O cavalheiro escritor
escreveu na página nobre do jornal o artigo O governo ensandeceu,
de crítica à fúria multadora das autoridades de trânsito.
Com espantoso comedimento, fala da multa "estupidamente alta, mesmo
para um homem que tem o nível de renda que este vosso escriba:
em torno de duzentos paus as duas". Recatada declaração
e forma descontraída de escrever.
Diz mais, despretensiosamente:
"Isto significa simplesmente que, se é outro o infrator, um
homem de renda baixa, um pobre trabalhador, que, por isso ou por aquilo,
ultrapassou o sinal com velocidade acima da fixada ele tem duas opções:
1) não paga a multa; 2) não transita mais de carro."
E continua, irrespondível
na crítica, embora manquitolante na forma:
"Em média,
a renda do povo brasileiro está abaixo do dignamente indispensável
para qualquer pessoa poder sobreviver. O governo, mesmo sabendo disso,
suga-lhe com multas extorsivas, os olhos da cara. Sem qualquer comiseração."
Embora irritado, e
sem deixar de exaltar seus invejáveis bons ganhos ou boas rendas,
o escritor parece ter escrito as maltraçadas sem muito cuidado.
Seria a irritação que o fez distrair-se?
"Se é
outro o infrator (...) ele tem duas opções", escreve
o escritor. Apesar do intercalamento representado por (...) no textículo,
é óbvia a falta da vírgula antes do desnecessário
"ele": "se é outro o infrator (...), tem duas opções".
O "ele" aí comparece como o Maluf às eleições:
é desnecessário, sobejante, excrescente e expurgável.
No período
seguinte, há dois verbos terminados em "er" seguidos,
em desagradável eco: "poder sobreviver". Sem mexer na
estrutura oscilante do texto, pode-se apenas eliminar o "poder".
Quanto ao trecho seguinte,
traz uma expressão inusitada: "sugar os olhos da cara".
Nunca se imaginou tal coisa, mas criatividade é isso.
"O governo, mesmo
sabendo disso, suga-lhe com multas extorsivas, os olhos da cara. Sem qualquer
comiseração."
Sem "qualquer"
comiseração? Sabemos todos que "qualquer" é
um pronome indefinido, sem sentido negativo. Se o escritor queria acentuar
a impiedade do governo, poderia ter usado bem "sem nenhuma comiseração"
ou "sem comiseração alguma", equivalentes, sem
a impropriedade de dar a "qualquer" sentido que ele não
tem, por ser alegremente indefinido.
O fato é que
o articulista-escritor começa sua diatribe com um ataque irreprimível
de bazófia, em louvação a seu próprio estado
de bem-aventurança financeira, e vai escorregando morro abaixo
em humildes distrações gramaticais.
Por que a vida é
assim?
Na Velha Mooca
- Há algum tempo, a prefeitura de São Paulo montou a
chamada "Operação Tapa-Todos" para tapar os 2.633.847
buracos da cidade. Tapou?
No comercial de TV
exibido periodicamente, relacionava os bairros em que as equipes tapadoras
trabalhariam na semana. Num deles, apareceu o nome do bairro da Mooca
com acento no segundo "o", o "ó" aberto do
nome. Nada, nem grandes picaretagens, justifica esse acento no nome de
origem tupi mbo ó ka, que significa "fazer casa; rancharia,
pouso". Mooca, portanto, não leva acento. Esse acento impróprio
aparece também em algumas placas oficiais ou não do bairro.
Muita gente esqueceu,
mas a dupla de vogais "oo" só aparece marcada por acento
circunflexo, o velho chapeuzinho, no primeiro "o" do fim de
palavras: "abençôo, enjôo, vôo, zôo".
Outra dupla de vogais
acentuada, sabemos todos, é a "êem". Leva acento
circunflexo o primeiro dos dois "ês" da terceira pessoa
do plural do presente do indicativo de alguns verbos: crêem, dêem,
descrêem, lêem, relêem, revêem.