Primeiros Tempos: 1937 / 40

Mário Pedrosa - Crítico de Arte

... Eis aí um raro artista jovem de nossos dias que ama o métier, o qual lhe parece necessário com um órgão manipulador num sistema orgânico sadio. Pode-se dizer que fez o curriculum acadêmico para, pouco a pouco, perdê-lo, no seu exercício, e se achar a si mesmo. E daí para partir para um crescimento interior em profundidade, e fundir, afinal no seu espiríto, os meios de expressão que na sua prática criou para si (e não os que aprendeu nas receitas acadêmicas) e a finalidade a que mira e que, misteriosamente, se vai desvendando à sua frente...

 

Fase Figurativa: 1941 / 59

Fábio Magalhães - Crítico de Arte

Quase sessenta anos atrás, em 1944, Arcangelo Ianelli pintou um extraordinário óleo retratando uma figura de perfil que, na obscuridade do ambiente, lê um livro de páginas iluminadas.
(Leitura - 1944 - óleo sobre tela - 55 x 38 cm)

Essa pintura, de qualidades indiscutíveis, realizada quando o artista iniciava sua carreira aos 22 anos, parecia apontar uma trajetória. Não se poderia imaginar através dessa pintura intimista, de tratamento psicológico, que o artista tomaria outro caminho e que iria dedicar a sua vida ao desenvolvimento de uma arte construída solidamente, desprovida de caráter subjetivo, sintética, essencial e substantiva.

 

Anos Sessenta

Frederico Moraes - Crítico de Arte

O ano de 1960 foi marcado pela realização de obras notáveis, ainda figurativas, mas extraordinariamente simplificadas. A estrutura da paisagem ainda persiste, mas foi reduzida à essencialidade. Já ocorrem pequenos desencontros ou deslocamentos de planos com a presença de diagonais instaurando um equilíbrio precário. O caminho para a geometria estava decidido.

 

Transição

Frederico Moraes - Crítico de Arte

Ianelli começa recalcando a cor com grossas camadas de negro, e encerra o período com incursões poéticas, quase oníricas. Ou, ainda, esta fase negra são águas paradas, oleosas, quase pântanos, nas quais, mesmo assim, as matérias densas e pesadas buscam se organizar, querem um invólucro.

 

Grafismo: 1967 / 70

Tadeu Chiarelli - Crítico de Arte

Interessantíssimo observar como Ianelli, com o recurso desses grafismos, acaba criando, de novo, uma pintura ao mesmo tempo linear e pictórica, resistindo, portanto, a qualquer tipo de adesão incontrolada à corrente mais em voga da época. E tais grafites não se limitam a ser apenas respostas de cunho formal à situação artística da época. Não se deve esquecer que o grafismo alude igualmente ao grafite das ruas das metrópoles, conferindo à produção que o artista elabora, nessa época tão difícil para o país, um grau de inserção política e social significativa, que passou desapercebida para a crítica apenas interessada nos aspectos formais das obras de Ianelli.

 

Balé das Formas: 1970 / 1973

José Roberto Teixeira Leite

Os primeiros quadros da década de 70 chegaram a ser definidos por alguns críticos como “realizações concretistas”, ou ao menos, como obras produzidas numa atmosfera e num espírito afins ao do concretismo. São losangos ou quadrados dispostos em diagonal, resolvidos cromaticamente em tonalidades sóbrias e que, ao criar na retina do espectador uma vibrátil sensação de atração e repulsa, aproximam-se também da Optical Art. Os títulos das pinturas dessa fase - Balé das Formas, Encontro e Desencontro, Desencontro de Losangos, etc. - bem definem as preocupações rítmicas e formais de Ianelli, naquele momento de sua carreira.

 

Fase Geométrica: 1974 / 1989

Jacob Klintowitz - Crítico de Arte

... Nesse momento, surpreendentemente, nós estamos diante de um colorista dos mais expressivos. Para Ianelli completou-se um ciclo. Da figura à abstração geométrica, da cor como um instrumental à cor como assunto. No momento em que isso ocorre, as idéias de espaço do artista também são depuradas.

Ele trabalha com retângulos e quadrados que dispõem sobre uma superfície suporte, também um retângulo. Com essa síntese geométrica, Ianelli começa a especular sobre o conceito de espaço. São planos superpostos e interpenetrados que se equilibram num momento, que por sua vez, também é um plano. O que significa que nada mais existe fora das relações espaciais, que estabelecem o seu tempo particular.

 

Fase Atual

Ianelli, Hoje e Sempre

Olívio Tavares de Araújo - Crítico de Arte

Ver a pintura contemporânea de Ianelli é descobrir um dos mais completos artistas brasileiros, pela perfeita integração entre todos os elementos que compõem a sua obra. A emoção se soma à razão para gerar uma linguagem abstrata geométrica sem receitas teóricas nem regras ortodoxas.
A precisão, que caracteriza seu construtivismo majestoso,
não elimina a matéria veludosa, a sábia liberdade das composições, nem o colorido envolvente.

Ver, junto com a pintura contemporânea de Ianelli, exemplos de sua antiga produção explica tudo isso. Percebe-se que sua evolução foi orgânica, e que ele chegou à geometria por força de acontecimentos internos de sua própria pintura. E comprova-se que ele foi sempre perfeccionista com cada minúcia da técnica, e com preservar o espaço para a intuição,
a sensibilidade e o lirismo. Daí a beleza dessas exposições de Ianelli que reúnem outras fases com o atual ponto de chegada. A obra de Ianelli se fecha como o círculo perfeito e sua integridade se prova absoluta.

 

A sensibilidade cromática de Ianelli

Juan Acha - Crítico de Arte

Desde que Arcangelo Ianelli iniciou sua vida profissional,
há quarenta anos, os pintores têm transformado suas práticas
artísticas de forma variada e substancial. Desde então, os
vimos introduzir o informalismo e o cinetismo, por exemplo.
Presenciamos, inclusive, a um escandaloso abandono da
superfície tradicional da tela, com o fim de penetrar em
manifestações novas e alheias a esses pintores : as ações
corporais e as ambientações, a arte conceitual e outros
não-objetualismos.

Também fomos testemunhas do advento da abstração cromática, como o ponto final daqueles geometristas empenhados em fundar e desenvolver uma estética da cor autárquica, neutralizando as formas e cobrindo a cor com uma mística própria de nosso tempo. Pois bem, esta estética da qual participa Ianelli tornou-se hoje a manifestação mais válida da pintura atual. Claro está : os geometrismos existiram antes. No entanto, com motivos muito diferentes.

O nosso propósito é de somente dar uma certa introdução
teórica e também histórica à obra de Ianelli. Fazemo-lo como
uma merecida homenagem à qualidade artística de suas obras.

A abstração cromática de Ianelli dista muito de ser uma arte
nova. Constitui uma derivação radical da pintura moderna e
seus fins são predominantemente lingüísticos, como logo
veremos. Quem conhece a pintura de Ianelli sabe que, com suas obras de 1983 a 1984, ele se desliga dos últimos vestígios da forma. Leva assim às últimas conseqüências
a liberação da cor, em que vinha se empenhando há anos.
Não esqueçamos : a cor pura é a única saída honrosa para
um pintor obstinado em conservar a superfície tradicional da tela e ansioso por enfocá-la e solucioná-la com um espírito atualizado e conhecedor da realidade artística de nosso tempo. Ianelli se liga, enfim, ao mais específico da pintura : a cor.

Não vamos nos deter no conhecido predomínio das formas
em nossa percepção visual do mundo nem nas dificuldades humanas de dar significado às cores puras e interrelacionadas. Tampouco insistiremos na dialética forma/cor : nem como um imperativo inevitável nem como forçosamente separável. Sempre houve disputa entre os artistas partidários da cor e os amigos das formas e,
com elas, da linha e dos volumes virtuais. Hoje, inclusive,
as formas tendem a desaparecer na pintura abstrata ante
a distensão da cor.

A mística atual da cor consiste em ver espiritualidades em
sua beleza e em sua expressividade. E esta tarefa corresponde
ao receptor. A maioria dos admiradores e também dos artistas,
infelizmente, objetiva o consumo humano da arte, na percepção
da beleza ou da percepção, tendo um prazer como resultado
final.

Se algo dissemos sobre o processo da percepção da obra
de Ianelli, foi em nome de um receptor imaginário que combine o ideal de todo o tempo com o mais provável do nosso.

A cor, agora, é uma questão de misturar pigmentos ou
de decompor a luz eletronicamente e poder assim inventar
colorações cujos efeitos nunca deixarão de repercutir em
nossos modos de perceber a realidade visível.
A independência não necessariamente chega à alienação; menos ainda à autarquia da cor, o elemento mais irracional
e instável das artes, por ser um fenômeno perceptivo muito relativo ou, o que é o mesmo, dependente de múltiplos fatores.

Um destes pintores empenhados em isolar a cor e dotá-la
de auto-suficiência visual e sensitiva é Arcangelo Ianelli com
sua conhecida evolução : vem de uma figuração austera e
colorista à abstração geométrica de fins cromáticos. Suas
obras chegaram à máxima sensibilidade formal e cromática,
para assim atingir a maior generosidade em suas cores.
Atrás ficaram as retas e as superfícies elementares, diante
de cuja força e beleza se detém nosso olhar e sensibilidade
imaginando seus mistérios. As superfícies cresceram e suas
amplas zonas cromáticas nos envolvem; em outras palavras,
movem-se como uma névoa matizada cujas profundidades podemos explorar.

Ianelli nos descreve as angústias da solidão de uma cor,
apenas ambientado por fragmentos de obras muito semelhantes; a solidão de um protagonista deste espelho
que é a pintura, por refletir tanto as realidades como os sonhos. Na profundidade do quase monocromismo de Ianelli, detectamos a presença de uma sensibilidade que considera sua expressividade e que dosifica a beleza, porque não busca
catarse (ou o expressionismo) e sua beleza não é questão
de identificar, senão de ser elaborada mais adiante de suas
expressividades. Suas brumas de cor desafiam nosso sentido de exploração e não o de reconhecimento.

Como a mais notória da característica da simplicidade
cromática de Ianelli, muito sensível à iluminação e à visão
do receptor, nos vem à tona sua grande carga de sutilezas.
Isto implica em uma regressão ? Não cremos : ao contrário.
Assim como sua simplicidade segue o princípio “menos é mais” do construtivismo ou modernismo, sua profusão de
sutis pormenores cromáticos ou visuais é ultra-modernista.
Ao modernismo pertence a leitura sumária e rápida das
elementaridades da mensagem estética e artística ­
geométricas ou gestuais, o que é o mesmo neste caso ­ não
importa se abundam as elementaridades, tal como sucede com a transvanguarda, cuja agressividade multicolor e gestual é neo- conservadora, ainda que se auto-denomine pós-modernista. Não é em vão que hoje se mantém enraizada
às artes a crença de que o ideal destas é a expressividade
e não a criação ou a invenção de mensagens.

Antes Ianelli ia de uma cor a outra, hoje vai de uma variante
a outra de uma mesma cor. Em suas obras recentes, vemos uma cor principal com notas ambientais (sem contrastes)
e vibrações monocórdias, que é indefinível por carecer de
singularismos e porque sua riqueza de transparências oscila
entre a beleza e a expressividade.

A sentimentalidade

A sensibilidade traduz em sentimentos as sensações que
alimentam os sentidos. É difícil separar os sentimentos
afetivos dos estéticos. Sobretudo porque toda atividade
humana termina em agrado ou desagrado, seja ele intelectual
ou estético, afetivo ou corporal. Em concreto, a simplicidade
e as sutilezas de Ianelli nos oferecem possibilidades de
estetização e portanto podemos acrescentar a elas beleza
ou expressividade, novidade ou monumentalidade.
Não à toa sentimos uma angustiante oscilação entre beleza
e expressividade, novidade e monumentalidade.

Ianelli não escolhe uma cor bela, e reconhecida como tal,
para reproduzi-la : ele prepara um sombrio plano cromático
que em alguns fragmentos se tornam azulados ou iluminam
e em outros se tornam avermelhados ou escurecem.
Tais pormenores podem resultar belos para aqueles que justifiquem culturalmente seu agrado. Mas suas interpretações são várias, assim o artista acentua aqui o plano pragmático, isto é, dá ênfase nos efeitos de suas obras sobre o receptor. Logo, mediante o animismo, o antropomorfismo ou a projeção
sentimental, como recursos psicológicos da percepção, somos
capazes de atribuir vida afetiva ao inanimado da cor. Assim,
vemos ou imaginamos pulsações de dramaticidade ou lirismo,
tristeza ou alegria, frieza ou aconchego. Neste terreno, por
exemplo, é onde brotou o dramatismo expressionista de um Van Gogh. Em suma, as motivações culturais podem converter o afetivo em estético.

A novidade surgiu ao menos como categoria estética fundamental por haver sido confundida com valor. No entanto,
sempre haverá pessoas que sentem prazer diante de novidades que demandem atividades corretivo-renovadoras
tal como este quase monocromismo de Ianelli, que aspira
à auto-suficiência estética e que ostenta singularidades em suas nuances e valorações.

Por último, cabe perceber monumentalidade ou o sublime
na cor. Nossa imaginação pode fazer da solidão de sua cor
simples e profunda, ao mesmo tempo, uma espécie de ícone de uma heráldica ou bem o sinal enigmático de uma simplicidade profunda e imponente. Isto sucede quando observamos à distância a totalidade de cada tela e desaparecem os detalhes.

Em um estudo crítico como este somente cabe assinalar
os elementos de juízo e os possíveis rumos para que cada
receptor decida qual categoria eleger, para interpretá-la e
valorizá-la segundo suas experiências e orientações
axiológicas e teleológicas pessoais.

A percepção da cor

Depois destas considerações gerais que estabelecem o sentido cromático que devemos dar às obras atuais de
Ianelli, passemos agora à percepção da cor livre, por parte
do receptor, que é onde se concretiza a pintura de Ianelli.
O admirador de arte não sabe, normalmente, o quê ver na
cor e como fazê-lo (a sensorialidade), nem como senti-lo
(a sensibilidade) , tampouco como pensá-lo ou idealizá-lo
(a razão). Percebe-a, desde logo, mas a identifica com o seu
nome ou com uma realidade natural quando se encontra matizada e não é reconhecível. Quase sempre se lhe escapam as minúcias.

A sensorialidade

Comecemos pelas operações sensoriais que a nós, receptores, nos exige a cor de Ianelli, cujas sensações
podem ser isoladas livremente, não obstante estarem ligadas de forma íntima a sentimentos e pensamentos. Em toda a percepção, colocamos em atividade conjunta nossos sentidos, sensibilidade e mente; com maior ênfase na artística ou na estética. Nossa percepção normal ou de reconhecimento não desperta atenção para o sensorial nem para o sensitivo das
coisas, pois queremos chegar o quanto antes ao inteligível ou a seu significado estabelecido.

No entanto, a artística nos detém, por definição, no sensorial
e no sensitivo, para imaginar; ou interpretar, se preferimos. Depois de tudo, a obra de arte vale pelo que quer dizer e não pelo que diz. Seus sentidos são figurados, ou seja, translingüísticos ou até trans-semióticos.

Diante de cada uma das pinturas recentes de Ianelli, nosso
olhar se sente obrigado a vagar no plano cromático. A razão
é simples : não encontramos vinculações com a realidade visível e tampouco vemos uma organização de vários elementos que nos suscite associações ou nos faça recordar experiências vividas. Em termos semióticos, significa que Ianelli debilita ou quase anula o plano semântico e o plano sintático de suas obras, por isso não temos que compreender, mas sim descobrir muitos pormenores sensoriais para imaginar suas motivações ou idealizar seus atrativos e justificações. O sensorial é indispensável e portanto o receptor deve saber o quê ver na obra de arte. Nossa sensibilidade
e mente exigem de nossa vista incrementar sua força de penetração e ampliar seus alcances, para provocar-lhes informações sobre os detalhes e variantes das vibrações
e transparências cromáticas.

Sentimos, então, uma sensação de agrado ou desagrado
que não é possível de traduzir em sentimentos estéticos elementares de harmonia ou sensualidade; denominamo-lhes elementares por estarem muito próximos do agrado ou desagrado biológico. Recordemos que muitas tendências como o texturalismo, cinetismo, luminismo e monocromismo exaltaram o sensorial dos atributos elementares da matéria, com o objetivo de ativar nossa percepção, hoje em perigo de passividade ou paralisia.

As categorias estéticas fundamentais

Também será de utilidade estética, artística e temática se
nossa mente conhecer as diferentes categorias estéticas
fundamentais e as puder diferenciar entre si. Principiemos
pela mais conhecida : a beleza que, sem dúvida, não é a única
nem a mais importante, como quis impor a cultura ocidental
oficial, depois de postular que todo prazer é belo e provém
da beleza. Registramos beleza na cor de Ianelli, mas não
para que a reconheçamos por ser já conhecida, senão para
ir descobrindo-a por ser desconhecida. A beleza que Ianelli
obtém não é a fundamental ou pura mas complexa e, vale dizer,
conjugada com outras categorias estéticas.

A fealdade está sempre ausente nas pinturas de Ianelli;
o mesmo ocorre com a comicidade e a trivialidade; esta última,
sinônimo de realismo. A dramaticidade costuma brotar em
algumas de suas cores e opera ligada à beleza, para
convergir em angustioso lirismo. Às vezes se vincula também
à grandiosidade (ou o sublime) de uma cor dominante, enquanto que quase sempre vem fundida com a novidade, outra das categorias estéticas e básicas; não importa se veio menos pela neo-mania dos vanguardistas : subsistirá sempre e seu valor dependerá de seu vínculo ético ou social.
Os conhecimentos da cor pura são ainda incipientes como para aludir à tipicidade, outra categoria estética, quando um vermelho, por exemplo, sintetiza ou tipifica a vermelhidão,
isto é, o comum a todos os vermelhos.

O mais importante na percepção estética e na crítica de
arte é saber diferenciar entre as categorias e seus valores
estéticos. A dramaticidade, o sublime e a beleza, por exemplo, podem estar presentes em uma obra de arte e, no entanto,
não serem valores estéticos : constituem elementos,
componentes ou categorias e, inclusive, valores sociais,
por serem aceitos pela coletividade. Para que sejam valores
estéticos ou artísticos devem vir acrescidos de inovações.

As propriedades da cor

Para perceber apropriadamente as cargas estéticas, é
necessário que a razão ponha ordem nos sentimentos e nas
sensações e possa conhecer seus respectivos efeitos, para o
que o receptor deve estar atento `as diferentes propriedades
da cor. Como toda linguagem, a cor tem a capacidade de servir
de canal de quaisquer informações, entre elas a artística, de
operar como meio de produção artística e de atuar como
produto artístico e estético. Como linguagem, a cor também
pode ter várias propriedades : a mimética que, como o nome
indica, imita ou simula realidades visíveis, ora estáveis,
como o material das coisas, e como fazem ainda os
acadêmicos, ora as instáveis como as luzes da paisagem, como faziam os impressionistas. É quando a cor é utilizada para produzir na superfície pictórica um jogo de luzes ou de
movimentos virtuais. Renuncia assim aos efeitos específicos
de seus próprio pigmento. A cor se acha pois esperando como
um meio e não como um fim : vemos luzes e movimentos
ilusórios, mas não a cor ela mesma.

O efeito ornamental da cor, por sua vez, consiste em ostentar
a beleza de seus matizes e valorações, seja mediante cores
isoladas ou através de um conjunto delas. Encontramos este
efeito nos missais medievais. A pintura de Ianelli o tem
assim mesmo, porém, sem ser decorativo : em essência, chega a ser sensual em algumas obras. O alcance representativo ou emblemático da cor, nós o temos quando este simboliza uma realidade invisível, tal como uma idéia qualquer.

Foi freqüente o uso emblemático das cores nas vestimentas dos sacerdotes para os ritos católicos; freqüência que se
registra até hoje em bandeiras e emblemas. Não terminam aqui as propriedades da cor : existe a dimensão expressiva
iniciada por Van Gogh, quando ele optou por “expressar as
paixões humanas” em um amarelo. Na pintura de Ianelli,
encontramo-la na expressividade de estados de espírito
sossegados. O inverso dos expressionistas que avivam
a cor sem temer as desatenções sincopadas. A propriedade heurística ou inventiva da cor, por último, se dá obviamente
em toda a invenção de matizes ou pigmentos; propriedade acentuada por Ianelli em suas pinturas, assim como por todo verdadeiro colorista. O verdadeiro colorista corre o risco de harmonizar cores que “se encontram pela primeira vez” ou que são inventadas.

O conhecimento de todas as propriedades da cor redundará
sempre em maiores possibilidades estéticas e artísticas,
as que enriquecem a sensibilidade humana. Em síntese,
a mimética e a ornamental não são as únicas nem as mais importantes propriedades da cor, na produção e consumo estéticos, artísticos e temáticos.

As operações mentais

A mente é o único mecanismo da percepção humana capaz
de penetrar com sentido lógico e crítico nesse obscuro poço
de sensações que em nós vai formando os sentidos e naquele outro poço de sentimentos que constrói a sensibilidade.
Uma vez dentro, pode-se identificar com idoneidade quais
são, na obra de arte, os sentimentos estéticos, artísticos ou temáticos por natureza. Sua competência é maior e nos diz quais categorias (ou naturezas) têm realmente valor, posto que uma coisa é registrar a presença de elementos artísticos ou
estéticos e outra, muito diferente, é que de fato sejam
valores artísticos e estéticos.

Ianelli une e separa cores com tal delicadeza que sua obra
nos desafia a separá-las, depois de percebê-las e de
diferenciar entre si seus matizes e suas valorações.
Exige-nos, enfim, imaginação. Mas o faz mediante essa variedade de mística ou religiosidade que nos suscita a personalidade de seu vermelho. Se percebemos beleza,
esta será singular. Para sermos precisos, o vermelho vibrante opera como um espelho e nele refletimos nossos sentimentos; ou melhor : nossa capacidade de traduzir as cores em sentimentos estéticos e em idealizações. Como temos a capacidade psíquica de ver no inanimado sentimentos humanos, somos capazes de perceber a tela de Ianelli como taciturna, cujo laconismo cromático nos pressiona.

É assim como o valor artístico da obra de Ianelli se constituiu pelo fato de ir mais além do modernismo, para acentuar o plano pragmático e assim subverter uma das idéias
fundamentais de arte, tão ligada aos planos semântico e
sintático como vitais. Propriamente, ele participa em
inovações artísticas de acordo com as exigências de nosso
tempo. A taxação desse valor demanda conhecimentos de
história de arte e requer familiarização no manejo dos
conceitos atuais de arte. Por outra parte, contribui com
novos modos de tratar a cor livre, para dotá-la de originais
intensidades estéticas. Sua gama pessoal é facilmente
identificável. Para perceber essas cargas estéticas, basta-
nos abrir nossa sensibilidade e decidir se gostamos ou não.

Muito tempo os abstracionistas reclamaram como um mérito seu o ativar ? com suas obras ? a capacidade sensorial, sensitiva e a de significar (ou mental) do receptor. Com razão, pois a obra de arte constitui uma gama de exercícios ou
enriquecimento humano, uma vez que ensina a perceber,
sentir e pensar. Causa prazer, sem dúvida. Mas o prazer também ensina, como os brinquedos, vale dizer, educa.
O oligocromismo e o quase monocromismo de Ianelli nos
transforma e enriquece, se aceitamos o desafio de perceber
seus pormenores cromáticos e os sentimos, pensamos e
interpretamos. Quanto maior for a interpretação suscitada
pela carga estética de sua cor, mais positiva será a nossa
valoração da obra que a contém.



 

 

 

 

 



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