Professor,
crítico literário e cientista social defende papel do Estado
na democratização da cultura e da educação
Por mais econômica
que seja uma lista dos intelectuais brasileiros mais importantes, nela
vai figurar o nome do professor Antonio Candido de Mello e Souza. Sua
magnitude é uma unanimidade incontestável. Bacharel em Ciências
Sociais, doutorou-se pela Universidade de São Paulo, em 1954, com
a tese Os Parceiros do Rio Bonito (Editora 34, 372 págs., R$ 29),
um estudo sociológico referencial dentro e fora da academia. Crítico
literário de abordagem refinada, incorporou à historiografia
do texto outra estaca fundadora do pensamento brasileiro, o clássico
Formação da Literatura Brasileira (Villa Rica, 390 págs.,
R$ 50), de 1959. Filho de pai liberal e mãe monarquista, Antonio
Candido teimou em se tornar um revolucionário - mesmo nascendo
na pacata Poços de Caldas (MG) de 1918. Fundador do Partido Socialista
Brasileiro e do Partido dos Trabalhadores, aos 84 anos ainda encontra
tempo e entusiasmo para a política - desde que nela se anuncie
um futuro luminoso para o país. Discute com paixão os mais
variados temas, sem perder a lucidez que o credencia como um dos mais
argutos observadores da cultura, educação e sociedade brasileiras.
Embora avesso a entrevistas, neste depoimento (cuja íntegra pode
ser lida no sítio www.lula. com.br), o professor discorre sobre
esses temas e reafirma sua crença de que o Estado é o principal
articulador das igualdades sociais.
Revista Educação - Como o senhor avalia o conflito entre
democratização do acesso e perda de qualidade na educação?
Ou elitização e ensino de qualidade? É um antagonismo
que não se restringe à universidade.
Antonio Candido
-Temos aqui uma crise de civilização. O ensino francês,
por exemplo, hoje é um ensino em decadência. Talvez seja
um mal que deriva de um bem. O esforço para tornar os níveis
de ensino acessíveis a todos força diminuir o nível.
Então, você fica num dilema perverso: elitizo ou democratizo
e abdico de qualidade?
Educação - Qual a saída?
Candido - A saída está numa sociedade igualitária,
onde todos tenham acesso à cultura e à educação
de qualidade. Foi o que eu vi em Cuba. Instrução pública
e gratuita em todos os níveis. E de muito boa qualidade. A chave
é a transformação da sociedade, na qual as pessoas
se apresentam para a educação em pé de igualdade.
Quem acha que um bom sistema educacional salva a pátria está
redondamente enganado. A participação nesse sistema será
sempre restrita. Por isso você tem que, primeiro, fazer mudanças
estruturais; depois, terá um boa educação. Os liberais
pensam: eu tendo uma população instruída, terei uma
sociedade melhor. Errado. Tendo a sociedade melhor, terei uma população
instruída. Só assim você supera essa contradição
aparente entre elitização e democratização.
Continuo achando que a forma republicana do ensino público e gratuito
é o grande modelo. Estamos abandonando isso.
Educação - Muito se tem falado sobre a importância
da cultura como elemento de resgate de jovens pobres excluídos
da cidadania. A cultura é colocada como uma aliada para afastar
esses jovens do tráfico. Como o senhor vê isso? Candido -Hoje há uma possibilidade muito maior de se
levar a cultura para grandes massas, por meio da televisão, da
música moderna, do cinema. O problema que se coloca é o
da distinção entre cultura erudita e cultura popular. É
uma coisa extremamente perigosa.
Educação - Em que sentido? Candido -Existe uma certa demagogia que enaltece a cultura
popular unilateralmente. Quase uma visão de folclore. Quem insiste
muito nisso está implicitamente achando que o povo tem de ficar
confinado a essa cultura de São João, cururu etc. Enquanto
isso, Shakespeare e Camões ficam para nós, a elite. Agora,
há o perigo simétrico: que a cultura erudita tende a se
bastar a ela própria; a ficar apenas entre os letrados. Entre as
duas fica um abismo muito grande - que é maior ou menor conforme
a época. Há momentos em que elas se comunicam muito mais.
No nosso tempo, a separação é muito grande.
Educação - Qual o papel do Estado para reduzir esse fosso?
Candido -O papel do Estado é fundamental. Em Pernambuco,
nos anos 60, na época do governo Miguel Arraes, por exemplo, fez-se
uma grande tentativa de unir a cultura popular à erudita. Era um
momento de grande impulso da música popular brasileira. Por sorte,
convergiam para ela nomes como o de Vinícius de Morais - um belo
poeta que se popularizou por meio da MPB. Chico Buarque é outro
poeta e compositor. Sem falar de outros, como Caetano Veloso, que tem
uma sensibilidade literária fora do comum. Naquele momento, então,
pôde haver essa aproximação das várias esferas
da cultura. Aproximou tudo. Foi um raro momento de convergência.
Educação - O Estado funciona como indutor dessa aproximação? Candido -Exato, sua função é diminuir
ao máximo possível o fosso entre os dois lados. Numa sociedade
em que as diferenças de classes ficam muito reduzidas, haverá
um desaparecimento da cultura erudita e da popular. E surgirá uma
nova cultura. Isso é possível. A função do
Estado é fazer um grande esforço econômico e social
para que no plano cultural o hiato diminua. De tal maneira que, no fim
de certo tempo, o popular se torna erudito e o erudito se torna popular.
Educação - O senhor acompanha os novos movimentos artísticos,
fora da chamada indústria cultural?
Candido -Estive outro dia num encontro, falaram muito de um tal
hip-hop, deram uma importância enorme para isso. Fiquei quieto no
meu lugar [Rindo]. Parei no telefone. Não tenho computador, nem
celular e me recuso a falar com secretária eletrônica.
Educação - Em que medida uma política cultural pode
fortalecer os laços de identidade?
Candido -A cultura é um elemento da identidade de um povo.
É a expressão suprema de uma coletividade. Tanto assim que
você esquece mais facilmente os grandes políticos do que
os grandes artistas. Se você perguntar a um colegial quem era o
homem mais importante da Grécia ele vai te dizer: Homero. Dificilmente
dirá Licurgo, Péricles. Vai dizer Homero. Enfim, um poeta,
não um governante. Ninguém esquece Castro Alves, Dante Alighieri,
Shakespeare. É a prova prática de que as grandes criações
da cultura espiritual exprimem o que há de mais profundo no povo.
A cultura é a manifestação de uma coletividade. Não
há coletividade sem ela. Cabe ao Estado um papel muito importante
porque ele pode orientar essa cultura. Se ele resolve, por exemplo, subvencionar
bobagem, estará contribuindo para abastardar essa cultura.
Educação - Por exemplo?
Candido -A educação é assim. Eu fui professor
a vida inteira. O aluno achava Camões chatíssimo, mas o
professor orientava - preste atenção, veja isso, aquilo.
O aluno, às vezes, tinha de engolir Camões como se toma
óleo de rícino. Não tinha outro jeito. No fim de
algum tempo, aquilo funcionava.
Educação - Como o senhor vê a política de incentivos
culturais do governo, que transfere ao mercado esse papel indutor, por
meio de recursos de renúncia fiscal?
Candido -Acho muito perigoso. É importante você permitir
que haja patrocínio de atividades culturais. Mas o Estado não
pode renunciar a sua iniciativa e confiar tudo ao setor privado. Numa
sociedade de classes como a nossa, o Estado é - ou deveria ser
- o representante do povo. Qual é o nosso ideal? Que o Estado se
torne aquilo que ele não é: o defensor do povo. Se eu transfiro
a responsabilidade cultural ao mercado, estou renunciando a esse papel
de indutor da cultura. Repito: é bom que se tenha incentivos para
que todos possam fomentar cultura e não haja monopólio de
espécie alguma. Mas, desde que o governo não perca a iniciativa.
Empresas e bancos representam interesses de grupos, e o Estado representa
o interesse de toda a sociedade. Portanto, tem de ter uma política
cultural ativa.
Educação - O que se vê no plano cultural ocorre também
no ensino e na pesquisa, com crescente privatização.
Candido -É bem-vinda a participação da iniciativa
privada em posição subalterna nessas áreas da pesquisa,
por exemplo. Mas só o governo pode saber qual é o interesse
coletivo. Universidade pública, por exemplo, é fundamental
e acho até escandaloso o governo subvencionar tanto as instituições
particulares. Na medida em que o governo está saindo aos poucos
desse setor, está armando uma catástrofe educacional no
país. A educação vai se transformar no privilégio
de poucos.
Educação - Por que a tradição republicana
está sendo abandonada em várias frentes?
Candido -Sinto isso em coisas pequenas, aparentemente bobas, mas
sintomáticas. Quer ver uma: a profusão de condecorações
que existem hoje. Parece coisa menor, não é? Mas se a idéia
de República é que todos os cidadãos são iguais,
você não pode distinguir um - justamente o que gera uma condecoração.
Ela cria diferença entre os iguais. Quando eu era menino, não
havia condecoração no Brasil. Meu pai dizia: a República
suprimiu as condecorações. Hoje são tantas. Tem sujeito
que mais parece uma vitrine. É questão menor, mas sinaliza
o enfraquecimento da idéia de República, da universalização
de direitos.
Educação
- É possível restaurar o espírito republicano?
Candido -A
República é o regime de todos; o regime contra os privilégios.
Claro que você tem repúblicas aristocráticas, como
foi a de Veneza. Mas República vincula-se à idéia
de democracia de direitos. No caso brasileiro, infelizmente, ela é
muito ambígua porque nasceu em grande parte de um sentimento de
revolta das elites por perda de privilégios. A elite perdeu seus
escravos com a Abolição decretada pela Monarquia. Aderiu
à República para se vingar do imperador. A República
brasileira nasceu desse sentimento de revolta por perda de propriedade.
Educação - Uma República pior que a Monarquia?
Candido -Instituíram um regime mais duro do que a monarquia.
Você lê um livro como o de Campos Salles, um homem muito inteligente,
propagandista da República, e ele defende o quê? Defende
com toda pureza a idéia de que a escolha é boa quando é
feita pelos melhores. Portanto, a República deveria ser decidida
por poucos. Se entra todo mundo, vira bagunça.
Educação - Nada a ver com a idéia de res pública
- coisa pública?
Candido -Sempre tivemos uma República de elite. Um presidente
da República era eleito com 200 mil votos - e votos descobertos.
Em 1930, eu assisti na minha cidade, em Cássia, Minas Gerais, à
última eleição a descoberto. O eleitor chegava e
o coronel, ao lado, fiscalizando. Depois de Getúlio, com a emergência
das massas operárias, das massas urbanas, não foi mais possível
manter esse estreitamento. O Getúlio era um caudilho esperto. Para
manter as elites sob controle, abriu as porteiras e deixou o povo entrar,
mas patrocinado por ele. Todavia, abriu a porteira. E ela está
aberta até hoje.