Projeto
cria rádios em escolas públicas de São Paulo para
desenvolver a comunicação em benefício da educação
Quando você
muda o modo como se comunica, muda tudo". A conclusão da aluna
Laila El Alam, 12 anos, é mais do que um discurso improvisado.
Segundo ela, é uma verdade imprescindível para sua vida.
Ao "falar melhor", como ela mesmo diz, conseguiu expressar suas expectativas
e desejos não apenas ao seu grupo de amigos, mas também
aos seus pais e professores.
Apesar de ser extremamente
comunicativa, Laila credita essa mudança à sua participação
no projeto Educom.rádio, realizado na Escola Municipal de Ensino
Fundamental Professor Carlos Pasquale, na Zona Leste de São Paulo.
Graças ao projeto, ela teve a chance de estudar durante três
meses diversas técnicas de radialismo e criar seus próprios
programas com a ajuda de seus professores e da comunidade em volta da
escola. "Alguns professores até pediram para fazer programas temáticos,
como no dia do trabalhador ou na copa, como forma de avaliação",
lembra a estudante.
Lançado no
final do ano passado pelo Núcleo de Comunicação e
Educação (NCE) da Universidade de São Paulo (USP),
em parceira com a Prefeitura da cidade, o projeto tem por objetivo capacitar
alunos da rede municipal a criar uma programação radiofônica.
Tudo dentro de uma proposta educativa. "É um projeto inovador.
Quando se cria um espaço de comunicação, você
contribui para a construção de uma nova identidade escolar",
acredita Eny Marisa Maia, secretária municipal de Educação.
Para a execução
do Educom.rádio a Secretaria fornece os equipamentos, de laboratórios
de rádio a caixas de som. Pelo programa, serão 450 escolas
atendidas até o final de 2004. "Esse dado é positivo, pois
mostra que o projeto é extensivo a todas as escolas da rede. Às
vezes, a Secretaria é procurada com propostas muito interessantes
de trabalho, mas pontuais e difíceis de serem multiplicadas. O
sistema não pode ser uma colcha de retalhos", argumenta a secretária.
Enquanto isso, o NCE
encarrega-se de capacitar as cerca de 25 pessoas por escola, entre docentes,
estudantes, funcionários e interessados da comunidade, para tornarem-se
educomunicadores. Segundo Ismar de Oliveira Soares, supervisor-geral do
projeto, o uso dos recursos de mídia no processo de educação
aponta para o fortalecimento de conceitos pouco explorados pela escola.
"Há um descompasso
do que diz a lei e a prática de ensino. Embora os Parâmetros
Curriculares Nacionais apontem a necessidade urgente de levar em conta
uma nova realidade que é a mídia, pouco se faz", explica.
De acordo com o professor, a sociedade vem se apropriando, no últimos
anos, sobretudo as ONGs, dessa prática, mas de uma forma reducionista
e isolada. Em vez de ser explorado todo o potencial do tema, o termo educomunicação
é usado somente em trabalhos sobre o impacto da mídia e
na leitura crítica da comunicação. "O que nós
fizemos foi dar maior abrangência a esse conceito, tendo como objetivo
uma pedagogia construtivista."
Soares alega que existe
um preconceito entre educadores e comunicadores que inviabiliza o diálogo.
Por outro lado, quando se fala de tecnologias educativas, o governo prioriza
a informática, em detrimento da utilização da TV
e do rádio. Para reverter essa deficiência, o professor conta
com uma equipe composta por 175 pessoas, entre palestrantes, coordenadores,
formadores, articuladores, assistentes, capacitadores e monitores.
Divididos em grupos,
cada equipe traça um plano de metas para o Núcleo de Ação
Educativa (NAE), como são chamadas agora as extintas delegacias
de ensino. "Armou-se uma estratégia de trabalho que envolve a escola
e professores da universidade, profissionais da mídia e estudantes
de diversos cursos", explica Soares.
Para participar não
há sorteio. Todas as escolas que se inscreverem serão atendidas.
Em alguns casos, os NAEs indicam escolas com problemas de indisciplina
e altos índices de violência, para as quais será dada
preferência. Embora o pouco tempo de implantação impossibilite
dados claros sobre seu impacto, Eny Marisa Maia garante que o projeto
contribui para a eliminação desses problemas. "Temos colhido
depoimentos de professores que nos mostram resultados satisfatórios.
O Educom.rádio mexe muito com a questão da sensibilidade
e favorece o entendimento entre professores e alunos", defende ela.
Não por acaso,
o número de escolas na fila aumenta cada dia mais. Em determinadas
regiões, foi necessário ampliar o atendimento. Outro fato
curioso é o entusiasmo da própria secretária municipal
de Educação em ampliar a idéia para outras instituições.
Segundo Eny, um dos grandes problemas que se tem em qualquer espaço
governamental (secretarias municipais e estaduais, ministérios
etc.) é a desarticulação interna. Por isso, dá
o primeiro passo para instalar uma rádio na sede da Secretaria
Municipal de Educação. "É uma possibilidade de articular
e integrar. Um espaço de ouvir o funcionário, saber o que
estão pensando e como estão direcionando o trabalho", crê.
O caráter participativo
e democrático do projeto possibilitou novas formas de convívio
na escola. "Antes professor era professor e aluno era aluno. Tinha que
respeitar quem estava lá na frente. Agora todos são alunos",
garante Pedro Henrique de Araújo, outro aluno que participa do
projeto na escola Carlos Pasquale.