O Brasil é
o quinto país do mundo em tamanho, mas o primeiro em terras aproveitáveis;
tem 8,5 milhões de km2, apenas 172 milhões de habitantes,
8 mil quilômetros de costa marítima, as duas maiores reservas
de biodiversidade do planeta Terra (Amazônia e a mata atlântica),
as maiores bacias hidrográficas para a geração de
água, transporte e vida, e as maiores reservas de minério
ainda não exploradas do planeta. É um país que não
tem terremoto forte, não tem vulcão, não tem maremoto,
nem geleira, ciclone, furacão, tufão, deserto, nevasca.
Já podeis,
da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil?
Desde a Independência
formal - e lá se vão 180 anos - podemos considerar que foi
atingida a veracidade desse verso de Evaristo da Veiga? Chegou, finalmente,
a hora do maternal e sincero sorriso pátrio em uma nação
que, por enquanto, é uma das dez economicamente mais ricas deste
planeta?
Sorri ou sangra a
Pátria quando da divulgação anual do Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre
173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade
de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria
quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no
mais recente relatório de concentração da renda (Índice
de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado
nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis
países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana
e Suazilândia?
Alegra-se ou chora
a gentil mãe quando vê que, considerados apenas os alfabetizados
com mais de 15 anos de idade (85,2%), atingimos o degradante patamar de
96º lugar no estudo do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (Pnud)? E se ela fica sabendo que quanto à expectativa
de vida ficamos no posto 103º, devido, entre outras coisas, às
altas taxas de homicídios entre jovens e a uma mortalidade infantil
apavorante comparada com países com, por exemplo, a metade da nossa
renda per capita (como as Filipinas)? Alegra-se ou chora a gentil mãe
quando toma conhecimento do retrato mostrado no mais recente Censo (2000),
no qual fica às claras que um terço dos domicílios
tem na chefia um analfabeto funcional e que mais de 8 milhões de
famílias são dirigidas por alguém que nunca foi à
escola ou alfabetizou-se?
Brava gente brasileira.
Segue vitimada por inéditos níveis de desemprego; permanece
refém de um excludente e oneroso sistema público e privado
de saúde; amarga a indigência e a disparidade na previdência
social. E resiste. Prossegue em agressiva ausência de condições
gerais de habitação e saneamento; continua aguardando a
consecução efetiva de uma reforma agrária e urbana
abrangente e consistente; padece a truculência da fome e da deficiência
alimentar. E resiste.
Brava gente brasileira.
Paulo Freire dizia que "não há esperança na pura
espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura,
que vira, assim, espera vã".
Cidadania ferida,
a Pátria ainda sangra. Mas não para sempre.