Um jornal publicou
a enigmática legenda "José Passolongo, que faz diálise
há nove anos", sob a foto do senhor Passolongo, claro. Na
mesma época, saiu numa publicação de lembranças
históricas o seguinte período sobre o ex-governador já
morto, Chagas Freitas, do Rio de Janeiro: "Ele fez 21 cirurgias durante
a vida, para tentar corrigir um defeito congênito."
Nos dois textos, os
redatores fazem com o verbo "fazer" o que os governantes e políticos
brasileiros têm feito com o povo. É isso mesmo. O verbo "fazer"
é pau pra toda obra, já se sabe; era chamado antigamente
de vicário (vigário, substituto), que faz e desfaz no lugar
de outros verbos; costuma substituí-los para evitar repetições.
Pode ser bem usado, sem abuso, mas também estuprado, como nesses
dois casos.
A pessoa citada "faz"
diálises há nove anos. Faz? Funciona como agente? É
o médico ou o técnico que opera o equipamento substituto
dos rins naturais? Se é o paciente, ele recebe o tratamento, submete-se
ao tratamento. Como a foto no caso funciona como chamada para a reportagem
interna, só o editor, o repórter e o fotógrafo poderiam
saber.
No texto revelador
de que Chagas Freitas "fez" 21 cirurgias, não há
tanta dúvida de que não fez nada disso porque não
era cirurgião; era pessoa conhecida - o que o redator não
pôde pressupor para perpetrar sua obra. O que fez aqui com o "fez"
também é comovente. Talvez estivesse com dor de barriga,
por isso terá esquecido uma forma higiênica como "submeteu-se
a 21 cirurgias". Esse negócio de confundir ativo com passivo
não costuma dar certo.
O melhor desse texto,
no entanto, é a necessária e portentosa informação
complementar: "Ele fez 21 cirurgias durante a vida,..." Sim,
durante a vida. Não antes da vida nem depois da vida, que poderia
fazer mal à saúde.
Desde sempre - O filme
comercial do PFL para o agradável horário político
obrigatório mostrava imagens de gente feliz trabalhando. Um locutor
dizia: "Este é o Brasil que o PFL apóia e acredita."
Para provar o entusiasmo patriótico do PFL, o redator misturou
dois verbos de regências diferentes na mesma frase. O partido apóia
alguma coisa e acredita em alguma coisa.
Quer dizer, o verbo
"apoiar" rejeita preposição, mas o verbo "acreditar"
a exige. É verdade que algumas correntes modernas de sábios
consideram a exigência uma bobagem e que a mistura de regências
é aceitável porque sintetiza o enunciado. Em todo caso,
quem pretende ficar de acordo com a língua oficial deve escrever:
"Este é o Brasil que o PFL apóia e em que acredita".
Se achar que a frase
assim formalmente indiscutível e verdadeira ficou rebuscada, poderá
usar verbos com a mesma regência, isto é, dois verbos transitivos
diretos, que rejeitam preposição e têm significado
semelhante ao do comovente enunciado: "Este é o Brasil que
o pefelê apóia e ama, apóia e quer, apóia e
deseja, apóia e venera. Incondicionalmente. Desde sempre."
Esse é o Brasil, desde o século XVI.
*Josué Machado
é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo (Ed. Best
Sellers)