Para
o consultor do MEC, conhecimento é uma rede - cabe ao professor
filtrar as informações
Há quem fale
em quatro, sete, até dez competências básicas que
todos os professores devem desenvolver se quiserem fazer frente aos enormes
desafios da educação do século XXI. E, muitas vezes
assustados, lá vão os mestres a procurar mais um fio da
meada. Competências? O que são? Onde se aprende isso? Por
onde começar?
Antes de transformar
conceitos importantes em regras aplicáveis em qualquer situação,
vale a pena ouvir as palavras de um dos pesquisadores brasileiros mais
respeitados nessa área, Nilson Machado, professor-titular da Faculdade
de Educação da Universidade de São Paulo. Autor de
diversos livros, consultor do MEC, pesquisador na área das concepções
de conhecimento e de inteligência e suas relações
com a prática docente, Machado fez parte da equipe que formulou
a base teórica do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),
o que inclui a definição das competências e habilidades
a serem buscadas pelo exame. Para ele, antes de tentar quantificar ou
classificar as competências exigidas pelo mundo contemporâneo,
é preciso compreender o que significa esse conceito. Principalmente
porque, em sua visão, competência se refere ao desenvolvimento
da pessoa, e ninguém pode dizer como alguém deve ser como
pessoa.
Essas idéias
serão levadas ao V Congresso Saber 2001, que acontece entre os
dias 13 e 15 de setembro, em São Paulo. Juntamente com Lino de
Macedo, outro peso pesado da pedagogia brasileira, Nilson Machado falará
sobre esse tema na palestra A palavra e a ação: trabalhando
competências e habilidades. Antecipando um pouco do que falará
aos professores, no congresso, Machado concedeu a seguinte entrevista
à revista Educação.
Educação
- O que são competências e habilidades?
Nilson Machado - Antes, é preciso fazer uma observação
para iniciar nossa discussão. Esses termos não são
novos, como se pensa. Vão e vem, ao longo do tempo. Por isso, não
quero fazer uma arqueologia desses conceitos, mas me concentrar nas atuais
definições, mesmo porque muita gente tem feito críticas
ácidas a essa questão pensando na taxonomia antiga. Para
começar a entender o tema, um ponto fundamental é que a
idéia de competência aparentemente contradiz a de disciplinas,
de currículo. Hoje, a escola organiza-se inteiramente em torno
da noção de disciplina. Tanto que a partir da quinta série
o professor deixa de ser "professor" para se tornar professor
"de" algo. Professor de geografia, professor de matemática,
professor de português, quando, em última análise,
deveria ser professor de gente, não de matérias.
Educação
- Por que contradiz "aparentemente"?
Machado -
Aparentemente, porque, na verdade, continuaremos a ter professores de
disciplinas. O que muda, nessa nova concepção, é
que a disciplina passa a ser o meio, e o fim é a pessoa. Aliás,
como já faziam os gregos, nas disciplinas do trivium - lógica,
gramática e retórica. O que era o trivium? Era a formação
básica que todo político (habitante da pólis, da
cidade) deveria ter. Não eram alguns, mas todos. Daí vem
a palavra trivial. A idéia de disciplina, nessa visão reduzida
que tem hoje, não tem mais do que 150 anos. O aspecto cognitivo
tomou o lugar das outras formas de conhecimento, na escola.
Educação
- E hoje voltamos a buscar a superação desse modelo baseado
nas disciplinas. Todos conhecemos essa forma, mas do que tratam as competências?
Machado -
Agora, sim. A idéia de competências tem três ingredientes
básicos. Primeiro: relaciona-se diretamente à idéia
de pessoa. Você não pode dizer que um computador é
competente; competente é o seu usuário, uma pessoa. Segundo:
a competência vincula-se à idéia de mobilização,
ou seja, a capacidade de se mobilizar o que se sabe para realizar o que
se busca. É um saber em ação. Aliás, da má
compreensão deste aspecto vem outra crítica, a de competência
como mero saber fazer algo. Agir é mais do que fazer. "Ação"
é uma palavra com uma dignidade incrível. Basta lembrar:
você, como pessoa, aceita a cooperação; recusa a coação.
A ação é sempre pessoal. Eu preciso fazer ainda uma
outra distinção, porque a ação tem um sentido
duplo: mobilizar conhecimentos para realizar projetos e explicitar aquilo
que cada um de nós sabe tacitamente.
Educação
- O senhor poderia explicar melhor esta última afirmação
sobre o duplo sentido da ação?
Machado -
Tome, por exemplo, a questão da capacidade de expressão.
Isso não é uma matéria, mas a disciplina tem de servir
a essa finalidade, que é fundamental. Capacidade de expressão
também pode ser entendida como a mobilização do que
está dentro de nós. E é importante lembrar algo que
a escola não dá atenção. Todos nós
sabemos muito mais do que somos capazes de explicitar. É como aquela
velha imagem da ponta de um iceberg. O que nós sabemos expressar
é somente a ponta do iceberg.
Educação
- Como a escola lida com o que o aluno sabe "tacitamente"?
Machado -
A escola está estruturada sobre programas, ou seja, na etimologia
da palavra, com o que foi escrito antes. Até aí tudo bem.
É como no teatro: você tem o programa, mas quer ver o espetáculo.
O problema é que a escola corre atrás do programa e se esquece
do espetáculo que poderia acontecer. Hoje, a escola superestima
o explícito e subestima o tácito. Isso é grave, pois
na questão dos valores, por exemplo, o tácito é muito
mais importante do que o explícito. Pode criar várias disciplinas
falando de cidadania, honestidade. Os valores têm de ser vividos,
vivenciados, ou a escola se torna uma fábrica de cínicos.
O maior erro é subestimar o tácito, pois viveremos a vida
toda entre o mundo do tácito e do explícito. Na verdade,
podem até achar ruim eu dizer isso, mas acho mesmo que o bom professor
é aquele que ensina tacitamente. É desse que nos lembramos,
sempre.
Educação
- Voltando um pouco, qual é terceiro ingrediente da competência?
Machado -
Que a competência sempre está restrita a certo âmbito.
Sempre há um limite. Não dá para ser competente para
o que der e vier. A competência sempre é exercida dentro
de um contexto. Quanto mais estreito é o âmbito, mais fácil
é mapear as competências necessárias. Por isso não
gosto de fixar número de competências. A tentativa de se
mapear as competências freqüentemente derrapa em classificações
exaustivas, em que se misturam coisas grandes e miúdas. É
como dizer que o professor tem de ser competente para respirar, senão
ele morre. A idéia de competência pressupõe uma concepção
de mundo, de pessoa, de educação.
Educação
- Na educação brasileira já existem exemplos de aplicações
concretas das idéias relacionadas às competências?
Machado -
Sim. Juntamente com outros educadores, como Luiz Carlos de Menezes e Lino
de Macedo, integrei a equipe de consultores do MEC que formulou as bases
teóricas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Isso
inclui a definição de um grupo de competências e habilidades
a serem buscadas nesse exame. Hoje, permaneço consultor do MEC,
mas, agora, o trabalho está mais centrado na execução
das propostas e, por isso, não estou tão presente nessa
fase.
Educação
- Como a idéia de competências se cruza com a idéia
de habilidades?
Machado - Segundo
um conceito de Lino de Macedo, habilidades são como microcompetências.
Vamos pegar o exemplo do Enem. Se você ler o documento básico
do Enem (no site www.inep.gov.br), lá está: competências
são ações e operações que utilizamos
para estabelecer relações com e entre objetos, situações,
fenômenos e pessoas que desejamos conhecer. As habilidades decorrem
das competências adquiridas e referem-se ao plano imediato do "saber
fazer". No Enem, quando definimos as habilidades e as competências
a serem trabalhadas, partimos de muitas entrevistas com grupos de professores
e chegamos a cinco competências básicas. Cada uma dessas
cinco se abre em diferentes formas de manifestações. Não
é uma distinção de qualidade, mas de tamanho.
Educação
- O senhor disse que competências se referem ao desenvolvimento
das pessoas. Isso se aplica ao professor?
Machado -
Sim. É cada vez mais freqüente você ver pessoas que
cursaram inúmeras disciplinas, em sua formação, mas
trabalham em áreas completamente diferentes. Por exemplo, engenheiros
trabalhando em bancos. Isso não é uma anomalia. Nós
passamos pelas disciplinas, mas nos desenvolvemos como pessoas, ainda
que não utilizemos todos aqueles conteúdos. Também
para o professor, o objetivo deve ser o desenvolvimento como pessoa. A
educação visa, sobretudo, à pessoalidade, e pessoalidade
é uma idéia maior, que engloba a de cidadania. O âmbito
da cidadania é o da igualdade perante a lei, a articulação
entre o pessoal e o coletivo. A idéia de pessoalidade é
a da diferença, que todos buscamos. O cidadão tem direitos
e deveres. As pessoas têm competências. E aqui também
é bom recordar a etimologia da palavra. A origem do latim significa
"pedir junto com". Só mais tarde veio a idéia
de competir. Nesse sentido, alguém ganha, logo alguém perde,
e creio que seja esse o caso.
Educação
- Que competências deve ter o professor?
Machado -
Não gosto de colocar as coisas nesses termos, mas eu colocaria
para o professor ao menos uma reflexão sobre duas grandes competências:
a primeira é tecer significados. É isso que as pessoas buscam:
significados. A segunda competência é mapear esses significados.
É muito fácil você se perder em uma vasta rede de
significados, que se entrecruzam em fios, relações, redes.
Basta ver a internet. Digite "corpus" num site de busca e aparecerá
lado a lado Corpus Christi e habeas-corpus. O professor deverá
mapear o que tem valor e o que não é relevante e isso só
pode ser feito de dentro de um projeto que é dele, mas também
da escola e da sociedade.
Educação
- A palavra "mapear" é importante para o senhor?
Machado -
Sim, pois o conhecimento, compreendido como uma rede, leva à idéia
de mapa. O currículo é um mapa do conhecimento. O mapa das
competências também está ligado à pessoa, ou
seja, liga a uma visão de mundo. É preciso fazer um mapa
das competências para certa realidade, ou seja, um mapa de relevâncias,
o que só pode ser feito em função de um projeto.
Educação
- Como o professor se localiza nesse assunto? Como escolher um caminho,
entre tantas definições?
Machado -
Não faz sentido ninguém dizer como o outro deve ser como
pessoa, qual é o significado de sua vida. Não se pode fazer
projetos pelo outro. O pai que quer fazer projetos por seu filho só
causa problemas. Mas, por outro lado, temos de ver em que trajetória
nos encaixamos. Ninguém vive como pessoa isolada. Isolado é
o indivíduo. Uma pessoa tem papéis, também é
mais um dos elos que ligam essa rede. O termo pessoa vem de persona, a
máscara no teatro grego. Você tem de escolher que papel gosta,
em qual peça quer atuar. Por isso, cada professor, cada pessoa
deve buscar o significado de sua ação, de sua vida. A crise
da educação não é outra coisa senão
a perda de sentido. Em um livro, Neil Postman, provocativo professor norte-americano,
afirma que "ou a educação tem um fim ou terá
um fim". Isso é meio radical, mas vale pela reflexão
que provoca. Remete à idéia de a educação
ter um sentido coletivo. Há um autor que diz que a construção
do sentido sempre surge como a construção de uma narrativa.
Estamos procurando agora que narrativas vamos construir e felizmente ainda
podemos escolher.