De vez em quando aparecem
palavras ou expressões que se propagam em ondas, como pragas, freqüentemente
difundidas pela TV, em geral pela Globo, a maior difusora cultural deste
belo país. São cracas lingüísticas que surgem
e desaparecem, substituídas por outras. Às vezes, quando
sintetizam bem certas situações, podem até incorporar-se
à língua como gíria mais duradoura. Mas em geral
brotam de partes menos nobres do corpo e são expelidas pela boca
sem passar pelo cérebro. São coisas como "é ruim,
hein?", "com certeza", "faz parte" e, ultimamente, "olha só". Há
várias outras. Umas "pegam" mais, outras, menos. Duram semanas
ou meses. Como a dengue. Sempre houve esses pequenos flagelos, mas eram
mais raros. Nos últimos anos, por causa da TV, tornaram-se mais
freqüentes.
A última onda
talvez tenha começado com o tal de "a nível de". Mas "a
nível de" brotou há anos na universidade para pretensamente
refinar o discurso. Coisinha feia.
"Olha só" é
uma espécie de vocativo com que apresentadores de TV passaram a
chamar a atenção para um assunto que vão introduzir
(no bom sentido). É uma espécie de aviso de parágrafo.
Já são repetidas por aí na rua para nossos ouvidos
tristes.
"Olha só,
o Ronaldiiiiiiiiiiiiiiiiinho pegou na bola."
"Olha só, se
o Uruguai perder esse jogo, vai para casa mais cedo."
"Olha só, agora
os nossos candidatos vão comer baratas."
"Olha só, vamos
chamar agora o cantor Bonito."
"Olha só, temos
novas imagens do assalto de ontem."
"Olha só, o
Lula disse que o Quércia é gente boa."
"Olha só, agora
só falta convidar o Maluf para vice."
"Olha só, chegou
a hora do nosso simpático horário político obrigatório."
"Olha só como
o Brasil melhorou: o lucro dos bancos caiu, a miséria se foi, a
violência sumiu, o desemprego se escafedeu."
"Olha só, é
um prazer receber as contas de água, energia elétrica, telefone
e gás! Privatização exemplar e limpinha é
isso."
"Olha só, aquele
eterno candidato suarento que acusam de ter dinheiro no exterior disse
que o dará todo a quem provar que ele nunca roubou."
Conversa de um candidato
com outro político:
- Olha só, tá
vendo aquele viaduto lá longe?
- Viaduto? Que viaduto?
Não vejo nada.
- Olha só, bobão,
não vê porque tá aqui no meu bolso. Por que o espanto?
Olha só, neste outro bolso tem um túnel...
Não se pode
dizer que expressões papagaiosas como "olha só" e outras
sejam manifestações de originalidade ou de inteligência.
E as pessoas repetem a tolice à exaustão. A expressão
"faz parte", por exemplo, de preferência com sotaque mineiro do
interior, foi difundida por um rapaz com 13 neurônios que participou
de um programa de TV. Ele dizia "faz parte" em qualquer situação,
porque não tinha o que dizer. Acharam bonito e repetiram e repetiram
e repetiram.
"Estão querendo
estrepar você!"
"Faz parte."
"Você não
sabe falar outra coisa?"
"Faz parte."
"Ela contou que você
tem QI de minhocuçu."
"Faz parte."
"Dizem que você
é burrinho!"
"Faiz parte."
Olha só, tudo
faz parte. É ruim, hein? Com certeza.