A literatura brasileira
engendrou ao menos duas obras gigantescas, perenes e universais. Em comum,
ambas encenam seus enredos na mais árida geografia. E delas emergem
figuras épicas, contudo esquálidas; embrutecidas, porém
poéticas. Hércules Quasímodos. Nonadas. Encontram-se,
ou se desdobram, em uma palavra difícil de traduzir, mas inequívoca
e lancinante. Sertão.
Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: Veredas enlevam a condição
humana, Deus e o diabo na rua, no meio do redemoinho. Travessia. Nos campos
gerais, a lida de jagunços e suas tragédias nunca particulares.
Uma obra-prima cuja grandeza se entorna em vidas pequenas que teimam em
amar, mesmo nas guerras.
Em Os Sertões,
Euclides da Cunha engenha um caminho de purgação que, se
não nos absolve por sermos injustos e brutais, aplaca nossa culpa
ao enxergar, no sertanejo, um forte. A terra. O homem. A luta. Algo insiste
em permanecer imóvel, cem anos depois de Canudos e Antonio Conselheiro.
Longe das metrópoles
antropofágicas ou selvas macunaímicas, das praias ardentes
do amado ou dos pampas veríssimos, na mesma cenografia das pungentes
mortes e vidas secas, severinas, ergue-se um Brasil subterrâneo,
imerge o futuro da Nação. Se não olhares para dentro,
não verás país nenhum.