Entrevista
com Arcangelo Ianelli (São
Paulo 2002)
Uma conversa no ateliê
Paula Ramos -Jornalista
Arcangelo Ianelli dispensa maiores apresentações. Com mais de 60 anos dedicados à arte, está entre os grandes artistas brasileiros de todos os tempos. Sua pintura, de refinadas e silenciosas vibrações; seus mármores, de sensuais, enxutas e sedutoras formas, são um permanente convite para a reflexão e, sobretudo, para o deleite. Reflexão sobre aspectos e urgências próprias da pintura, de sua prática e de sua necessidade na sociedade contemporânea. Deleite que nos é oferecido por meio de suas esculturas de formas sintéticas e superfícies macias, por meio das cores que emanam da tela, que vibram e que nos envolvem, proporcionando uma espécie de gozo espiritual, como bem definiu o crítico de arte Frederico Morais.
Ianelli, artista singular, pessoa singular, de memória privilegiada, de humor invejável, nos abriu sua impressionante residência-ateliê numa tarde quente de domingo. Enquanto São Paulo, então calma e até provinciana, parecia submersa numa banheira quente, ele nos contava histórias deliciosas: passagens de sua vida, situações engraçadas envolvendo grandes amigos e artistas. Nosso desejo, inconteste, era o de continuar ali, ouvindo-o permanentemente, como numa mesa de bar.
O senhor faz esculturas há mais de 26 anos. Entretanto, antes da exposição retrospectiva na Pinacoteca do Estado, o senhor nunca as havia exibido. Por quê?
Eu até já tinha recebido vários convites para expor em galerias, mas não queria. Meu desejo sempre foi o de fazer uma exposição num museu e, depois sim, numa galeria. É que eu não sou como a maioria dos artistas, que gosta de expor a cada seis meses. Eu sou o contrário: acho mais importante trabalhar.
Mesmo assim, o senhor está expondo poucas peças. São pouco mais de dez esculturas. Por que tamanha timidez?
Sempre exibo poucos trabalhos. Se eu tenho 30 pinturas, escolho só 10. Eu acho que você tem de mostrar o que você pode conseguir de melhor. Você não pode cansar o público com baboseira. Eu sou muito enjoado nisso. Não me interessa a quantidade, mas a qualidade. Há artistas que gostam de expor tudo o que fazem. Ou então montam uma exposição com uma parede repleta de quadros, quando, se tirarem dois ou três, vai melhorar tudo. Mas isso só se aprende com a experiência. Então, sempre acho que a seleção deve ser feita com muito rigor. Eu me lembro que o Fukushima tinha uma frase muito bonita sobre isso. Certa vez, o Mario Pedrosa fez uma apresentação para ele. Uma apresentação muito sensível. Aí o Mario chegou e leu o texto para o Fukushima. Era um texto longo, cheio de reflexões. Só que o Fukushima não entendia muito. Quando terminou, o Mario olhou para o Fukushima e perguntou:
Gostou, Fukushima?
E ele, que tinha um risinho meio infantil, disse:
Sabe, Mario, Fukushima gosta de palavra pouca, mas palavra bonita.
Eu acho lindo isso que o Fukushima disse. Se você analisar essa premissa, você percebe que ela deveria estar em todas as coisas da nossa vida. Não adianta fazer algo longo, expandido. O importante é a síntese. E assim também vejo a arte. Não adianta eu enfeitar um quadro; o importante é a essência. A essência é muito mais difícil, é claro, mas a gente também não quer as coisas fáceis. Então, é a mesma história: palavra pouca, mas palavra bonita.
O seu trabalho é, justamente, marcado pela síntese. Suas esculturas, inclusive, trazem os mesmos elementos presentes na pintura, como o rigor formal...
E não tem como ser diferente. Eu me lembro que o Walter Zanini dizia: Do nada não nasce nada. Quer dizer: você sempre tem uma referência anterior, que pode ser do seu próprio trabalho. Assim acontece comigo.
O que os seus amigos escultores comentam sobre essa sua produção tridimensional?
Parece que eles gostam. Mas a escultura é muito trabalhosa. A dificuldade começa no material. A gente tem que pegar os blocos lá no Espírito Santo. Aí, a gente acha que o bloco está branquinho, bonito e, quando abre, está feio, com manchas. Depois, você também necessita de um artesão para ajudar, enquanto que, na pintura, você se vira sozinho. Então, a gente depende de artesão, depende de serras para cortar..., é muito trabalhoso. Mas é o meu trabalho: enquanto eu descanso da pintura, carrego pedras. Agora, o mármore tem o seu fascínio. Ele parece frio e distante. Porém, depois de trabalhado, chega a ser sensual.
Como é o processo de confecção dessas peças?
Primeiro eu parto do desenho, até encontrar a forma. Depois, passo para maquetes em um material parecido com isopor. Aí vou para a maquete em madeira, pequena e, depois, para uma maquete também em madeira, só que maior. Somente depois de ver se deu certo é que eu vou para o mármore. É porque no mármore não tem mais jeito. Se a gente erra no mármore, tá acabado. E foi esse trabalho todo de criar as maquetes é que me possibilitou uma margem de erro pequena.
O senhor vive num lugar mágico, repleto de árvores e de vegetação. Nem parece que a gente está em São Paulo, a poucos quilômetros do centro. Por outro lado, o senhor integrou várias casas, como se fosse um grande condomínio. Qual é a história deste lugar?
Realmente, são várias casas diferentes que eu fui comprando e interligando. Umas quatro eu destruí, para ganhar mais espaço, mas a maioria eu mantive. Ao todo, são doze casas que eu comprei e fui ampliando o terreno e ampliando. Hoje, parece mesmo um condomínio. E você sabe que o curioso aqui na rua é que, quando tem uma casa para vender na quadra ou aqui por perto, tem sempre gente que fala: Oferece para o pintor que ele compra tudo. Esse é o folclore. E é muito engraçado, porque as pessoas têm uma imensa curiosidade de saber o que tem aqui dentro.
Ainda mais porque todo o terreno é fechado com muros. Então, esses tempos, eu estava chegando em casa, era um dia chuvoso, com cerração, e eu apertei o controle remoto e o portão se abriu. E tinha uns meninos sentados embaixo de uma árvore. E aí eles espicharam os olhos para dentro do portão e ouvi um deles cochichando para os outros: É a casa do Drácula! Eu acabei dando risada...
Neste conjunto de casas o senhor acabou montando uma grande mostra de sua produção, uma espécie de mostra cronológica, inclusive, que é visitada por vários alunos de primeiro e de segundo graus. Quando começou isso, e por quê?
Há cerca de três anos ou quatro anos, quando um dos livros sobre o meu trabalho foi publicado, o autor me disse: Ianelli, será que você não poderia, uma vez ou outra, receber um grupinho de crianças? Elas gostam tanto de conhecer o artista... Bem, e aí veio um grupinho, uma meia-dúzia. Depois vieram mais dez, mais vinte, depois mais trinta... E agora, toda semana, tem alunos chegando. É impressionante.
Quantas crianças já passaram por aqui?
Certamente mais de 1.500 crianças. Ah, não, muito, muito mais. E o curioso é quando o pessoal vem de fora. Há um tempo atrás, veio uma turma de Cuiabá. Eram estudantes de Artes Visuais. Eles gostaram muito e acho que acabaram espalhando para outras pessoas. E o mais engraçado é queum tempo depois uma pessoa me telefonou e disse:
O senhor, por favor, pode me dizer em quais dias o museu fica aberto?
E eu falei, assustado:
Que museu? Não existe museu! Aqui é a minha casa,... mas pode vir.
Bem, quando chegaram a São Paulo, me telefonaram de novo:
Escuta, qual é mesmo o horário do museu?
Tive de dar risada. Mas a garotada vem, gosta muito, e isso é o importante. Eles vêm com o professor. Então, primeiro a gente visita a parte de arte figurativa, onde estão os trabalhos dos anos 30, bem acadêmicos. Aí vemos as paisagens, as marinhas, as naturezas mortas. Depois vamos para a fase das pinturas geométricas. E eles vão acompanhando, muito curiosos. Até que a gente chega no final, com as grandes pinturas, as Grandes Vibrações. E aí a reação das crianças é muito engraçada. Elas entram na sala e dizem: Ooooooooohhhhhhhhh! É infalível. Acho que elas ficam impressionadas é com o tamanho. Não é por causa da pintura, mas por causa da dimensão.
Estas Grandes Vibrações lidam com muita sutileza. Para se alcançar tantas texturas, tantos matizes de cor e toda essa luz que vem de dentro, há camadas e camadas de tinta, pinceladas muito delicadas. Assim, qualquer pincelada a mais pode até mesmo comprometer tal equilíbrio.
Como o senhor sabe quando um quadro está pronto?
É uma pergunta difícil. A gente vai indo até o momento em que sente que, se continuar, estraga, satura o quadro. Então, é algo misterioso. É algo, na verdade, totalmente intuitivo. Chega aquele momento em que você sabe que, se continuar, massacra tudo. Aí a gente pára. Mas é preciso paciência e uma certa intuição.
O senhor está completando 80 anos com invejável vitalidade, trabalhando diariamente e produzindo muito. A idade assusta?
Para dizer bem a verdade, essa coisa de 80 anos eu acho uma grande baboseira. Vou te contar um fato curioso: o Paulo Mendes de Almeida, um dos grandes críticos de arte que o Brasil já teve, era muito meu amigo e, quando ele fez 80 anos, formamos um grupo de amigos que reunia artistas, críticos e jornalistas. Fomos todos para a Cantina do Brás. E ficamos comendo pizza. Lá pelas tantas, um dos que estava na mesa olhou todo bobo para o Paulo e disse:
Doutor Paulo, mas que maravilha, o senhor comemorando 80 anos. Diga o que o senhor acha, o que o senhor sente.
Ele ficou quieto, olhou para o sujeito e disse, pensativo:
É muito chato!
Ora, a gente está dobrando o cabo da boa esperança ! A gente já está no fim da reta. Então, para dizer a verdade, não gostamos muito de falar sobre isso. Sabe o que acontece comigo, quando o assunto é idade e velhice? Acontece o seguinte: eu estou trabalhando, compenetrado e, às vezes, a velhice passa lá fora. Eu a vejo passar. Só que eu estou tão ocupado, tão dedicado ao meu trabalho, que ela pensa: Vou procurar outro porque esse daí está ocupado demais. E assim eu vou me desviando dela.
O senhor tem rotina de trabalho?
O meu dia começa às 6h. Levanto e vou caminhar no Parque da Aclimação. Caminho cerca de uma hora. Aí volto, tomo banho, tomo café e lá pelas 8h30 estou no ateliê Tem uma pausa para o almoço, mas eu fico no ateliê até o final da tarde, inclusive aos sábados e aos domingos - quando ainda é melhor para se trabalhar, porque o telefone não toca. Mas eu descobri que essa coisa de trabalhar muito também não é boa, porque a gente precisa descansar um pouco. Tem dias em que o sol está lindo e eu penso que poderia estar numa praia ou em qualquer outro lugar calmo, descansando. Depois, fico chego à conclusão de que, se eu estivesse numa praia, estaria me perguntando: O que é que eu estou fazendo aqui, com tanta coisa para fazer no ateliê?' Então, é essa ansiedade, essa insatisfação que acaba nos tornando quase escravos do trabalho. Cèzanne tem uma frase bonita sobre isso: Pintar não é uma profissão, é um destino. E é isso mesmo.
E quando o senhor descobriu que o seu destino era pintar?
Olha, eu fui um garoto horrível, um garoto de rua, que andava de estilingue no bolso, quebrando vidraças... O meu maior prazer era quebrar vidraças. E aí, todo dia, aparecia gente lá em casa se queixando de mim e cobrando do meu pai as vidraças que eu destruía. Até que os meus pais me colocaram num colégio interno, o Liceu Coração de Jesus. Lá, a gente só saía três vezes por ano. O Grande Otelo também estudava neste colégio. E como havia teatrinho todas as quintas-feiras, ele se apresentava neste teatrinho só para ver como eu sou do século passado mesmo... Mas, certo dia, e isso eu devia ter uns oito anos, eu vi um garoto desenhar. E aquilo me despertou de tal maneira que eu passei a desenhar compulsivamente. Passava o tempo todo desenhando. Até que o diretor do liceu chamou o meu pai para dizer que eu só desenhava, que eu não queria saber de outra coisa, que eu não largava os lápis e os papéis, que eu ficava o tempo todo fazendo aquela bobagem de desenho e não estudava. E o meu pai, que queria que eu fosse engenheiro ou alto funcionário de uma firma, ficou apavorado. Eu me lembro que ele dizia: Mas do que vai viver esse menino? Artista não é profissão! Bem, ele até tinha razão. Naquela época não era nada fácil. Aí eu me lembro que o meu pai foi consultar um advogado, muito amigo dele. E disse:
Olha, estou desanimado com o meu filho. Ele não estuda, fica trancado fazendo desenhos.
E o advogado, com cara de grande preocupação, disse para ele:
Tira isso da cabeça de seu filho, porque artista ou acaba boêmio, ou algo bem pior...
O seu pai deve ter ficado em estado de pânico...
Pobre do meu pai. Ficou nervosíssimo. Infelizmente, ele morreu muito cedo e não pôde acompanhar o meu trabalho, mas ficou completamente apavorado. Mas, o que eu podia fazer? A gente nasce com isso, a gente tem essa tendência natural. Agora, claro que eu precisava estudar, precisava aprender, precisava me dedicar ao desenho e à pintura, porque as coisas também não caem do céu. A gente precisa trabalhar, senão o talento não se desenvolve. Mas eu sempre digo que o mais importante é o artista ter autocrítica. Isso é da maior importância. Sem autocrítica, o artista estaria perdido, pois a autocrítica leva à insatisfação, e a insatisfação leva ao um trabalho cada vez melhor.
Agora, essa de sair quebrando vidraças é interessante e surpreendente... Eu nunca imaginaria o sr. com um estilingue, fazendo bagunça...
Mas sabe que até tinha o lado bom? Porque quando
eu quebrava os vidros, e o pessoal ia reclamar para o meu pai, ele pegava
uma folha grande, de papel almaço, e dizia que eu tinha de escrever
100 vezes a frase: Não devo quebrar as vidraças dos
vizinhos. E eu tinha de
escrever, não é? Era um castigo! Aí chegou uma certa
hora em que eu passei a gostar daquilo e fui estudar letras de estilo gótico.
Fiquei tão bom na caligrafia que comecei a fazer diplomas para a
Faculdade de Medicina, com as letras todas floreadas. Então, escrevia
os diplomas e ganhava o meu dinheirinho. Depois, fiz também pastas
para o grupo escolar. Por exemplo: tinha a semana da Independência
do Brasil. Aí eu desenhava na capa palavras como Independência,
Pátria, Brasil... fazia brasões, aquela coisa toda, e vendia
por cinco cruzeiros! Deu para juntar um bom dinheiro...
O seu atelier é extremamente organizado. Como consegue? Alguém o ajuda?
Organizado? Imagina! Está tudo completamente bagunçado. Olha, de vez em quando a minha neta Simone me ajuda aqui, e também a minha filha Katia. E claro, sempre a minha mulher, a Dirce. Mas agora isso daqui está uma vergonha. Para justificar este desleixo, vou recitar uma frase do André Malraux que é mais ou menos assim: A ordem é o prazer da razão. A desordem é a delícia da imaginação. É boa essa frase, não é ? É boa para justificar a bagunça.
Mas eu tinha amigos cujos ateliês eram inimagináveis. O ateliê do Flexor, por exemplo, era uma coisa de louco, de tão limpo. E o ateliê do Ivan Serpa? Olha, parecia um laboratório. O do Flexor era um duplex. Embaixo ficava o atelier e, em cima, havia uma sala. E eu me lembro que, às vezes, os netos dele iam lá e ficavam naquela sala de cima. E aquela meninada corria para um lado, corria para o outro, arrastava móveis, fazia uma fuzarca. E aí o Flexor me olhava bem sério e, com aquele sotaque romeno carregado, dizia:
Ô, Ianelli, estesss caarrrianças, neste idaaade, deviam estar todos numa jaaaaaula.
O Flexor era engraçado... Era um dos artistas mais cultos que eu já conheci. Eu, felizmente, pude não apenas conviver com grandes artistas, como também com grandes pessoas. Lembro da época em que a gente ia pintar paisagens. E nós íamos em grupo. Íamo eu, o Rebolo e mais um outro pessoal. Levávamos os nossos cavaletes, nossas tintas e íamos para os bairros mais afastados. Acontece que a Prefeitura andava de olho nuns terrenos do subúrbio. Acho que ela queria desapropriar os terrenos. Então os caras da Prefeitura também iam pra lá com uns cavaletes. E os proprietários das chácaras, por causa dos nossos cavaletes, pensavam que nós fôssemos da Prefeitura. E aí se gerava um mal estar, porque eles nos dificultavam o trabalho. Aí, não sei se foi o Rebolo que disse assim para um desses chacareiros:
Olha, a gente só veio aqui para pintar as árvores, a paisagem, a vaca. O senhor tá vendo aquela vaca? A gente só quer pintar a vaca, só isso.
Aí o chacareiro olhou bem sério para o Rebolo, olhou a vaca e disse:
Bem, se vocês se comprometerem a lavar bem a vaca depois, eu deixo vocês pintarem. Senão, não!
Não é uma piada? Mas aconteceu! São coisas assim que acontecem... E as histórias do Volpi, então, são maravilhosas. São coisas fantásticas que a gente não faz idéia. Eu me lembro de uma vez em que Volpi fez aniversário... acho que ele fazia 80 anos. E estava no Governo do Estado o Paulo Egídio. Aí o Paulo Egídio mandou um representante do palácio ir à casa do Volpi convidá-lo para almoçar no palácio. E o funcionário foie disse:
Volpi, o governador está convidando o senhor para almoçar.
E o Volpi, naquela simplicidade, naquele sotaque inconfundível, disse:
Mah, mah por que eu que tenho que ir lá? Se quiser, ele que venha aqui.
O representante levou o recado e o governador foi almoçar na casa do Volpi. Depois do almoço, o representante disse:
Volpi, oferece uma gravura para o governador.
E o Volpi:
Ah, si, como non...
Aí foi, pegou uma gravura, virou-se para o Paulo Egídio e disse:
Escuta, qual é o seu nome?
Aí ele achou muita graça e disse:
Paulo.
Ah, Paulo. Ah, sii... Paulo Egídio! O senhor é o governador!
O Volpi era engraçado. E ele falava muito pouco. Nos aniversários, todos tinham que fazer um discurso. Certa vez, todos começaram a bater na mesa e a gritar: Fala, Volpi! Fala, Volpi! E não é que uma hora o Volpi levantou da cadeira, olhou para um lado, olhou para o outro, aquele silêncio, e disse:
Agradeço a homenagem!
E sentou. Isso não é invenção. São coisas que aconteceram... Mas tem mais histórias do Volpi. Bem, ele morreu com 90 anos. E, engraçado..., nos últimos anos, ele queria, nos aniversários, que a filha desse de presente para ele, quadros de artistas. E, num ano, ele me escolheu. Aí ela veio ao meu ateliê para escolher o quadro. E eu fiquei chateado, porque achava que o Volpi deveria escolher, mas ela estava irredutível. Bem, então combinei que ela escolheria três quadros e depois eu iria armar um rolo. Ela escolheu os três e eu fui à casa do Volpi com os quadros.
Cheguei lá e disse:
Volpi, vê se você me tira de uma fria: preciso mandar um quadro para o Paraná, para uma exposição que vai ter lá, e eu estou muito indeciso. Qual você mandaria?
Ele olhou, olhou, disse que os três eram bons, mas escolheu o azul. Daí eu falei:
Olha, Volpi, você me tirou de um aperto! Vou mandar este quadro para o Paraná. Foi ótimo você ter escolhido por mim.
E levei o quadro para casa. No dia do aniversário, é lógico, a filha dele levou o quadro, e era justamente aquele. Quando eu cheguei à noite, para a festinha, ele veio me receber e disse:
Mah você, hein, você me enganou, hein, você, com o quadro...
Ah, meu Deus do céu, que coisa engraçada! Sempre que eu me lembro, caio na risada. E o nosso querido amigo Xico Stockinger? Ele é outra criatura maravilhosa... Lembro de uma vez em que estávamos numa reunião e eu andava preocupado com ele, porque todos estavam conversando, falando alto, e ele de fora, porque ele não ouve nada, ele é surdo. Daí, eu disse a ele:
Você não se chateia de estarmos aqui e todo mundo conversando, todo mundo contando histórias e você não pode ouvir nada?
E ele, que fala alto, fala baixo, fala fino, fala grosso, fala de várias maneiras, respondeu, bem alto:
Eu não. Não se aproveita nada do que eles estão falando. 80% são bobagens.
São essas coisas que a gente guarda, não adianta.
São histórias realmente ótimas. Mas, mudando um pouco o nosso assunto: surpreendentemente, o senhor expõe pouco no Brasil, enquanto que fez várias mostras na América Latina e na Europa. O que acontece? Há uma falta de interesse das instituições brasileiras?
Não, acho que foi uma seqüência de acontecimentos. Quando eu ganhei o principal prêmio da Bienal Ibero-Americana do México, em 1978, o Museu de Arte Moderna do México me convidou para uma grande exposição lá. E eu fui. Daí surgiram outros convites: Lima, Cali, Bogotá, El Salvador... Mas já expus também em Berlim, em Londres, em Milão, em Munique, em Madri, em Washington, em várias cidades.
O senhor já percorreu o mundo e, inclusive, chegou a viver em outros países, como na Itália e na França. Como foi essa experiência?
Quando eu ganhei o Prêmio de Viagem ao Exterior, no Salão Nacional de Arte Moderna, em 1964, fui morar primeiro em Roma. E era uma maravilha aquilo, porque eu trabalhava de manhã e, à tarde, visitava museus e galerias. Fiquei dois anos e pouco assim, por várias cidades da Europa. Olha, aquela viagem foi o que me abriu os olhos. Ela me convenceu de que eu não sei nada, de que a gente não sabe coisa alguma. Foi definitiva e também muito engraçada.
Em Roma, particularmente, eu aluguei um apartamento num prédio em que a dona também morava. Bem, fazia três dias que eu estava lá e todo mundo sabia que eu era brasiliani e pintore. E aí eles chegavam, tocavam a campainha, meconvidavam para tomar café, para jantar, para comer uma pasta Era assim...os italianos são muito afetuosos, e eu acabei fazendo amizade com todo mundo do prédio. Mas eu tinha de ir embora para Paris. E aí eu decidi que iria na Páscoa. E avisei o pessoal. Daí veio o Giorgio, um italiano simpaticíssimo, e ele me disse:
Ma como? Na Páscoa... no se viaja!
E eu disse:
Mas por que, Giorgio? O que vocês fazem na Páscoa?
Ma non... na Páscoa non... De manhã vamo na missa. Depois da missa tem aquela mesa, aquelas tortas grandes, uns ovos em cima, um salame, um queijo.
Está bem, Giorgio e depois?
Bem, depois tem um aperitivo na hora do almoço, aqueles queijos.
Sei, Giorgio, e depois?
Aí comemo aquela pasta, um bom vinho...
Tá,...Giorgio, e depois disso?
Ah, depois a gente fica na mesa, conversa vem, conversa vai...e chega de noite e temo a ceia. Aí tem aquele caldo, mais a pasta...
Vem cá, Giorgio: afinal,... vocês só comem?
E ele, com aquela voz ingênua:
Mah,... e não é Páscoa?
Olha, que engraçado! Como eu vou esquecer disso?
Nunca! Mas aí eu viajei para Paris na Páscoa. E o interessante
é que a maioria dos moradores do prédio desceu para se despedir
de mim. E levaram presentes, comidas... a dona do apartamento chorou...
eles são muito
emotivos. E quem não desceu ficava na janela acenando com o braço
e gritando: Ciao, brasiliani, ciao! Foi um espetáculo.
Eu deviria ter filmado aquilo. Agora, em compensação, em Paris
eles nem sabiam que eu existia. Nem a minha vizinha, que era uma loira muito
bonita, me cumprimentava. Só o zelador ficou meu amigo, porque era
italiano.
Quanto tempo o senhor ficou em Paris?
Uns sete meses, mas eu não conheço Paris. Ela não é uma cidade que se conhece assim, fácil. Ela é cheia de sutilezas. Cada dia a gente conhece uma livraria, uma lojinha... Agora, Roma já era diferente. Tinha um amigo que dizia que Roma é aquela mulher que se entrega toda de uma vez, exuberante, sensual, enquanto Paris é aquela mulher que você tem de descobrir aos pouquinhos, porque ela vai se entregando muito vagarosamente. E, realmente, são assim as cidades. Agora, eu fiquei uns sete ou oito meses em Roma, outros sete em Paris, depois mais três meses em Milão, outros três na Espanha. E aí eu resolvi comprar uma casa-reboque e fiquei viajando de casa-reboque. Viajamos com os dois filhos, a Katia e o Rubens. Eu me lembro quando fomos visitar a Bienal de Veneza. Olha, estava tudo lotado: hotel, pousada, pensão... não tinha lugar para ninguém mais na cidade, e eu estava todo folgado, na beira do mar, com a minha casa-reboque. Uma maravilha!!! É que os campings de lá são maravi lhosos. Os da Alemanha, por exemplo, têm cabeleireiro para as mulheres, têm supermercado, têm de tudo. E eu tinha a casa-reboque e mais uma barraca. O engraçado é que, em Milão, o pessoal das outras casas-reboque te convidava para jantar com eles. Era engraçadíssimo. Foi maravilhoso aquele período. Meus filhos nunca esqueceram. A gente ficou viajando com essa casa ambulante durante um ano, mais ou menos. Éramos meio ciganos. Conheci toda a Espanha, fui para tudo que era lado. Depois, quando voltei para o Brasil, fiz ainda várias viagens, mas ultimamente não tenho viajado, só trabalhado. É que o tempo vai encurtando e daí você quer trabalhar mais. O Paulo Mendes de Almeida é que dizia isso. Outra coisa que ele dizia, bastante engraçada: Sabe, Ianelli, eu estou numa idade em que eu não posso perder tempo com gente chata. Não posso! Não tenho mais tempo para isso. Meu tempo é curto.
E você sabe que eu não sei o que é que eu tenho, pois tudo que é chato gruda em mim! É impressionante! Quando eu ia a inaugurações de exposições, por exemplo, o Paulo Mendes sempre ia comigo... E, às vezes, a gente se perdia. E quando alguém ia perguntar para ele: Você não viu o Ianelli por aí? Ele dizia: Procura um chato que ele está lá aturando! É que eu não tenho jeito de me livrar dos chatos. Eu adoraria despachar na hora, mas fico embaraçado. O mais engraçado são esses artistas que aparecem e que não têm trabalho algum, mas ficam chateando. Nós tínhamos aqui uma pintora primitiva que pintava mal que era um horror. E ela chegava para o Paulo Mendes: Doutor Paulo, o senhor precisa muito ver os meus quadros, porque o senhor poderia fazer a minha apresentação. E ele sempre tirava o corpo fora. Mas ela insistia muito. Até que um dia ele aceitou ir ao ateliê dela, mas me arrastou junto.
Bem, aí ela pegava as pinturas e as colocava num cavalete e, ao lado, um papel com uma frase. Aí ela dizia:
- Sabe, Doutor Paulo, este quadro eu pintei porque estava muito triste.
E aí ela lia a frase, que falava da tristeza dela. Aí ela pegava outro quadro, pior ainda, e dizia:
- Quando eu fiz este quadro eu estava muito alegre.
E aí lia a frase correspondente. E assim por diante. Quando terminou, ela perguntou: O que o senhor achou, Doutor Paulo? E ele não tinha coragem de dizer.
Aí ele me cutucou: Fala você, fala, Ianelli ! E eu: Mas você é o crítico. Eu não vou falar nada, fala você. Aí ele sentou numa cadeira e disse assim:
Minha filha, se você quiser externar o seu estado de espírito, faz o seguinte: compra um caderno e escreve um diário. Ou, então, quem sabe, escreve um livro com todas as suas ansiedades, com todas as suas tristezas. Mas, minha filha, na hora de pintar, faça pintura!
Acabou. Foi horrível, foi muito chato, mas acabou. Nós tínhamos também aqui em São Paulo um polonês que pintava muito mal. E toda a vez em que ele via o Paulo Mendes, chegava para ele e dizia:
Dr. Paulo, o senhorrrr prrrecisa verrr meus trrrrabalios... agorrrra mudou muito. Muuuuito boommm. O senhorrrr vai no meu atélierrr e depois faz a presentaçon...
Daí um dia o Paulo disse para ele:
Olha aqui, o senhor vai me perdoar. Eu não vou ao seu ateliê e eu não posso fazer a sua apresentação porque eu não sinto a sua pintura, e eu não posso escrever sobre algo que eu não sinto.
Bom, aí ele procurou uma professora de história da arte e a convidou para escrever. E ela topou.
Sim, querido, claro que eu faço. Só que agora, pela tabela dos críticos, é 1000 dólares.
Ele ficou transtornado.
Mas como? Isso é muito caro!
Sim, mas não sou eu, é a tabela dos críticos.
Aí ele virou para ela e disse:
Bom, porrrr esse prrrreço, a sra. coloca bastannnte elogio, hein!
O senhor ainda se surpreende com o que vê?
Depende. Com uma mulher bonita eu me surpreendo, sempre.. mas, estou apenas brincando. Olha, ultimamente, o que tem me surpreendido são as coisas ruins.
Exemplo? As montagens das exposições, que quase sempre só prejudicam as obras. Se você for analisar, hoje as exposições são muito mais cenário do que qualquer outra coisa. A obra fica no escurinho, no meio de um ambiente, e isso só a prejudica. A obra não precisa de nada disso. Quanto mais simples, melhor. Hoje, nos museus, você tem várias salas, em várias cores, em cinza, rosa, verde... eu não concordo com isso. Eu sou contra, porque a parede rouba a força do quadro e, muitas vezes, a obra não resiste. O quadro precisa de um ambiente neutro. Ele é que tem de aparecer, não a parede. Mas hoje a gente vive a época da encenação, do espetáculo, das aparências. É isso o que prevalece, infelizmente. E é isso que também me surpreende, embora negativamente.
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