Incluir na escola
crianças e adolescentes vindos de lixões mobiliza governo,
ONGs, entidades internacionais e torna-se desafio para professores
O bicho
"Vi ontem um
bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma
coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não
era um cão,
Não era uma gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem."
(Manuel Bandeira)
Trabalhava com minha mãe e meus irmãos no lixão.
Era muito perigoso, principalmente porque os carros (os caminhões
que despejam o lixo) podiam nos atropelar. Um dos meus irmãos morreu
assim. Minha mãe morreu mais tarde. Na escola, os alunos das outras
salas falavam que a gente era do lixo. Eu não respondia porque,
pelo menos, eu trabalhava." Prova concreta e tristemente corriqueira
do poema de Manuel Bandeira, Neide Tavares da Silva, 15 anos, era uma
das 43 mil crianças que trabalham em lixões espalhados por
todo o Brasil. A maioria delas nunca entrou em uma sala de aula.
Um levantamento realizado
em 1999 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef) registrou outro dado vergonhoso: muitas dessas crianças
não têm sequer certidão de nascimento. São
filhos de famílias que vivem do recolhimento de materiais recicláveis
extraídos das lixeiras e moram em barracos e outros tipos de moradia
precária ao redor do lixo.
Para mudar esse quadro,
o Unicef lançou a campanha Criança no Lixo Nunca Mais e
articulou - com uma série de conselhos estaduais, entidades civis,
órgãos governamentais e o setor privado - o Fórum
Nacional de Lixo e Cidadania. "A idéia era criar uma rede
que desenvolvesse programas para a erradicação do trabalho
infantil dos lixões em todo o Brasil", explica America Ungaretti,
oficial de programas do Unicef.
A iniciativa é
fruto do trabalho de colaboradores do Fórum em parceria com a ONG
Missão Criança, o Ministério do Meio Ambiente, o
Ministério Público do Trabalho, o Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil (Peti) e 1.500 prefeituras. Em pouco mais de dois
anos, a campanha conseguiu levar 13.230 crianças de volta para
a escola por meio de programas desenvolvidos em cada município.
"O resultado foi além do esperado", entusiasma-se America.
Um desses programas
é o Meio Ambiente e Cidadania, desenvolvido durante a campanha
em Olinda (PE). No município, 250 crianças e adolescentes
que viviam no lixão Aguazinha hoje freqüentam as salas de
aula. Atendidos em período integral, os alunos fazem atividades
complementares à escola, como capoeira, danças populares,
música, artesanato, além de visitarem museus, parques e
torneios esportivos.
A garota Neide hoje
faz supletivo (quinta e sexta séries do ensino fundamental) no
Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente
(Caic) e é um dos exemplos de que o trabalho integrado de órgãos
públicos e da sociedade civil organizada pode mudar a vida desses
jovens. Filha de catadores de lixo, Neide morou quase toda a sua vida
no lixão de Aguazinha até começar a freqüentar
o programa. Quando os voluntários do Meio Ambiente e Cidadania
apareceram anunciando o projeto, ela se interessou: "Ia para a escola
e ficava na sede do projeto à tarde. Lá aprendi frevo, percussão
e cerâmica."
Vera Santos, diretora
do Caic, explica que esses alunos passaram dois anos em salas especiais,
com professores contratados exclusivamente para eles. "Inicialmente,
não era possível colocá-los junto com as outras crianças,
pois tinham uma grande discrepância idade/série." Isso
significa que, embora incluídos na escola, esses jovens eram excluídos
do convívio social escolar. Hoje, plenamente inserida nas atividades
de sua escola, Neide mora com sua irmã e garante que vai à
aula sem o estigma de ter trabalhado no lixão.
Em São Paulo,
os relatos não são diferentes. Conduzido por um grupo técnico-executivo
selecionado de todas as secretarias municipais pelo prefeito Maurício
Soares (PPS), de São Bernardo do Campo, o programa Lixo e Cidadania
já matriculou 176 crianças provenientes do Lixão
Alvarenga, o maior da região metropolitana de São Paulo.
Essas crianças passam por acompanhamento psicopedagógico,
juntamente com suas famílias. "Não adianta tirar as
crianças do lixão sem elaborar um plano para a sustentabilidade
de seus pais", afirma Téia Magalhães, secretária-executiva
do Fórum.
Em São Bernardo,
por exemplo, eles foram treinados e capacitados em dois cursos: organização
social para o trabalho coletivo, propiciado pelo Unicef, por meio do Instituto
de Governo e Cidadania do ABC, e o segundo através de uma parceria
entre o Sebrae e a Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo (USP). O município adotou ainda a coleta seletiva de lixo,
em um amplo programa de conscientização da população,
e criou dois centros de triagem de lixo para os cooperados.
Outras regiões
também mostraram que é possível mudar e possuem projetos
semelhantes. Só em Mato Grosso do Sul, a campanha beneficiou 2.063
crianças. Na Região Norte, foram retiradas do lixo 1.739
crianças e adolescentes de 14 municípios. A maior redução
ocorreu no Nordeste, onde 5.566 jovens voltaram para a escola.
"Retirando os
pais do lixão e educando seus filhos, poderemos enfim acabar com
esse trabalho degradante", almeja America Ungaretti, do Unicef.