Nascido há
80 anos, Paulo Freire tinha poder de encantar e uma inesgotável
incapacidade de desistir
Pouco mais de um mês
após a morte de Paulo Freire, publiquei uma reflexão sobre
ele e a sedução da esperança (Fluxo, 1997). Agora,
no momento em que comemoramos os 80 anos de seu nascimento, gostaria de
celebrar essa lembrança com a retomada de um trecho daquela mesma
homenagem, pois penso que se mantém dela a vivacidade.
"Paulo Freire
(1921-1997) foi uma pessoa encantadora nas múltiplas acepções
que esse adjetivo carrega. Encantava as pessoas (no sentido de enfeitiçá-las)
com sua figura miúda (grande por dentro), seu sotaque pernambucano
(jamais abandonado) e
sua barba bem cuidada (herança profética).
Seu maior poder de
encantar tinha, no entanto, outra fonte: uma inesgotável incapacidade
de desistir. De algumas pessoas se diz que são incapazes de fazer
o mal, são incapazes de matar uma mosca, são incapazes de
ofender alguém; Paulo Freire sofria (felizmente para nós)
dessa outra incapacidade: não perdia a esperança.
Cabe perguntar: esperança
em quê? Na reinvenção do humano, na necessidade de
inconformar-se com as coisas no modo como estão. Dizia ele que
"uma das condições fundamentais é tornar possível
o que parece não ser possível. A gente tem de lutar para
tornar possível o que ainda não é possível.
Isto faz parte da tarefa histórica de redesenhar e reconstruir
o mundo".
Tarefa histórica
era uma expressão muito usada por Paulo Freire; ora, de quem recebera
ele essa tarefa? De si mesmo, na sua relação com o mundo
real; sua consciência ética apontava sempre como imperativa
a obra perene da construção da felicidade coletiva.
Ele encarnou, como
poucos, um dos ideais da Grécia clássica que dizia ser a
eudaimonia o objetivo maior da política (da vida na pólis);
literalmente eu/bem + daimonia/espírito interior, significaria
paz de espírito, mas sua tradução oferece um ótimo
trocadilho em português: felicidade e, também, feliz/cidade.
Foi exatamente esse ideal (a política como busca da felicidade
de todos e todas) que conduziu Paulo Freire para a educação
e, nela, para a prática libertadora.
Muitas vezes, ao se
avaliar a importância da obra de Paulo Freire e o impacto que causou
na realidade brasileira e internacional, foi comum tachá-lo de
um "incompreendido". Grande engano! Ele foi muito bem compreendido
e, por isso mesmo, é amado e admirado por muitos e rejeitado por
outros tantos.
\aulo Freire não
era (e nem poderia ser) uma unanimidade; fez uma opção pelo
enfrentamento político e existencial e, dessa forma, só
um resultado anódino de suas idéias e práticas conseguiria
situá-lo no altar ascético (e inerme) daqueles que são
aceitos por qualquer um. Afinal, mede-se, também, o alcance do
que se faz pela qualidade dos adversários que se encontra e das
oposições que se manifestam."
O ideal freireano,
felizmente, continua robustecido e vivo para as educadoras e educadores
que sustentam a força da esperança e recusam-se a admitir
a falência da felicidade; esse sim é um ideal perene e amoroso.
*Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.