Educadora
transforma espetáculo em sessão pedagógica e ensina
como levar boa música para a escola
De abril a junho deste
ano, o espetáculo O Samba é Minha Nobreza, concebido pelo
poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho, levou 22.830 pessoas
ao Cinema Odeon BR, no centro do Rio de Janeiro (RJ). O que poderia ter
sido apenas mais um bom show de samba se transformou em um exemplo de
como levar música de qualidade para a sala de aula: 986 professores,
de 185 escolas públicas e particulares, levaram 10.337 alunos para
ver as sessões pedagógicas do espetáculo. Além
de assistir gratuitamente ao show - que reuniu várias gerações
de músicos numa homenagem aos grandes nomes do samba -, as escolas
receberam lanche, material de apoio didático, uma cartilha com
textos explicativos e pequenas biografias dos compositores. Por trás
dessa empreitada está Felicia Krumholz, organizadora do projeto
e coordenadora de outra iniciativa semelhante, o Oficina Cine-Escola,
programa permanente do Grupo Estação. Segundo ela, é
preciso criar e manter opções "cidadãs" de cultura
e educação.
Educação
- Qual o mérito de projetos como o Samba é Minha Nobreza?
Felicia Krumholz
-A gente tem de fazer o possível e o impossível
para tentar tirar as pessoas da modorra de ficar dentro de casa, em frente
à TV. É por isso que eu não passo filme na escola,
faço o professor vir com seus alunos ao cinema. O sair da classe,
a oportunidade de entrar numa sala de espetáculo, debater o que
assistiu e depois voltar para a escola é uma atividade tão
diferente, tão cidadã, que não tem dinheiro que pague.
Eles fazem bagunça, jogam pipoca, entopem o banheiro mas paciência,
essas coisas acontecem. Quando eu era aluna, conheci tudo que é
museu e ponto cultural importante da cidade.
Educação
- Mas não há um exagero nessas atividades extra-escolares?
Até que ponto é necessário tirar o aluno da sala
de aula para explicar bem uma matéria?
Felicia -Os
professores do Rio de Janeiro têm medo de circular e saem com os
alunos cada vez menos. Várias crianças que moram na Barra
da Tijuca nunca vieram ao centro da cidade. Concordo que esses passeios
são polêmicos, a molecada adora, os pais reclamam, gasta-se
muito dinheiro. E, se você for ver, muitas crianças querem
mesmo é ir para Porto Seguro com aquele professor que deixa passear
à vontade e tomar caipirinha. O pior é que é mais
fácil achar quem leve para o Playcenter ou Parque da Xuxa do que
quem leve ao cinema.
Educação
- O show aproveitou sua experiência com o Oficina Cine-Escola, do
Grupo Estação. Como funciona esse programa?
Felicia -O
Grupo Estação nasceu, em 1985, da vontade de um grupo de
cineclubistas de passar filmes diferentes. Se não criarmos o público
do amanhã, não vamos sobreviver. O programa Oficina Cine-Escola
aproveita as salas de cinema nos horários em que elas não
estão abertas ao público. Passamos filmes selecionados pelos
professores ou pela gente. Além do material pedagógico entregue
ao final das sessões, fazemos 30, 40 minutos de discussão.
Em 2000, 35 mil alunos participaram do programa.
Educação
- Como são selecionados os filmes?
Felicia -Tudo
depende de quanto levantamos de patrocínio. Teve um ano que eu
fechei Tainá, Orfeu, Hans Staden e Rá-tim-bum - damos muita
prioridade para filme brasileiro.
Além disso,
o Grupo Estação organiza muitos festivais. De 27 de setembro
até 10 de outubro acontece o Festival do Rio BR 2002, com 400 filmes
do mundo inteiro. E, dentro desse Festival, a gente organiza a Mostra
Geração Futura, para crianças e jovens. São
oito programas, com um longa e um curta metragem, selecionados entre filmes
premiados nos principais festivais internacionais que têm segmentos
infantis. O maior barato é fazer uma criança que não
sabe ler entender um filme da Dinamarca, por exemplo. Como não
temos dinheiro para pagar a tradução, contratamos atores-dubladores,
que ficam numa mesinha, ao lado da tela, fazendo as vozes. Nos primeiros
três minutos a molecada tem aquela sensação engraçada
de escutar dinamarquês e entender tudo.
Educação
- Como esses projetos são divulgados nas escolas?
Felicia -A
essa altura do campeonato, todo mundo já sabe: "Liga para a Felicia,
no começo do semestre, que ela deve estar aprontando alguma." Nas
portas dos cinemas, sempre tem um cartaz dizendo: "Professor, se você
quiser fazer uma aula diferente, entre em contato com a gente."
Educação
- O espetáculo O Samba é Minha Nobreza foi apresentado num
cinema no centro do Rio, uma área que passa por um processo de
revitalização, como acontece com o centro de São
Paulo. Não foi arriscado levar alunos para lá?
Felicia -Usamos
esse cinema já há algum tempo, desde 1999. Quando o Hermínio
[Bello de Carvalho, idealizador e produtor do espetáculo] teve
a idéia de fazer no centro, achei o máximo. Não tivemos
de armar nenhum esquema especial de segurança, tem uma cabine de
polícia a poucos metros da entrada do cinema. Se a área
tiver bastante gente, o próprio burburinho já faz com que
os maus elementos desapareçam. Nenhuma criança sumiu, não
tivemos problemas com roubos ou assaltos, nada.
Educação
- Qual a faixa etária dos alunos que assistiram ao show?
Felicia -Variou.
Inicialmente, dividimos em três grupos, a partir de uns 10 anos.
Só que, quando realizamos um ensaio aberto para os professores,
eles disseram que é de pequeno que se torce o pepino e que a gente
tinha de levar os pequenininhos, a pré-escola. Aí, abri
espaço para eles também. As sessões com os "piuí-tic-tac"
foram as que mais lotaram. E as que me deram mais trabalho. Tive de sentar
três crianças em uma mesma cadeira - se uma fazia "xixi",
as outras não tinham onde sentar e a cadeira ainda ficava molhada
até a sessão dos adultos. Organizei espaço para crianças
com problemas motores, necessidades especiais, Síndrome de Down.
Imagine a cena: o cara mora no subúrbio, tem um filho com problemas
motores que estuda numa escola especial e ninguém convida o garoto
para lugar nenhum porque acham ele "horroroso". Atendemos essas crianças
com muito carinho, algumas vieram em cadeiras de rodas; veio Apae, vieram
os ceguinhos do Instituto Benjamin Constant, terceira idade, de tudo um
pouco. O pessoal do Benjamin Constant até já me conhece
bem, estão sempre participando das minhas maluquices. Eles tiravam
o maior sarro quando dizia que ia colocá-los nas primeiras cadeiras.
Diziam: "Nós não enxergamos nada mesmo, não sei porque
querem que a gente sente na frente."
Educação
- Que sugestões dadas pelos educadores, durante o ensaio aberto,
foram aproveitadas na versão final do show?
Felicia -Eles
sugeriram que cortássemos o bloco das brigas de marido e mulher.
Tínhamos que cortar alguma coisa, porque o espetáculo estava
muito grande, então cortamos isso. Até porque é uma
realidade incômoda para muitos alunos, essa coisa de ter pais brigando
dentro de casa. Uma senhora sugeriu que tivesse alguém com samba
no pé, mas não uma dessas "com bunda de fora". O Hermínio
entrou em alfa: "Alguém da velha guarda, hein?" Foi por isso que
ele chamou a tia Suluca, uma passista da Mangueira, de 73 anos. Quando
começava Arrasta a Sandália, ela entrava para dançar
o miudinho. As crianças deliravam, cantavam junto, foi o ponto
máximo do show.
Educação
- Como surgiu a idéia de trabalhar com música, além
de cinema?
Felicia -Eu
fico tão enlouquecida com o Festival do Rio que deixo bilhetes
na porta de casa dizendo: "Felicia, você já escovou os dentes?"
O Hermínio me ligou nessa fase, foi uma loucura. Nem lembro direito
o que eu falei para ele. Em janeiro, ele me ligou de novo: "Felicia, está
tudo pronto." Nem sabia do que ele estava falando. Tentei compatibilizar
o que ele queria com o que eu já fazia. Nunca trabalhei com música,
não tenho a menor idéia; se você me disser que isso
é um violão, eu acredito, mesmo que seja um acordeon.
Educação
- Quais as diferenças entre os espetáculos para platéias
adultas e as sessões para escolas?
Felicia - A
duração, em primeiro lugar. Queríamos que os alunos
saíssem de lá com "gostinho de quero mais". Fizemos um espetáculo
de apenas uma hora, enquanto o dos adultos tinha o dobro de duração.
O Roberto Silva [cantor considerado o Príncipe do Samba] não
entrava no espetáculo das crianças. Acho um tipo de música
mais difícil para os pequenos, como Nelson Gonçalves. Tenho
uma teoria de que temos de subir os degraus devagarinho. A molecada que
estava lá não tinha condições de entender
a grandeza de um Roberto Silva.
Educação
- Vocês receberam alguma crítica?
Felicia -Os
professores reclamaram da burocracia nas regionais e na Secretaria de
Educação para conseguir ônibus, observaram que faltou
banheiro para tantos alunos, que a divulgação foi fraca.
Muitos comentaram que em alguns depoimentos do vídeo não
havia legenda. Para todos os professores que pediram mais informações
a gente deu um jeito de passar sugestões de discos e livros. Falei
milhões de vezes: "Que porcaria de rádio você ouve?
Escuta a Rádio MEC."
Educação
- Como o professor pode estimular o gosto por música e cinema?
Felicia -Ele
tem de assistir ao que vai passar para o aluno e usar o discernimento.
Se quer levar uma classe para ver Xuxa e os Duendes, que é um filme
preguiçoso, ele tem de saber que não está fazendo
trabalho educativo. O aluno não precisa de um pateta que diga "preste
atenção nisso" ou "agora você vai ouvir a música
tal". Não precisa ser "tatibitate" para agradar às crianças.
Educação
- Mas como fazer um trabalho desses com adolescentes?
Felicia -Além
dos "piuí-tic-tac", adoro trabalhar com adolescentes rebeldes.
O show começava com um vídeo, com o Gabriel O Pensador dizendo:
"Aí, moçada, presta atenção, não vamos
ser vacilão, não vamos jogar lixo no chão." Depois,
pintava um velhote que ninguém conhecia e, em seguida, a Maria
Bethânia, dizendo que aquele cara, o Pixinguinha, era o ídolo
dela. O garoto pensava: "Pô, então vou prestar atenção
no que ela está dizendo". Mas o mérito dessa química
é todo da sensibilidade do Hermínio. Teoricamente não
sei explicar, mas a hora que o olho do menino parou de brilhar, pode desistir,
que não entra mais nada na cabeça.
Educação
- Há previsão de que o espetáculo vá para
outros Estados?
Felicia -Não
depende da gente. O espetáculo é uma produção
cara. Foi totalmente bancado pela BR, para levar no Odeon, naquela situação.
São 15 músicos, fora equipe de apoio, uma coisa que o ingresso
popular não paga. E esse projeto, por sua filosofia, é popular.
Eu acho que toda a empresa que ganha dinheiro nesse país devia
apoiar projetos com essa cara. Essa questão de devolver socialmente,
em cultura ou em educação, deveria ser ponto pacífico
de qualquer empresa. Quem pode ir ao teatro a R$ 30? Não é
o "Zé Povim". E também não acho que tem de ser de
graça sempre, porque senão fica todo mundo desconfiado de
que é porcaria. Tem de cobrar, mas preços simbólicos.
Agora, para quem não assistiu ao show, a TVE está gravando
um programa, com depoimentos das crianças, dos professores, dos
músicos. Ainda não tem previsão de quando vai ao
ar. E dá para comprar o CD com o pessoal da gravadora, a Biscoito
Fino. Nós, que trabalhamos numa linha muito focada, temos de correr
atrás de patrocínios e parcerias. Quem é que vai
querer ouvir samba? Ou assistir a um filme iraniano? Só quem já
fez a cabeça. É isso que estamos tentando fazer.