Cem
anos depois, especialistas e sertanejos mostram que ainda permanece a
interpretação do país feita por Euclides da Cunha
"O sertanejo
é, antes de tudo, um forte"
Euclides da Cunha, em Os Sertões
O tempo, em Canudos, passou com a mesma velocidade com que os rios temporários
da caatinga atravessam, de anos em anos, o chão rachado do sertão
baiano: sem pressa e languidamente. É nesse ritmo que se fazem
ver as transformações naquela terra de serras e vegetação
arbustiva, localizada a 410 quilômetros de Salvador. A paisagem,
que foi cenário da Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897, oferece
aos homens de hoje a mesma aridez e dureza com que castigava seus antepassados.
É certo que tentaram levar o mar até o sertão com
a construção do Açude de Cocorobó, cujas águas
se espalham sobre o local que abrigou a cidadela de Antônio Conselheiro.
No fim da década de 60, para a cidade não ser de fato liquidada,
foi criada uma nova Canudos, sobre o povoado antes chamado Cocorobó.
Talvez essa tenha sido a única mudança significativa ocorrida
naquele sítio no último século. O que não
tornou o solo menos seco; não transfigurou a pobre economia local,
baseada na criação de bode; e nem de longe fez a luta pela
sobrevivência dos sertanejos ficar menos árdua. E, nessa
terra, não raro, pode-se encontrar quem diga que, não bastassem
as condições naturais manterem-se adversas, a civilização
ainda insiste em oprimir os homens do sertão. É o que conta
o padre Enoque Oliveira.
Ele é um líder
comunitário nato. Cearense engajado em causas sociais, Enoque Oliveira
gostava de participar de movimentos populares desde a adolescência.
No início da década de 1970, foi ser padre. Cursou teologia,
em Salvador. Em 1981, sabendo dos conflitos entre os pequenos agricultores
e os proprietários de terras do interior da Bahia, resolveu mudar-se
para Monte Santo, cidade a 118 quilômetros de Canudos. "De
repente, estou no palco da guerra. Não tinha lido Os Sertões
e não tinha visto na Igreja Católica ou no seminário
discussões sobre Canudos", diz. Poucos meses depois da chegada,
Enoque funda o Movimento Popular e Histórico de Canudos (www.infonet.com.
br/canudos), para popularizar o tema até então pouco difundido
entre os próprios moradores da região.
Belo Monte - A atuação do Movimento, que contava
com a participação da população do sertão
e de estudantes de Aracaju (SE), consistia em ir ao encontro dos moradores,
com panfletos e material didático em mãos, para explicar
como teria sido a vida dos antepassados daquela gente que, liderada por
Antônio Conselheiro, construíram a cidade que eles chamavam
de Belo Monte. A intenção do Movimento era mostrar ao povo
que era possível sobreviver à seca do Nordeste e à
falta de condições de vida sem precisar migrar para grandes
urbes. Aos agricultores da região, Enoque dizia: "Aqui, na
barba de vocês, já teve uma vivência fantástica,
coletiva, igualitária". Segundo ele, esse discurso fazia com
que os sertanejos tivessem esperança de uma vida menos árida.
"Eles viam que isso não era uma coisa teórica, uma
coisa lá da Bíblia. Era realidade concreta, vivida. Na Rádio
Petrolina, que é muito conhecida no sertão, chegaram a dizer
‘será que o padre Enoque quer outra guerra?’."
Para homenagear os
combatentes mortos, o Movimento Popular e Histórico de Canudos
organiza, desde 1984, em 5 de outubro, uma missa e um festejo. A comemoração,
que já chegou a reunir cerca de 5 mil pessoas, hoje mobiliza pouco
mais de 300. Especialmente depois de Enoque angariar antipatia da Igreja
e, com isso, ter sido expulso da paróquia. "É que o
Movimento tinha como bandeira derrubar cerca. E, por onde a gente passou,
derrubou cerca", explica.
Para o prefeito da
cidade, João Ribeiro Gama (PSDB-BA), não convém misturar
o passado de Canudos com os problemas de terra vividos hoje: "Infelizmente,
o Movimento ganhou conotação político-partidária.
A Igreja criou outro Movimento [mais precisamente, uma romaria], que vem
crescendo e ganhando mais credibilidade."
Para o padre Enoque,
não é complicado falar ao sertanejo sobre a terra pouco
fértil e sobre a luta pela vida. Para o homem da caatinga, que
sente ainda hoje dificuldade em sobreviver, talvez seja simples entender
as entrelinhas de Euclides da Cunha. Entretanto, as linhas propriamente
de Os Sertões não são naturalmente acessíveis
a leitores incultos, sejam eles crianças da cidade grande ou dos
despovoados municípios do sertão, ou mesmo adultos, sertanejos
ou não.
Esses obstáculos
não devem coibir professores da tentativa de levar estudantes de
ensino médio e fundamental à leitura e discussão
da obra. Adilson Citelli, da Escola de Comunicações e Artes
(ECA) da USP, sugere que, na abordagem do livro, professores de diferentes
disciplinas elaborem um projeto pedagógico em conjunto. "É
possível aproximar o livro de geografia, história, estudos
sociais, literatura, língua portuguesa e até teatro, encenando
passagens do texto. Sendo parte de um trabalho multidisciplinar, a leitura
e a interpretação do livro podem ganhar mais dinamismo e
interesse por parte dos alunos."
Para Citelli, as críticas
feitas ao livro de Euclides, em vez de invalidá-lo, o tornam ainda
mais interessante. "Inclusive nas fragilidades reside a grandeza
do livro. A tensão interna e as ambigüidades contidas são
mais importantes que erros factuais ou teorias raciais do século
XIX, pelo que tanto o criticam", diz o professor, para quem a complexidade
da aventura lingüística de Os Sertões é valiosa
para qualquer aluno secundarista e imprescindível para todos os
estudantes de graduação. "Euclides da Cunha é
essencial como o são outros ensaios sobre a formação
da nacionalidade, como Casa Grande & Senzala [Gilberto Freyre], Raízes
do Brasil [Sérgio Buarque de Holanda] e Formação
da Literatura Brasileira [Antonio Candido]. Quem sai da faculdade sem
lê-los não sabe nada do Brasil", diz.
Os alunos de Monte
Santo, Canudos e Euclides da Cunha (que na época da guerra chamava-se
Cumbe), não são muito familiarizados com as teorias sobre
o assunto. Entretanto, e para todos os efeitos, as escolas prevêem
aulas sobre o tema. "A lei orgânica da Educação
contempla o ensino da história de Canudos nas escolas municipais,
mas de forma simples, dentro daquilo que é possível ser
captado pelos alunos", diz o prefeito Gama.
A professora Maria
da Glória Cardoso dá aulas de história em duas escolas
em Monte Santo, uma estadual e outra agrícola. "Vinte anos
atrás, ninguém falava de Canudos. Nem nas escolas. Os livros
didáticos não traziam nada." Muito embora os estudantes
da cidade morem a poucos quilômetros do local onde houve a guerra,
Maria da Glória diz que as aulas não prevêem nenhuma
visita ao Parque Estadual de Canudos ou à região do antigo
arraial, hoje submersa pelas águas do Açude de Cocorobó.
Versões sobre a guerra - Glória diz que o conteúdo
das aulas sobre a guerra enfoca o pioneirismo dos conselheiristas na tentativa
de luta pela reforma agrária. Segundo a professora, é preciso
contestar as teorias dos livros didáticos que encaram os moradores
de Belo Monte como um bando de místicos. "Nos livros didáticos
vem só a versão do governo. Dizem que Conselheiro foi aquele
fanático que as pessoas acompanhavam. E que eram desordeiros. Para
meus alunos, digo que Canudos é a primeira experiência de
comunidades organizadas, de reforma agrária no país e de
alternativa para se viver no sertão."
Entre os acadêmicos que se debruçaram sobre a guerra, dois
se destacaram por terem desenvolvido leituras consideradas de "esquerda":
Edmundo Moniz, em Canudos - A Luta Pela Terra; e Rui Facó, em Cangaceiros
e Fanáticos. São interpretações que se aproximam
das teorias transmitidas por Glória aos estudantes.
Segundo Moniz, Conselheiro
e seus seguidores tinham consciência de que, ao criar uma comunidade
que vivesse à margem do sistema republicano - que se negava a contribuir
com o pagamento de impostos e não aceitava a separação
entre Igreja e Estado -, partiam para o enfrentamento com os potentados
locais, os governos estadual e federal e a Igreja. Em seu livro, Moniz
compara a ação de Conselheiro junto aos sertanejos com a
luta liderada pelo revolucionário mexicano Emiliano Zapata (1879-1919).
Marco Antonio Villa,
professor de história moderna, contemporânea e social da
Universidade Federal de São Carlos e especialista em Canudos, contesta
essa visão: "Ele [Moniz] não consegue entender a Revolução
Mexicana. Aliás, ele também chega a dizer que Conselheiro,
para fundar Canudos, leu a Utopia, de Thomas Morus. Isso é uma
bobagem."
Em Canudos e nas cidades
vizinhas, não é raro achar pessoas que, mesmo sem ter tido
contato com Os Sertões ou outros textos sobre a guerra, saibam
contar histórias do período. Entre os mais idosos, há
aqueles que, por terem parentesco com moradores do arraial de Canudos,
transformaram-se em fontes recorrentes quando se quer falar do tema. João
Siqueira Santos é um deles. Aos 93 anos, ainda é conhecido
por "Ioiô da Professora", forma com que chamavam o ainda
menino, filho da mestre-escola de Euclides da Cunha, cidade a 80 quilômetros
de Canudos, onde ainda mora. Ele diz que foi o pai, fazendeiro na época
da guerra, quem lhe contou as peculiaridades que até hoje repete
a quem quiser ouvir. "Meu pai dizia que no arraial de Canudos num
faltava ovo, bode, boi, água. Tudo tinha. E que lá tinha
um grande comércio. Se alguém do arraial roubasse alguma
coisa, o Conselheiro mandava embora."
Memórias - Como "Seo" Ioiô, há outros
descendentes de ex-moradores da vila de Canudos espalhados pela região.
Uns falam bem de Conselheiro e de seu séquito, outros guardam o
rancor transmitido pelos familiares. "Conselheiro dizia que era o
Bom Jesus e que, quem andasse com ele, ressuscitava depois de morto. Mas
minha família, que era de fazendeiro, foi perseguida pelos jagunços.
Houve até morte de ambas as partes, porque eles roubavam a gente
e minha família foi reclamar. Eles não gostaram. Roubaram
casa, mataram criação", conta Cândido da Natividade,
nascido em 1919.
Entre os relatos, verificam-se diferentes versões sobre a vida
no arraial. Muitas vezes contraditórias, as falas dos descendentes
de Canudos nem sempre são levadas em conta pelos historiadores.
O professor Marco Antonio Villa explica: "As pessoas levam muito
a sério as entrevistas com os idosos da região. Excetuando-se
o João de Régis, para mim, todos os outros não valem
como informação histórica. São dados filtrados
pela cultura erudita. Por exemplo, o "seo" Ioiô fala certas
coisas tiradas d’Os Sertões. Portanto, não é a informação
que vem da cultura popular. É tudo Euclides. Ele pode até
nem tê-lo lido, mas, pelas perguntas que no decorrer de anos lhe
fizeram, ele foi incorporando uma visão euclidiana."
João Reginaldo
de Matos, o João de Régis a que se refere Villa, é
o descendente de conselheiristas que mais causos tem para contar. Seus
pais, que se conheceram dentro do arraial, escaparam por acaso, ao lado
dos avós de João, da matança promovida pelo exército.
"Saiu meu pai, meu avô e um tio meu para procurar o que comer.
Foram por essas caatingas. Quando voltaram, à noite, [os soldados]
tinham fechado o arraial. Não entrava nem saía ninguém.
Pois bem, os homens que ficaram dentro eles degolaram todos."
José Calasans
(1915-2001), professor de história contemporânea na Universidade
Federal da Bahia e considerado o maior especialista em Canudos, trabalhou
décadas tentando remontar a história do arraial e da Guerra
de Canudos numa visão "não-euclidiana", ou seja,
baseado em fontes orais de conselheiristas, descendentes e vizinhos contemporâneos
da região. Um dos produtos dessa pesquisa é o livro O Estado-Maior
de Antônio Conselheiro, em que os principais personagens da época
são homenageados com uma pequena biografia. Constata-se, a partir
de Calasans, que a história da guerra é mesmo fascinante,
independentemente do trabalho de Euclides.
No entanto, sem a
inovação literária de Euclides, o assunto Canudos
teria sido apagado das páginas da história brasileira. "Não
fosse Os Sertões, provavelmente não se daria muita da atenção
que é dada ao tema. Tanto que outras guerras religiosas, até
de grande porte, foram praticamente esquecidas", alerta Roberto Ventura,
professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
da USP, em entrevista em 1º de agosto (13 dias antes de sua morte, em
um acidente de carro). O especialista disse acreditar ser Canudos um dos
assuntos da cultura brasileira mais estudados de todos os tempos. "Nunca
houve sequer uma fração do número de estudos, de
trabalhos, livros sociológicos, históricos, literários
ou folclóricos sobre outros eventos de grande magnitude da história
brasileira como houve sobre a Guerra de Canudos desde o lançamento
do livro de Euclides."
Acadêmicos,
poetas e críticos literários da época, entre eles
Sílvio Romero, Araripe Júnior e José Veríssimo,
enalteceram Euclides da Cunha e acabaram por advertir quanto à
magnitude literária de Os Sertões. O êxito alcançado
por Euclides, para Roberto Ventura, deveu-se a dois aspectos centrais.
"Um é a preocupação estilística. Apesar
de ser um assunto histórico, ele escreveu com preocupação
literária e enfoque científico. E surpreendeu exatamente
por essa pujança do estilo altamente sonoro e poético. O
segundo aspecto refere-se ao enfoque amplo. Na tentativa de ver a Guerra
como símbolo do Brasil, ele acabou escrevendo um dos grandes ensaios
de interpretação do país", disse o professor,
que passou dez anos escrevendo a biografia de Euclides da Cunha, a ser
publicada em 2003.
Livro único - Ensaio, livro de história, obra de
ciência ou literatura? Os Sertões transita pelas categorias
e não se deixa enquadrar em nenhuma delas. "É um livro
único, inclassificável, um corpo estranho dentro da literatura
e da cultura. E é justamente isso que provocou o fascínio",
disse Ventura. O mesmo discurso é defendido por Berthold Zilly,
professor do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.
"Talvez na Alemanha, essa fusão de gêneros seja mais
insólita ainda. Porque lá, ou você tem romance, ou
biografia, ou crônica, ou ensaio, ou tratado científico.
Essa combinação é muito rara."
Quando tomou contato com Os Sertões, no início da década
de 70, Zilly já falava português fluentemente. Mesmo assim,
não tinha vocabulário suficiente para compreendê-lo
em sua totalidade. "Em cada frase tinha duas, três palavras
ou nomes que eu não entendia sem maiores pesquisas." Motivado
pelo esforço intelectual exigido pela obra, Zilly resolveu traduzir
o livro e publicá-lo em seu país, em 1994.
Traduzido para 11
idiomas, Os Sertões chegou a outros povos, inclusive àqueles
que não têm a palavra "sertão" em seu vernáculo,
como acontece com o alemão. E neles também foi aclamado.
"O público e os críticos logo perceberam que não
se trata apenas de um livro brasileiro, datado, mas sobre temas que concernem
a todos nós. É o embate entre civilização
moderna e culturas tradicionais. Se uma outra cultura tem um modo de vida
que a gente não gosta ou não entende, como é que
se tem o direito de esmagá-la?", reflete Zilly.
Muito embora Euclides
desperte grandes paixões em muitos literatos pela mescla de prosa
e poesia, não é preciso submeter a obra a leitores estrangeiros
para encontrar fervorosas críticas à leitura euclidiana.
O professor Marco Antonio Villa é um dos especialistas que mais
criticam Euclides pela imprecisão historiográfica e pelo
posicionamento reacionário. "Eu fico admirado de como ainda
permanece o sucesso do Euclides. É claro que é um grande
livro, há passagens belíssimas, o grande estilo, a narração
que empolga. Por outro lado, você tem uma leitura muito conservadora
e racista."
Crime e castigo - Influenciado pelas teorias raciais do final do
século XIX, Euclides vê na comunidade de Antônio Conselheiro
um bando de fanáticos religiosos de almas ingênuas que vivem
à margem da civilização. Ele não tem simpatia
pela vida que levam. Suas moradas provocavam asco no jornalista carioca
que escreveu, em 7 de setembro de 1897, já em Monte Santo: "Situada
num dos lugares mais belos e interessantes do nosso país, Monte
Santo é simplesmente repugnante. A praça central ilude à
primeira vista. Quem ousa atravessar, porém, as vielas estreitíssimas
e tortuosas que nela afluem é assoberbado por um espasmo extraordinário.
Não são ruas, não são becos, são como
que imensos encanamentos de esgoto, sem abóbadas, destruídos."
Em uma de suas reportagens, já em 1º de outubro de 1997 (dois dias
antes de abandonar Canudos por ter adoecido), Euclides refere-se aos sertanejos
como "nossos selvagens adversários".
O professor Zilly pondera a respeito dessa aversão aos conselheiristas
e ao sertão. Segundo o especialista, Euclides desejava que os sertanejos
superassem a permanente luta pela sobrevivência. "Ele admira
o sertanejo que, em condições naturais adversas, consegue
sobreviver e se manter durante séculos. Como pensador supostamente
científico, lamenta o estado cultural e psíquico dos sertanejos
e acha que isso tem de ser superado. E que eles, enquanto sertanejos,
têm de morrer ou se transformar em homens civilizados."
Euclides de fato impressiona-se
com a resistência daqueles que lutavam com precárias baionetas
e espingardas contra um exército munido de modernos equipamentos,
mas que a cada passo cometia mais erros estratégicos. E ele, que
só viu parte da última expedição do exército,
observa Canudos chegar próxima do fim.
Em 5 de outubro, há
105 anos, os soldados da jovem República degolavam os últimos
sobreviventes do arraial. Queimaram toda a terra, encontraram o corpo
de Conselheiro, morto em 22 de setembro, e levaram sua cabeça para
ser analisada pelo respeitado médico Nina Rodrigues, em Salvador,
com o intuito de procurar provas da insanidade no líder sertanejo.
Euclides, nos seus artigos, silencia, assim como todos os outros jornalistas,
com exceção de Manuel Benício, do Jornal do Comércio,
do Rio de Janeiro. Não fala das degolas e das outras atrocidades
do exército. É assim, sem alardes, que termina a guerra.
Como se a matança dos conselheiristas, considerados rebeldes monarquistas,
fosse um bem nacional.
"Na época,
quando a guerra termina, há uma espécie de silêncio
constrangedor de toda a imprensa a respeito do massacre. O próprio
Euclides também participa, de uma maneira um pouco escandalosa,
dessa omissão. Nesse sentido, Os Sertões não é
apenas uma crítica ao exército, como é também
uma autocrítica, é um livro em que Euclides tenta expurgar
o seu sentimento de culpa, de remorso", disse Ventura. Essa hipótese
de que Os Sertões funciona como purgação do autor
é unânime entre os especialistas.
Para Villa, o centenário
do livro deve servir de pretexto para a reflexão a respeito dos
problemas da obra. "Acho que é necessário, até
nessas comemorações, nadar contra a corrente, recordar coisas
incômodas. Por exemplo, na caderneta de Euclides, há elogios
a Artur Oscar [de Andrade Guimarães, comandante-chefe da primeira
coluna da quarta expedição, que venceu os conselheiristas]
e, n’Os Sertões, ele detona o cara", exemplifica.
A aparente transformação
do comportamento do autor, segundo Ventura, não se deve exclusivamente
ao impacto da visão da guerra. Teria sido, isso sim, uma conseqüência
das decepções sofridas com o advento da República,
em 1889. "Ele foi um militante republicano, mas percebeu, já
em 1890, que o sistema implantado era autoritário e pouco atendia
aos anseios da população." Mesmo sem nutrir grande
simpatia pelos conselheiristas, Euclides constrói a grande história
em que o herói, o forte, o mito é o sertanejo. "Os
Sertões é um livro de crítica ao exército.
Para demolir a atuação dos soldados e comandantes, da Igreja,
do governo baiano e federal, ele acaba gerando um mito. Para contrapor
aos mitos da República e da Revolução Francesa, defendidos
durante a juventude, ele acaba gerando um contramito, que se torna mito",
analisou Ventura.
Os Sertões,
a epopéia que glorifica o sertanejo, conseguiu atravessar o século
XX conquistando admiradores. Ainda assim, especialistas dizem que Euclides
da Cunha é um dos autores brasileiros mais louvados e menos lidos
em razão de sua complexidade. Talvez a atuação de
professores ou de movimentos populares dê conta da transformação
desse quadro. Dessa forma, quem sabe não se perpetue a análise
feita por Gilberto Freyre, em Perfil de Euclides e Outros Perfis: "Euclides
foi escritor que escreveu quase sempre declamando: às vezes declamando
tão alto que se tornou uma espécie de Hall Caine - o Hall
Caine de quem dizia Oscar Wilde, que falava tão alto que não
se fazia entender direito: era apenas ouvido."