O jornal publicou
em página interna o seguinte título: "Senado aprova
projeto de lei que obriga à numeração de livros e
CDs". Quem compôs esse título deve ter a alma retorcida.
Nenhuma incorreção, nenhuma das palavras escolhidas fora
do lugar, mas o resultado é um texto levemente repugnante por causa
do verbo de regência enrolada. "Obrigar", de fato, é
transitivo direto e indireto, por isso exige dois complementos: objeto
direto e objeto indireto. Noves fora a terminologia indigesta, isso significa
que se obriga alguém a alguma coisa. No título, por causa
da restrição de espaço, o redator precisou manter
oculto o objeto direto, isto é, as entidades obrigadas a providenciar
a numeração dos livros e CDs. No exemplo seguinte, sem essa
restrição, "obrigar" funciona bem, tão
bem como deve funcionar o governo. Talvez assim como os nossos. Talvez.
"Fernandenriquemalan obriga os brasileiros a pagar mais taxinhas
para preencher os supostos orifícios de caixa das fornecedoras
de energia." (Faz sentido: elas forneceram menos, ganharam menos,
portanto, têm de receber mais. Capitalismo do bom.)
Percebe-se que, na
frase da caixa furada das fornecedoras de energia, "obrigar"
se encaixa bem, mas não no contexto do título, porque ali
pesa e enrosca. E em texto jornalístico o artista deve procurar
sempre a simplicidade e a clareza, que dependem da boa escolha das palavras
além da boa distribuição delas na frase. Diante dessa
obviedade, por que não o simpático verbo exigir no lugar
de "obrigar"? Verbo mais curto, de regência mais simples,
melhor para reduzir o número de toques da linha que se emparelha
com a de cima por exigência do espaço. Claro que exigir também
é transitivo direto e indireto: exigir algo de alguém. Mas
nesse título por certo cabe melhor, porque a omissão do
complemento representado pelas editoras e gravadoras não exige
o uso da crase.
"Senado aprova
projeto de lei que exige a numeração de livros e CDs."
Que tal?
Jogo proibido - Ao narrar jogos de futebol na TV Globo, o Gavião
Bueno costuma usar a expressão "em cima" para expressar
a vitória de um time contra outro. Ou para dizer que um time fez
um gol. "O Fagundes fez um gol ‘em cima’ do Flamengo." Ou para
dizer que um jogador fez falta em outro. "O Júnior Baiano
fez uma falta escandalosa em cima do Kaká."
Na Copa do Mundo,
que deu um refresco ao governo e à economia, o Gavião disse,
por exemplo, que o Brasil se classificou "em cima" da Turquia,
que fez quatro gols "em cima" da China, que o Ronaldinho fez
uma falta "em cima" do jogador inglês e que por isso foi
expulso.
Tudo isso é impossível. O Brasil se classificou contra a
Turquia, marcou quatro gols no time da China. E o Ronaldinho fez falta
no jogador inglês. Nele, não "em cima" dele. Para
fazer falta "em cima" do inglês, o dentuço brasileirinho
teria de estar montado no zagueiro com sua bela cabeleira ao vento. Coisa
por enquanto proibida em futebol. Não fica bem. Não em público.
Josué Machado é jornalista e autor do livro
Manual da Falta de Estilo (Ed. Best Sellers)