Arte-educadores
capacitam professores e ensinam a usar dança como instrumento de
aprendizado
Quando se fala em
dança na escola parece que regredimos. Vira dancinha de quadrilha,
dancinha de fim de ano para mostrar aos pais, perdendo, assim, todo o
seu caráter artístico." A crítica é da
pedagoga Isabel Marques, uma das mais proeminentes pensadoras do uso da
dança na educação. Doutora pela Faculdade de Educação
da USP, na qual defendeu a introdução de dança no
currículo escolar, a professora ainda assessorou o Ministério
da Educação na redação dos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) de Arte.
O objetivo central do texto oficial dos PCN, esclarece, é usar
a arte para desenvolver o lado emocional e psicológico da criança.
"O que ocorre é que os professores utilizam a dança
com o pretexto de desenvolver a coordenação motora da criança,
para ficar com uma postura bonita", lamenta.
A explicação
de Isabel para esse tipo de problema é clara: não existe
formação para os futuros
professores de arte.
"No curso de educação artística, os graduandos
não têm uma disciplina que aborde a dança. Há
apenas uma matéria, que dura um semestre, sobre expressão
corporal". Nesse sentido, a falta de informação do
educador não permite a ligação entre arte e ensino.
Mas suas críticas
vão além da escola. Até organizações
não-governamentais, que se colocam como referência em educação
por meio da arte, quando apresentam projetos em dança não
têm propostas consistentes. De acordo com ela, muitas dessas ONGs
ainda investem seu tempo para ensinar técnicas européias
do século XVIII para meninas de favelas brasileiras em 2002.
"O mundo passa,
a arte muda, a água rola e a dança continua igual. Toda
a vez que se fala em dança, se fala de balé. Ninguém
pergunta para a criança qual é a dança de que ela
gosta", argumenta. Isso não quer dizer que as pessoas não
possam aprender balé, mas, para Isabel, não é preciso
ficar apenas nesse estilo.
Essas preocupações
levaram Isabel a fundar, em 1996, o Caleidos - Companhia de Dança
em cooperação com a Faculdade de Educação
da Universidade de Campinas (Unicamp). O projeto, que levou espetáculos
para inúmeras cidades do Brasil, se transformou em algo maior e,
em 2001, tornou-se Caleidos - Arte e Ensino. "Após cinco anos
desenvolvendo trabalhos de dança e educação, decidimos
investir também em cursos regulares, workshops, eventos e espetáculos
para sanar as deficiências encontradas nos educadores", conta.
Segundo Isabel, as atividades são voltadas para todos aqueles que
trabalham com o tripé arte-ensino-sociedade.
Embora os cursos sejam
pagos, no começo do ano a escola abriu vagas gratuitas para professores
da rede pública, graças a um patrocínio da Unesco,
que possibilitou a participação de professores de educação
infantil, ensinos fundamental e médio, além de professores
de arte e música que buscavam um aperfeiçoamento na área
de dança.
Entre os 20 alunos
que participaram da turma, estava a professora de educação
infantil Rosimari de Oliveira, que leciona na Escola Municipal de Educação
Infantil Professora Olga Calil Menah, na zona oeste de São Paulo.
Com base nas aulas que assistiu, a professora pôde desenvolver seu
projeto pessoal Dançando um Sonho - Uma Construção
da Dança na Escola. Apesar de só precisar fazer um projeto
no final do curso, condição básica para receber o
diploma do Caleidos, a professora desenvolveu seu trabalho na escola junto
com as aulas. "Os resultados foram excelentes. Os alunos puderam
perceber como a linguagem corporal é importante para seu cotidiano
e como podemos interpretar papéis diferentes utilizando a dança."
Além do Caleidos,
o Instituto Brincante também oferece cursos específicos
para educadores. Criado pelo compositor e multiinstrumentista Antônio
Nóbrega, a entidade tem entre suas metas promover ações
educativas diversas, especialmente no que se refere à educação
por meio da arte. O curso A Arte do Brincante para Educadores é
um exemplo disso.
Segundo Rosane Almeida,
que coordena os trabalhos do Brincante, a idéia do curso é
oferecer aos educadores um repertório de cantos, danças,
jogos, brincadeiras e brinquedos, juntamente com a reflexão sobre
a função de uma arte brasileira na formação
da criança. E o mais importante, gratuitamente. "É
estranho a escola achar que dança é supérfluo. A
musicalidade é inerente ao homem", defende. Nesse sentido,
o curso amplia a flexibilidade e sensibilidade na atuação
dos educadores.
Dividido em oito módulos,
o programa prevê, no início de cada aula, pelo menos uma
hora de trabalho corporal dos professores. "A escola se fechou para
a dança. A idéia de que a dança tem uma função,
que é cartesiana e racional, dominou a cultura ocidental. Hoje,
as pessoas procuram novas formas de expressão", acredita.
Seguindo o seu raciocínio, a dança dá a cada um autonomia
e uma nova visão sobre suas próprias vivências. "É
um erro a escola não usar isso em seu favor."
Serviço Caleidos: (11) 3021-7510 / 4970
Instituto Brincante: (11) 3816-0575 e 3819-2456