Cidade Escola Aprendiz 30 de dezembro de 2003

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Exposição traz arte como instrumento de contestação

Lilian Fernandes

O que representa um domingo na vida das pessoas? As diferenças entre quem está na periferia de uma grande metrópole e no centro urbano são mais do que claras. No entanto, há alguma coisa que une esses dois mundos. Quem mostra isso é o artista plástico Cristian Gonçalves, que após muita observação criou a exposição "Domingo na Periferia".

"O que quero que as pessoas notem é que todo mundo tem sonhos, se diverte e com pouco, muito pouco", afirma o autor. No vídeo que acompanha o trabalho, resultante da colaboração da TVN Produções, Gonçalves mostra sua visão do mundo dos pobres em comparação com o mundo dos ricos. "É impressionante como os moradores colaboraram. Bastava eu começar a filmar e todos mostravam suas habilidades. O sorriso está presente em todos os momentos. Depois que realizei este vídeo é que lamento ainda mais o quanto as pessoas que tem melhor condição financeira são descontentes a maior parte do tempo".

A exposição conta também com a instalação, entre outras, de "Domingo", onde o autor cria as asas para que cada visitante desenvolva uma composição particular. "Domingo é o dia em que você é o que você quiser. Domingo é o dia mais esperado, o principal. Você pode se vestir como quer, fazer o que quer, comer o que quer", conta. "Você pode voar para onde quiser enquanto ele existir. Mas a corrente com a bola de ferro aos seus pés é a lembrança que a segunda -feira está para chegar."

As obras são materializações dos poemas que Gonçalves escreve há quase uma década, fruto do senso de observação que foi aparecendo aos poucos, durante o longo período que passou num centro de reabilitação de dependentes químicos. "Me isolei das pessoas. Meu mundo era um caderno e nele passei a criar coisas, um mundo imaginário", relata Cristian.

Nascido em Alagoas, na cidade Passos do Camaragibe, Cristian veio para São Paulo com apenas dois meses de idade. Conviveu durante toda a sua infância dividindo-se entre dois bairros: Penha e Parque Novo Mundo; Zona Leste e Zona Norte da capital, respectivamente. 'Esses bairros me ensinaram quase tudo que eu sei. A Penha me ensinou a jogar bola, a usar drogas, a conhecer o amor verdadeiro. Já o Parque me ensinou a ser humilde, manter o respeito, porque só quem vive lá sabe que sem humildade você não vê o dia seguinte", lembra.

Nesse caminho, Gonçalves nunca conseguiu entender o porquê de "tanta falsidade no mundo". "Ninguém diz mais bom dia, ninguém quer saber a dor que sente aquele homem que bebe no bar", comenta.

Na instalação "Regressão", o artista faz sua crítica unindo essa "falsidade social" com o período que passou como consumidor contumaz de entorpecentes. "Quanto mais inteligente a sociedade fica, mais ignorante é. O jovem consome a droga e é considerado louco. Não dá para aceitar que no século XXI as pessoas considerem um viciado um marginal, não um doente. As pessoas só assumem que é uma doença quando há um caso na família. No geral, fingem que não vêem, não falam sobre o assunto, que não sentem. Não é seu problema. A máscara é para lembrar a todos como as usamos todo o tempo. Esquecemos que estamos nesta vida para dar e receber carinho".

No detalhe, a embalagem pintada de vermelho é o cachimbo usado atualmente para fumar crack. "O crack veio para mostrar ao ser humano como odiar o próximo. Quem usa crack mata pela droga. Quem , vende mata pela vida.", explica Cristian.

O caminho de volta à vida começou aos 20 anos, após seis anos consumindo todo tipo de drogas. Passou um ano e dois meses em Mairiporã, na Comunidade Terapêutica Vitória e quando voltou já sofreu seu primeiro baque, sua mãe na porta indagou "Vamos ver quanto tempo você vai ficar sem arrumar confusão".

Apesar da pouca confiança demonstrada por sua mãe, o desafio de Gonçalves foi maior. Ele começou trabalhar na recuperação dos viciados do bairro. Dá palestras sobre dependência química, voltadas principalmente para adolescentes e pré adolescentes. Além disso, ele dá palestras para os pais. "Eu me sinto responsável pela criançada do bairro. É um trabalho muito intenso ter que convencer as crianças que vale muito mais permanecer na escola e não traficar. Mas eu sei que meu trabalho dá resultado", diz. "Isso também me empurra pra frente. Cada conquista minha é uma vitória para eles. Eu não posso decepcioná-los".

Em meio a essa realidade, Cristian Gonçalves comemora a exposição: "É incrível ver um sonho concretizado. Há anos carrego as idéias dentro de mim, guardei os materiais que fui encontrando pelas ruas e é emocionante estar aqui, na Praça, olhando minhas obras 'em carne e osso', pela primeira vez. Eu percebi que havia como materializar minhas reflexões, encontrei uma maneira de fazer as pessoas pararem um pouco essa vida caótica que levam e refletir. Acho que consegui.

Hoje com 25 anos, concluiu o ensino médio este mês, o qual havia abandonado em 96. Depois de se formar e se lançar como expositor no espaço cultural da Cidade Escola Aprendiz, Gonçalves possui novos planos e sonhos "Agora quero fazer uma faculdade de jornalismo. E tenho fé que vou conseguir."




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