Para educador,
não faltam recursos para a educação e sim uma correta
gestão do dinheiro público
A verba destinada
à educação no município de São Paulo,
exatos R$ 1,684 bilhões, é superior ao orçamento
de muitas cidades brasileiras. A rede paulistana impressiona pelos números:
são 905 mil alunos e 36 mil professores. Administrar essa máquina
é um desafio e uma oportunidade para o próximo governante,
cujo acerto de sua gestão pode servir de modelo para todo o país.
O professor Mário Sérgio Cortella já sentou na cadeira
mais importante da educação municipal brasileira: foi chefe
de gabinete de Paulo Freire em 1990 e secretário municipal de educação
no período de 1991 a 92. Essa experiência foi registrada
por ele no livro A Reconstrução da Escola (Instituto Paulo
Freire/Cortez, X págs., R$ ?). Graduado em filosofia, doutor em
educação e professor da PUC-SP, Cortella alerta, com experiência
de causa: o atual modelo de ciclos no ensino fundamental vai estourar
na rede pública daqui a dois anos. "Vai faltar espaço
físico para abrigar os alunos", alerta. Nesta entrevista,
Cortella antecipa alguns tópicos de sua palestra no Saber 2000
- IV Congresso e Feira de Educação: fala o que está
por trás do dinheiro oferecido pelo Banco Mundial para a educação
pública, diz que falta vontade política para melhorar a
educação brasileira e aponta como saída a democratização
do acesso e permanência.
Educação
- Para o senhor, os problemas educacionais brasileiros têm solução? Mário Sergio Cortella - A educação tem jeito
porque o Brasil tem jeito, as pessoas têm jeito. Tudo o que é
humano pode ser refeito. A educação brasileira hoje caminha
sob uma dupla situação que precisa ser bem pensada: não
pode ter uma visão catastrofista nem triunfalista. O governo federal
e as políticas públicas têm uma visão triunfalista,
de que nós já estamos saindo de nossa miséria educacional.
Trabalha-se inclusive com um conceito estranho em história, que
é o resgate da cidadania. Mas a palavra resgate supõe que
algo já existia e você vai buscar de novo. Nós nunca
tivemos cidadania. Não pode ter a noção de resgate
e sim a de construção da cidadania. Por outro lado, não
podemos cair dentro da concepção catastrofista, que é
desconhecer uma série de avanços na educação
brasileira.
Educação
- As avaliações que pretendem nortear as políticas
educacionais do governo federal podem ajudar a reconstruir um modelo novo? Cortella - O MEC vem se especializando em fazer avaliações
para identificar aquilo que já se sabe. Existe a avaliação
do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb),
que levantou problemas na área. É claro. Há décadas
que se escreve, discute e lida com isso. Temos ainda o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem), para chegar à conclusão que
há problemas no ensino médio e que no ensino noturno há
mais problemas. Faz 25 anos que se discute tudo isso. A questão
central não é ter esquemas de avaliação que
simplesmente apontem que há problemas. Isso a gente já sabe.
Devemos ter um sistema de avaliação que seja ao mesmo tempo
corretivo, que possa ser processual.
Educação
- Mas as avaliações permitem descobrir onde as coisas estão
funcionando.
Cortella - O governo alardeia que há um aumento no número
de crianças, entre 7 e 14 anos, que se matriculam no ensino fundamental.
Isso é verdade. Mas como está a permanência? Não
basta o ingresso. Não se pode tratar a educação com
fogos de artifício. O MEC também diz que investimos 4% do
Produto Interno Bruto (PIB) em educação e isso nos aproxima
dos países de primeiro mundo. É verdade. A diferença
é que para eles isso é taxa de manutenção
de uma trajetória que já está em velocidade de cruzeiro
há décadas. Para nós é simplesmente um orçamento
que começa a sair da miséria educacional que temos e é
insuficiente.
Educação
- E os avanços na alfabetização de adultos?
Cortella - O governo trata, de maneira equivocada, a alfabetização
de jovens e adultos como uma questão de solidariedade. O projeto
de alfabetização do país não pode estar ligado
ao Comunidade Solidária porque é uma questão de direito
e cidadania, não uma questão de caridade, filantropia ou
solidariedade. O Brasil é hoje, segundo a Unesco, o sétimo
país em número de analfabetos totais. Temos 18 milhões
de analfabetos totais, acima dos 15 anos de idade, e 25 milhões
de analfabetos funcionais, aquele que passou por um mínimo de escolaridade,
mas que não consegue ler nem um bilhete. Isso dá 43 milhões
de pessoas, a partir dos 15 anos. Se eu utilizar o critério do
Unicef, que conta a partir dos 10 anos, supondo que nessa idade alguém
já estaria alfabetizado, aí chegamos a 62 milhões
de pessoas.
Educação
- A Constituição estabelece que até 1998 o país
teria que universalizar o ensino fundamental e eliminar o analfabetismo.
O prazo estourou.
Cortella - Caímos numa armadilha. A saída foi a seguinte.
Em 1996 se fez um projeto de emenda constitucional que criou o Fundo de
Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), onde se postergou esse
prazo por mais 10 anos. Ao invés de levantar a ponte resolveram
abaixar o rio. Ao invés de investir para atender esse prazo, esticou-se
o prazo.
Educação
- A justificativa é que falta dinheiro.
Cortella - Não faltam recursos para alfabetizar. Vou dar um
exemplo: em fevereiro do ano passado o Banco Central, naquele famoso desperdício
de dinheiro público, repassou R$ 1,6 bilhão para o banco
Marka Fonte-Sindam, para salvá-lo. Se dividirmos esse dinheiro
pela quantia que o governo federal repassa a cada estudante do ensino
fundamental - R$ 315 por ano, via Fundef -, daria para colocar bastante
gente dentro da escola e alfabetizar três milhões de adultos.
Além de termos falta de recursos, convivemos com um desperdício
de dinheiro inacreditável. Somos um país pobre? No ano 2000,
o Brasil é considerado a décima economia capitalista do
planeta. Mas somos 68º país em qualidade de educação.
A média de escolaridade do brasileiro é de três anos
e sete meses, a mais baixa do Mercosul.
Educação
- Mas aumentou o número de ingressos no ensino médio.
Cortella - O ensino médio ainda é um privilégio
no Brasil. Mesmo com esses aumentos imensos que tivemos - a ponto de chegarmos
agora a quase sete milhões de matrículas no ensino médio,
que também se deve ao aumento na curva demográfica da população
nesse período -, é um número ainda insignificante
se contarmos com o volume de estudantes no ensino fundamental. São
34 milhões de alunos.
Educação
- Segundo o MEC, diminuiu o número de evasão escolar, aumentando
o número de crianças em sala de aula.
Cortella - Temos dois movimentos. Primeiro, o fato de termos uma população
maior na faixa etária de 14 a 19 anos, concentração
inédita dentro do nosso perfil demográfico do último
século. O segundo fator é que tivemos, na década
de 80, uma série de movimentos de aceleração da escolaridade
no ensino fundamental que reduziram bruscamente a evasão e a retenção,
gerando maior número de matrícula no ensino médio.
Educação
- Tudo isso patrocinado pelo governo federal.
Cortella - Não. Vinha de um movimento anterior, com estrutura
e classes de aceleração no antigo primeiro grau, estrutura
de produção por ciclos, mudando o sistema de aprovação.
Nos anos 90, quando começamos a ter esse afluxo, há uma
coincidência dos dois movimentos.
Educação
- Mas alguém deve ter patrocinado politicamente esse sistema.
Cortella - É claro. Os governos estaduais entraram num primeiro
momento. Minas Gerais e São Paulo começaram esse movimento.
Educação
- Houve então uma apropriação política do
governo federal?
Cortella - Sim, quando o governo percebeu aquela tendência e,
é claro, há estudos nessa direção - não
podemos esquecer que, antes de ser ministro, Paulo Renato era assessor
do Banco Mundial. Outra pessoa que trabalha com ensino médio e
é responsável pelo relatório é a professora
Guiomar de Melo, que foi assessora do Banco Mundial até pouco tempo.
Em São Paulo, o Banco Mundial financiou estruturas dentro dos governos
Quércia e Fleury, fez isso no Nordeste e em outros estados.
Educação
- Esses estudos e inferências do Banco Mundial geram resultados
satisfatórios?
Cortella - Interferência sempre é algo negativo, se partimos
do ponto de vista que desejamos autonomia. Temos subserviência a
algumas políticas do Banco, que aparecem no momento que alguns
governantes trocam nossa capacidade em autogestão por um empréstimo
que nunca trouxe o efeito que se imaginava. Há muitos livros e
estudos nessa direção.
Educação
- O problema do Banco Mundial é ideológico?
Cortella - O Banco Mundial é um banco. Não é
nem a secretaria de Bem Estar Social nem Casa de Misericórdia.
De maneira geral, o Banco Mundial cumpre os ditames ideológicos
que a hegemonia capitalista norte-americana indica. Por exemplo, a idéia
de um ensino que seja menos propedêutico e mais técnico,
direcionado ao mercado de trabalho. Uma avaliação do ensino
que se restringe a ensinar o código matemático e o código
lingüístico, como se isso fosse a única forma de a
pessoa ter algum tipo de atuação social. E utilizar monitores,
ou seja, não estar profissionalizando os quadros do magistério
por entender que eles são potencialmente explosivos em suas organização.
Educação
- E qual o modelo que se contraporia ao do Banco Mundial?
Cortella - Através de quatro pontos fundamentais: democratização
do acesso e permanência; democratização da gestão
escolar, com participação de professores, alunos, pais e
funcionários; uma nova qualidade de ensino com mudanças
na organização do trabalho do docente; e alfabetização
de adultos.
Educação
- O Fundef já não cumpre esse objetivo?
Cortella - O Fundef é exclusivo para o ensino fundamental.
Os municípios até pouco tempo trabalhavam prioritariamente
em dois pólos: educação infantil, de zero a 6 anos,
e educação de jovens e adultos. A municipalização
que vem sendo feita é universal é compulsória. Obriga
o município a receber o recurso que era dele mesmo, a ter um número
determinado de alunos per capita. Conseqüentemente, só no
estado de São Paulo mais de 90% dos municípios gastavam
70% do orçamento em educação infantil e de adultos.
Agora, para não perder o recurso do Fundef, deve deixar de lado
a educação infantil e a de adultos. É o que prejudica
diretamente o pobre, o excluído. É ele que coloca o filho
na creche pública e é ele quem é o analfabeto adulto.
Educação
- A municipalização do ensino, se bem administrada, ajudaria
a eqüalizar essas distorções?
Cortella - A municipalização do ensino é uma
tese louvável, mas só pode ser implantada com medidas cautelares,
senão desmonta a base de apoio de operação do poder
municipal. Acaba não existindo uma municipalização,
e sim uma prefeiturização. Sai das mãos do estado
e vai para a mão do executivo municipal. Há outras implicações.
Por exemplo, com a instalação dos ciclos de 1ª à
4ª séries e de 5ª à 8ª séries, o problema
vai estourar daqui a três anos ou dois nos municípios com
problemas de rede física. Se eliminarmos a evasão e a retenção,
o problema vai estourar na falta de vagas.
Educação
- O senhor se considera um otimista?
Cortella - Sempre. Gosto de usar uma idéia do Paulo Freire
que é do otimismo pedagógico. Aquele otimismo esperançoso,
do verbo esperançar, não do esperar. Otimismo em olhar para
a nossa história e ver o quanto estamos dando passos enquanto sociedade.
Gostaria de lembrar de algo que dizia Paulo Freire: "a gente tem
que fazer o que pode ser feito". Se você não fizer hoje
o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não pode
ser feito, dificilmente fará amanhã o que hoje deixou de
fazer. Porque as condições se alteram. Há dois mitos
que devem ser deixados de lado: o de que nada pode ser feito e que tudo
pode ser feito.