Há alguns momentos
da vida nacional em que as reclamações e os impropérios
mais inéditos dirigem-se especialmente contra o processo eleitoral.
Aquele momento democrático das eleições - tão
ansiosamente desejado e a duras penas conquistado em uma história
excludente - torna-se, para muitos, um incômodo e motivo de irritação.
Fica, inclusive, um hábito recorrente: vociferar contra a perturbação
do aparente sossego no qual se supunha estar e, agora, afrontar a exigência
de ter de fazer escolhas, participar, tomar partido.
Democracia dá muito trabalho. Atrapalha o trânsito. Ocupa
o tempo televisivo com aquela obsessão ansiada por alguns. Torna
as ruas das cidades repletas de cartazes, faixas, carros de som, bandeiras.
Invade o espaço do rádio de forma intermitente, parecendo
uma infinda Voz do Brasil recheada só com propostas partidárias,
promessas e planos.
Democracia irrita?
Não deveria. Quase toda a nossa história republicana - sem
contar a totalidade do Período Colonial e do Imperial - foi sem
a democracia. Ora, não esqueçamos jamais: são 502
anos de fundação da nação e apenas 13 anos
de democracia formal plena; afinal, somente nas eleições
de 1989, cem anos após a Proclamação da República,
todos os cidadãos e cidadãs puderam participar do pleito,
sem ter os direitos políticos seqüestrados, por serem vítimas
sociais do analfabetismo.
Em função
disso, ao contrário do tolo vaticínio que supunha a incapacidade
popular de fazer escolhas adequadas, foi exatamente a partir da garantia
desse direito constitucional que nosso país passou a contar com
inúmeras experiências de gestão municipal e estadual
voltadas para os interesses da maioria, além de parlamentos (nos
três níveis) compostos por muitas pessoas marcadas pela lisura,
pela honestidade e pelo comprometimento público.
Não é,
claro, condição majoritária, da qual já possamos
nos regozijar e proclamar a vitória da ética sobre a patifaria
e a rapinagem; mas, sem dúvida, falhou a profecia daqueles que
imaginavam que, quanto mais presença popular massiva nas práticas
democráticas, mais se afastaria o país da "direção
correta".
Por isso mesmo, em
sua derradeira obra escrita em vida, Paulo Freire afirmou que "para
me resguardar das artimanhas da ideologia, não posso nem devo me
fechar aos outros, nem tampouco me enclausurar no ciclo da minha verdade.
Pelo contrário, o melhor caminho para guardar viva e desperta a
minha capacidade de pensar certo, de ver com acuidade, de ouvir com respeito,
por isso de forma exigente, é me deixar exposto às diferenças,
é recusar posições dogmáticas, em que me admita
como proprietário da verdade".
Na democracia é
preciso ouvir, prestar atenção, dispôr-se ao envolvimento,
recusar a passividade, rejeitar a conivência e acolher a decisão
da maioria. A democracia educa a nossa convivência e, mais do que
tudo, permite que sejam renovadas as nossas utopias.
*Professor de pós-graduação em educação
(Currículo) da PUC-SP.