Estatuto da Criança
e do Adolescente completa dez anos e estimula jovens de todo o país
a participarem da construção da cidadania
O velho jargão
do adolescente alienado não corresponde ao empenho dos cerca de
1.500 jovens que participaram do III Festival do Movimento Artístico
Cultural pela Cidadania (Miac), realizado em Salvador (BA), em julho.
Em debates e oficinas, eles discutiram o reflexo do Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), que completou 10 anos de existência dia
13 de julho. Cento e dezoito instituições - entre escolas,
ONGs e representantes municipais e estaduais - se uniram na tentativa
de achar seu papel na mudança da realidade social brasileira.
O Estatuto é
o reflexo, na legislação brasileira, da Convenção
Internacional dos Direitos da Criança, da qual o Brasil foi um
dos 120 países participantes. A partir do ECA, a criança
e o adolescente começaram a ser tratados como sujeitos em condição
especial de desenvolvimento, sendo submetidos a leis específicas.
Segundo Liliane Reis,
coordenadora de comunicação do Festival, o objetivo do evento
foi integrar as instituições de arte-educação
e educação pela comunicação pela melhoria
da qualidade do ensino. "Na Bahia existem muitos grupos que antes
não tinham contato uns com os outros. Agora eles convivem e potencializam
suas ações", afirma.
As atividades, segundo
ela, aproximaram o Estatuto do cotidiano dos jovens. "É uma
lei que se refere a eles, mas que é vista com muita distância.
O Festival ajudou a quebrar essa barreira", garante.
Este ano, além
dos debates, palestras e espetáculos de cultura regional nordestina
que aconteceram também nas versões anteriores do Festival,
foram realizadas oficinas de TV, rádio, fanzine e internet. Todos
os veículos uniram profissionais e aprendizes. O objetivo era mostrar
aos jovens como a imprensa pode contribuir para o avanço dos Direitos
Humanos e para a implantação efetiva do ECA.
Ana Paula de Oliveira,
que participou do festival desde sua organização, acredita
que é essencial que o jovem tenha mais contato com o Estatuto:
"Conhecer o ECA nos permite enxergar a realidade e as possibilidades
de mudança". Para ela, o grande conquista não está
na lei propriamente dita. "O Estatuto não pode ser imposto,
mas precisa de mais divulgação. Assim, cada um poderá
entendê-lo, criticá-lo e mostrar suas necessidades e vontades",
sugere.
A união e articulação
de jovens na discussão do Estatuto ou no desenvolvimento de políticas
públicas não está presente apenas no Festival do
Miac. A pequena cidade de Faxinal do Céu, localizada a sudoeste
de Curitiba, recebe anualmente quase mil pessoas para o evento Vem ser
cidadão que, sua última edição, discutiu o
protagonismo juvenil.
Para o educador Antônio
Carlos Gomes da Costa, um dos mentores do Estatuto, esses encontros estão
sintonizados com suas propostas, uma vez que tratam o adolescente como
parte das soluções e não dos problemas sociais. Sob
essa ótica, as ações destinadas aos jovens devem
abandonar o enfoque preventivo e apontar os valores e o comportamento
que se deseja deles. "Não devemos prepará-los para
o confronto com certas situações - como fazem campanhas
contra AIDS, drogas ou violência, mas ensiná-los a tomar
decisões", explica. "O ideal é que essa educação
seja feita pelo curso de acontecimentos estruturantes, como os encontros,
e influências construtivas; não como pregação",
completa.
Na sua opinião,
o ECA completa dez anos com duas grandes conquistas: a adesão do
terceiro setor e das empresas no combate aos problemas da criança
e do adolescente e a municipalização das iniciativas. "Os
maiores investimentos na área estão sendo feitos por municípios
e não pela União, e a execução da maioria
deles hoje é delegada a ONGs", explica.
Gomes da Costa aponta
ainda como reflexos do Estatuto avanços nas áreas da educação,
saúde e combate ao trabalho infantil. "Temos mais crianças
escolarizadas e com melhor desempenho, menor mortalidade infantil e ações
de ONGs e governo contra o trabalho infantil".
Entretanto, de acordo
com ele, o Estatuto enfrenta crises de interpretação e implementação.
A primeira se expressa nas propostas encaminhadas ao Congresso para alterá-lo.
"Esses projetos querem diminuir a distância entre a lei e a
realidade, piorando a lei quando o objetivo é melhorar a realidade",
critica. Essa crise de implementação decorre da falta de
ética e vontade política das autoridades em relação
aos direitos da população juvenil. "Não há
condições para a Justiça funcionar se por trás
dela não existir uma proposta pedagógica séria para
o tratamento dos jovens que cometem atos infracionais", diz. "Na
maioria dos Estados, as respostas educativas estão distantes da
competência e seriedade requeridas.".
Segundo o educador,
o Estatuto oferece todos os mecanismos necessários para repreender
com severidade e justiça os jovens infratores, mas algumas pessoas
ainda o vêem como forma de proteção a delinqüentes:
"O que acontece é que os órgãos responsáveis
não aplicam esses instrumentos". Segundo Gomes da Costa, a
Febem de São Paulo é o maior exemplo no que diz respeito
à total indigência pedagógica: "Tentar aplicar
o ECA usando instituições com a estrutura de Febem é
como tentar tocar um CD numa radiola de 78 rpm", compara.
Porém, Gomes
da Costa não acredita que retrocessos como a Febem possam colocar
o ECA no banco dos réus. "É um contra-senso culpar
uma lei por um fracasso ao invés dos responsáveis por fazê-las
cumprir", conclui.