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Exposição traz arte como instrumento de contestação
Lilian Fernandes
O
que representa um domingo na vida das pessoas? As diferenças
entre quem está na periferia de uma grande metrópole e
no centro urbano são mais do que claras. No entanto, há
alguma coisa que une esses dois mundos. Quem mostra isso
é o artista plástico Cristian Gonçalves, que após muita
observação criou a exposição "Domingo na Periferia".
"O que quero que as pessoas notem é que todo mundo tem
sonhos, se diverte e com pouco, muito pouco", afirma o
autor. No vídeo que acompanha o trabalho, resultante da
colaboração da TVN Produções, Gonçalves mostra sua visão
do mundo dos pobres em comparação com o mundo dos ricos.
"É impressionante como os moradores colaboraram. Bastava
eu começar a filmar e todos mostravam suas habilidades.
O sorriso está presente em todos os momentos. Depois que
realizei este vídeo é que lamento ainda mais o quanto
as pessoas que tem melhor condição financeira são descontentes
a maior parte do tempo".
A
exposição conta também com a instalação, entre outras,
de "Domingo", onde o autor cria as asas para que cada
visitante desenvolva uma composição particular. "Domingo
é o dia em que você é o que você quiser. Domingo é o dia
mais esperado, o principal. Você pode se vestir como quer,
fazer o que quer, comer o que quer", conta. "Você pode
voar para onde quiser enquanto ele existir. Mas a corrente
com a bola de ferro aos seus pés é a lembrança que a segunda
-feira está para chegar."
As obras são materializações dos poemas que Gonçalves
escreve há quase uma década, fruto do senso de observação
que foi aparecendo aos poucos, durante o longo período
que passou num centro de reabilitação de dependentes químicos.
"Me isolei das pessoas. Meu mundo era um caderno e nele
passei a criar coisas, um mundo imaginário", relata Cristian.
Nascido
em Alagoas, na cidade Passos do Camaragibe, Cristian veio
para São Paulo com apenas dois meses de idade. Conviveu
durante toda a sua infância dividindo-se entre dois bairros:
Penha e Parque Novo Mundo; Zona Leste e Zona Norte da
capital, respectivamente. 'Esses bairros me ensinaram
quase tudo que eu sei. A Penha me ensinou a jogar bola,
a usar drogas, a conhecer o amor verdadeiro. Já o Parque
me ensinou a ser humilde, manter o respeito, porque só
quem vive lá sabe que sem humildade você não vê o dia
seguinte", lembra.
Nesse caminho, Gonçalves nunca conseguiu entender o porquê
de "tanta falsidade no mundo". "Ninguém diz mais bom dia,
ninguém quer saber a dor que sente aquele homem que bebe
no bar", comenta.
Na instalação "Regressão", o artista faz sua crítica unindo
essa "falsidade social" com o período que passou como
consumidor contumaz de entorpecentes. "Quanto mais inteligente
a sociedade fica, mais ignorante é. O jovem consome a
droga e é considerado louco. Não dá para aceitar que no
século XXI as pessoas considerem um viciado um marginal,
não um doente. As pessoas só assumem que é uma doença
quando há um caso na família. No geral, fingem que não
vêem, não falam sobre o assunto, que não sentem. Não é
seu problema. A máscara é para lembrar a todos como as
usamos todo o tempo. Esquecemos que estamos nesta vida
para dar e receber carinho".
No detalhe, a embalagem pintada de vermelho é o cachimbo
usado atualmente para fumar crack. "O crack veio para
mostrar ao ser humano como odiar o próximo. Quem usa crack
mata pela droga. Quem , vende mata pela vida.", explica
Cristian.
O caminho de volta à vida começou aos 20 anos, após seis
anos consumindo todo tipo de drogas. Passou um ano e dois
meses em Mairiporã, na Comunidade Terapêutica Vitória
e quando voltou já sofreu seu primeiro baque, sua mãe
na porta indagou "Vamos ver quanto tempo você vai ficar
sem arrumar confusão".
Apesar da pouca confiança demonstrada por sua mãe, o desafio
de Gonçalves foi maior. Ele começou trabalhar na recuperação
dos viciados do bairro. Dá palestras sobre dependência
química, voltadas principalmente para adolescentes e pré
adolescentes. Além disso, ele dá palestras para os pais.
"Eu me sinto responsável pela criançada do bairro. É um
trabalho muito intenso ter que convencer as crianças que
vale muito mais permanecer na escola e não traficar. Mas
eu sei que meu trabalho dá resultado", diz. "Isso também
me empurra pra frente. Cada conquista minha é uma vitória
para eles. Eu não posso decepcioná-los".
Em meio a essa realidade, Cristian Gonçalves comemora
a exposição: "É incrível ver um sonho concretizado. Há
anos carrego as idéias dentro de mim, guardei os materiais
que fui encontrando pelas ruas e é emocionante estar aqui,
na Praça, olhando minhas obras 'em carne e osso', pela
primeira vez. Eu percebi que havia como materializar minhas
reflexões, encontrei uma maneira de fazer as pessoas pararem
um pouco essa vida caótica que levam e refletir. Acho
que consegui.
Hoje com 25 anos, concluiu o ensino médio este mês, o
qual havia abandonado em 96. Depois de se formar e se
lançar como expositor no espaço cultural da Cidade Escola
Aprendiz, Gonçalves possui novos planos e sonhos "Agora
quero fazer uma faculdade de jornalismo. E tenho fé que
vou conseguir."
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