diferença é um elemento basilar
para a pluralidade humana e a multiculturalidade é uma grande resposta
à nossa capacidade de inovar, modificar, reinventar.
Porém, o reconhecimento
das diferenças não pode conduzir à exaltação
da desigualdade, dado que a igualdade é conceito ético,
relativo à dignidade coletiva; por isso, homens e mulheres, ocidentais
e orientais, brancos e negros, brasileiros e árabes - somos todos
diferentes, nunca desiguais.
Compreender é
diferente de aceitar; mas, aceitar ou rejeitar antes de ter compreendido
é puro preconceito e a isso a escola não pode dar guarida.
*Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.