A
sensibilidade cromática de Ianelli.
Juan Acha - Crítico
de Arte
Desde que Arcangelo Ianelli iniciou sua vida profissional,
há quarenta anos, os pintores têm transformado suas práticas
artísticas de forma variada e substancial. Desde então, os
vimos introduzir o informalismo e o cinetismo, por exemplo.
Presenciamos, inclusive, a um escandaloso abandono da
superfície tradicional da tela, com o fim de penetrar em
manifestações novas e alheias a esses pintores : as ações
corporais e as ambientações, a arte conceitual e outros
não-objetualismos.
Também fomos testemunhas do advento da abstração cromática, como o ponto final daqueles geometristas empenhados em fundar e desenvolver uma estética da cor autárquica, neutralizando as formas e cobrindo a cor com uma mística própria de nosso tempo. Pois bem, esta estética da qual participa Ianelli tornou-se hoje a manifestação mais válida da pintura atual. Claro está : os geometrismos existiram antes. No entanto, com motivos muito diferentes.
O nosso propósito é de somente dar uma
certa introdução
teórica e também histórica à obra de Ianelli.
Fazemo-lo como
uma merecida homenagem à qualidade artística de suas obras.
abstração cromática de Ianelli
dista muito de ser uma arte
nova. Constitui uma derivação radical da pintura moderna e
seus fins são predominantemente lingüísticos, como logo
veremos. Quem conhece a pintura de Ianelli sabe que, com suas obras de 1983
a 1984, ele se desliga dos últimos vestígios da forma. Leva
assim às últimas conseqüências
a liberação da cor, em que vinha se empenhando há anos.
Não esqueçamos : a cor pura é a única saída
honrosa para
um pintor obstinado em conservar a superfície tradicional da tela
e ansioso por enfocá-la e solucioná-la com um espírito
atualizado e conhecedor da realidade artística de nosso tempo. Ianelli
se liga, enfim, ao mais específico da pintura : a cor.
Não vamos nos deter no conhecido predomínio
das formas
em nossa percepção visual do mundo nem nas dificuldades humanas
de dar significado às cores puras e interrelacionadas. Tampouco insistiremos
na dialética forma/cor : nem como um imperativo inevitável
nem como forçosamente separável. Sempre houve disputa entre
os artistas partidários da cor e os amigos das formas e,
com elas, da linha e dos volumes virtuais. Hoje, inclusive,
as formas tendem a desaparecer na pintura abstrata ante
a distensão da cor.
A mística atual da cor consiste em ver espiritualidades
em
sua beleza e em sua expressividade. E esta tarefa corresponde
ao receptor. A maioria dos admiradores e também dos artistas,
infelizmente, objetiva o consumo humano da arte, na percepção
da beleza ou da percepção, tendo um prazer como resultado
final.
Se algo dissemos sobre o processo da percepção
da obra
de Ianelli, foi em nome de um receptor imaginário que combine o ideal
de todo o tempo com o mais provável do nosso.
A cor, agora, é uma questão de misturar
pigmentos ou
de decompor a luz eletronicamente e poder assim inventar
colorações cujos efeitos nunca deixarão de repercutir
em
nossos modos de perceber a realidade visível.
A independência não necessariamente chega à alienação;
menos ainda à autarquia da cor, o elemento mais irracional
e instável das artes, por ser um fenômeno perceptivo muito
relativo ou, o que é o mesmo, dependente de múltiplos fatores.
Um destes pintores empenhados em isolar a cor e dotá-la
de auto-suficiência visual e sensitiva é Arcangelo Ianelli
com
sua conhecida evolução : vem de uma figuração
austera e
colorista à abstração geométrica de fins cromáticos.
Suas
obras chegaram à máxima sensibilidade formal e cromática,
para assim atingir a maior generosidade em suas cores.
Atrás ficaram as retas e as superfícies elementares, diante
de cuja força e beleza se detém nosso olhar e sensibilidade
imaginando seus mistérios. As superfícies cresceram e suas
amplas zonas cromáticas nos envolvem; em outras palavras,
movem-se como uma névoa matizada cujas profundidades podemos explorar.
Ianelli nos descreve as angústias da solidão
de uma cor,
apenas ambientado por fragmentos de obras muito semelhantes; a solidão
de um protagonista deste espelho
que é a pintura, por refletir tanto as realidades como os sonhos.
Na profundidade do quase monocromismo de Ianelli, detectamos a presença
de uma sensibilidade que considera sua expressividade e que dosifica a beleza,
porque não busca
catarse (ou o expressionismo) e sua beleza não é questão
de identificar, senão de ser elaborada mais adiante de suas
expressividades. Suas brumas de cor desafiam nosso sentido de exploração
e não o de reconhecimento.
Como a mais notória da característica
da simplicidade
cromática de Ianelli, muito sensível à iluminação
e à visão
do receptor, nos vem à tona sua grande carga de sutilezas.
Isto implica em uma regressão ? Não cremos : ao contrário.
Assim como sua simplicidade segue o princípio menos é
mais do construtivismo ou modernismo, sua profusão de
sutis pormenores cromáticos ou visuais é ultra-modernista.
Ao modernismo pertence a leitura sumária e rápida das
elementaridades da mensagem estética e artística
geométricas ou gestuais, o que é o mesmo neste caso
não
importa se abundam as elementaridades, tal como sucede com a transvanguarda,
cuja agressividade multicolor e gestual é neo- conservadora, ainda
que se auto-denomine pós-modernista. Não é em vão
que hoje se mantém enraizada
às artes a crença de que o ideal destas é a expressividade
e não a criação ou a invenção de mensagens.
Antes Ianelli ia de uma cor a outra, hoje vai de uma
variante
a outra de uma mesma cor. Em suas obras recentes, vemos uma cor principal
com notas ambientais (sem contrastes)
e vibrações monocórdias, que é indefinível
por carecer de
singularismos e porque sua riqueza de transparências oscila
entre a beleza e a expressividade.
A sentimentalidade
A sensibilidade traduz em sentimentos as sensações
que
alimentam os sentidos. É difícil separar os sentimentos
afetivos dos estéticos. Sobretudo porque toda atividade
humana termina em agrado ou desagrado, seja ele intelectual
ou estético, afetivo ou corporal. Em concreto, a simplicidade
e as sutilezas de Ianelli nos oferecem possibilidades de
estetização e portanto podemos acrescentar a elas beleza
ou expressividade, novidade ou monumentalidade.
Não à toa sentimos uma angustiante oscilação
entre beleza
e expressividade, novidade e monumentalidade.
Ianelli não escolhe uma cor bela, e reconhecida
como tal,
para reproduzi-la : ele prepara um sombrio plano cromático
que em alguns fragmentos se tornam azulados ou iluminam
e em outros se tornam avermelhados ou escurecem.
Tais pormenores podem resultar belos para aqueles que justifiquem culturalmente
seu agrado. Mas suas interpretações são várias,
assim o artista acentua aqui o plano pragmático, isto é, dá
ênfase nos efeitos de suas obras sobre o receptor. Logo, mediante
o animismo, o antropomorfismo ou a projeção
sentimental, como recursos psicológicos da percepção,
somos
capazes de atribuir vida afetiva ao inanimado da cor. Assim,
vemos ou imaginamos pulsações de dramaticidade ou lirismo,
tristeza ou alegria, frieza ou aconchego. Neste terreno, por
exemplo, é onde brotou o dramatismo expressionista de um Van Gogh.
Em suma, as motivações culturais podem converter o afetivo
em estético.
A novidade surgiu ao menos como categoria estética
fundamental por haver sido confundida com valor. No entanto,
sempre haverá pessoas que sentem prazer diante de novidades que demandem
atividades corretivo-renovadoras
tal como este quase monocromismo de Ianelli, que aspira
à auto-suficiência estética e que ostenta singularidades
em suas nuances e valorações.
Por último, cabe perceber monumentalidade
ou o sublime
na cor. Nossa imaginação pode fazer da solidão de sua
cor
simples e profunda, ao mesmo tempo, uma espécie de ícone de
uma heráldica ou bem o sinal enigmático de uma simplicidade
profunda e imponente. Isto sucede quando observamos à distância
a totalidade de cada tela e desaparecem os detalhes.
Em um estudo crítico como este somente
cabe assinalar
os elementos de juízo e os possíveis rumos para que cada
receptor decida qual categoria eleger, para interpretá-la e
valorizá-la segundo suas experiências e orientações
axiológicas e teleológicas pessoais.
A percepção da cor
Depois destas considerações gerais que
estabelecem o sentido cromático que devemos dar às obras atuais
de
Ianelli, passemos agora à percepção da cor livre, por
parte
do receptor, que é onde se concretiza a pintura de Ianelli.
O admirador de arte não sabe, normalmente, o quê ver na
cor e como fazê-lo (a sensorialidade), nem como senti-lo
(a sensibilidade) , tampouco como pensá-lo ou idealizá-lo
(a razão). Percebe-a, desde logo, mas a identifica com o seu
nome ou com uma realidade natural quando se encontra matizada e não
é reconhecível. Quase sempre se lhe escapam as minúcias.
A sensorialidade
Comecemos pelas operações sensoriais
que a nós, receptores, nos exige a cor de Ianelli, cujas sensações
podem ser isoladas livremente, não obstante estarem ligadas de forma
íntima a sentimentos e pensamentos. Em toda a percepção,
colocamos em atividade conjunta nossos sentidos, sensibilidade e mente;
com maior ênfase na artística ou na estética. Nossa
percepção normal ou de reconhecimento não desperta
atenção para o sensorial nem para o sensitivo das
coisas, pois queremos chegar o quanto antes ao inteligível ou a seu
significado estabelecido.
No entanto, a artística nos detém,
por definição, no sensorial
e no sensitivo, para imaginar; ou interpretar, se preferimos. Depois de
tudo, a obra de arte vale pelo que quer dizer e não pelo que diz.
Seus sentidos são figurados, ou seja, translingüísticos
ou até trans-semióticos.
Diante de cada uma das pinturas recentes de
Ianelli, nosso
olhar se sente obrigado a vagar no plano cromático. A razão
é simples : não encontramos vinculações com
a realidade visível e tampouco vemos uma organização
de vários elementos que nos suscite associações ou
nos faça recordar experiências vividas. Em termos semióticos,
significa que Ianelli debilita ou quase anula o plano semântico e
o plano sintático de suas obras, por isso não temos que compreender,
mas sim descobrir muitos pormenores sensoriais para imaginar suas motivações
ou idealizar seus atrativos e justificações. O sensorial é
indispensável e portanto o receptor deve saber o quê ver na
obra de arte. Nossa sensibilidade
e mente exigem de nossa vista incrementar sua força de penetração
e ampliar seus alcances, para provocar-lhes informações sobre
os detalhes e variantes das vibrações
e transparências cromáticas.
Sentimos, então, uma sensação
de agrado ou desagrado
que não é possível de traduzir em sentimentos estéticos
elementares de harmonia ou sensualidade; denominamo-lhes elementares por
estarem muito próximos do agrado ou desagrado biológico. Recordemos
que muitas tendências como o texturalismo, cinetismo, luminismo e
monocromismo exaltaram o sensorial dos atributos elementares da matéria,
com o objetivo de ativar nossa percepção, hoje em perigo de
passividade ou paralisia.
As categorias estéticas fundamentais
Também será de utilidade estética,
artística e temática se
nossa mente conhecer as diferentes categorias estéticas
fundamentais e as puder diferenciar entre si. Principiemos
pela mais conhecida : a beleza que, sem dúvida, não é
a única
nem a mais importante, como quis impor a cultura ocidental
oficial, depois de postular que todo prazer é belo e provém
da beleza. Registramos beleza na cor de Ianelli, mas não
para que a reconheçamos por ser já conhecida, senão
para
ir descobrindo-a por ser desconhecida. A beleza que Ianelli
obtém não é a fundamental ou pura mas complexa e, vale
dizer,
conjugada com outras categorias estéticas.
A fealdade está sempre ausente nas pinturas
de Ianelli;
o mesmo ocorre com a comicidade e a trivialidade; esta última,
sinônimo de realismo. A dramaticidade costuma brotar em
algumas de suas cores e opera ligada à beleza, para
convergir em angustioso lirismo. Às vezes se vincula também
à grandiosidade (ou o sublime) de uma cor dominante, enquanto que
quase sempre vem fundida com a novidade, outra das categorias estéticas
e básicas; não importa se veio menos pela neo-mania dos vanguardistas
: subsistirá sempre e seu valor dependerá de seu vínculo
ético ou social.
Os conhecimentos da cor pura são ainda incipientes como para aludir
à tipicidade, outra categoria estética, quando um vermelho,
por exemplo, sintetiza ou tipifica a vermelhidão,
isto é, o comum a todos os vermelhos.
O mais importante na percepção estética
e na crítica de
arte é saber diferenciar entre as categorias e seus valores
estéticos. A dramaticidade, o sublime e a beleza, por exemplo, podem
estar presentes em uma obra de arte e, no entanto,
não serem valores estéticos : constituem elementos,
componentes ou categorias e, inclusive, valores sociais,
por serem aceitos pela coletividade. Para que sejam valores
estéticos ou artísticos devem vir acrescidos de inovações.
As propriedades da cor
Para perceber apropriadamente as cargas estéticas,
é
necessário que a razão ponha ordem nos sentimentos e nas
sensações e possa conhecer seus respectivos efeitos, para
o
que o receptor deve estar atento `as diferentes propriedades
da cor. Como toda linguagem, a cor tem a capacidade de servir
de canal de quaisquer informações, entre elas a artística,
de
operar como meio de produção artística e de atuar como
produto artístico e estético. Como linguagem, a cor também
pode ter várias propriedades : a mimética que, como o nome
indica, imita ou simula realidades visíveis, ora estáveis,
como o material das coisas, e como fazem ainda os
acadêmicos, ora as instáveis como as luzes da paisagem, como
faziam os impressionistas. É quando a cor é utilizada para
produzir na superfície pictórica um jogo de luzes ou de
movimentos virtuais. Renuncia assim aos efeitos específicos
de seus próprio pigmento. A cor se acha pois esperando como
um meio e não como um fim : vemos luzes e movimentos
ilusórios, mas não a cor ela mesma.
O efeito ornamental da cor, por sua vez, consiste
em ostentar
a beleza de seus matizes e valorações, seja mediante cores
isoladas ou através de um conjunto delas. Encontramos este
efeito nos missais medievais. A pintura de Ianelli o tem
assim mesmo, porém, sem ser decorativo : em essência, chega
a ser sensual em algumas obras. O alcance representativo ou emblemático
da cor, nós o temos quando este simboliza uma realidade invisível,
tal como uma idéia qualquer.
Foi freqüente o uso emblemático
das cores nas vestimentas dos sacerdotes para os ritos católicos;
freqüência que se
registra até hoje em bandeiras e emblemas. Não terminam aqui
as propriedades da cor : existe a dimensão expressiva
iniciada por Van Gogh, quando ele optou por expressar as
paixões humanas em um amarelo. Na pintura de Ianelli,
encontramo-la na expressividade de estados de espírito
sossegados. O inverso dos expressionistas que avivam
a cor sem temer as desatenções sincopadas. A propriedade heurística
ou inventiva da cor, por último, se dá obviamente
em toda a invenção de matizes ou pigmentos; propriedade acentuada
por Ianelli em suas pinturas, assim como por todo verdadeiro colorista.
O verdadeiro colorista corre o risco de harmonizar cores que se encontram
pela primeira vez ou que são inventadas.
O conhecimento de todas as propriedades da cor
redundará
sempre em maiores possibilidades estéticas e artísticas,
as que enriquecem a sensibilidade humana. Em síntese,
a mimética e a ornamental não são as únicas
nem as mais importantes propriedades da cor, na produção e
consumo estéticos, artísticos e temáticos.
As operações mentais
A mente é o único mecanismo da
percepção humana capaz
de penetrar com sentido lógico e crítico nesse obscuro poço
de sensações que em nós vai formando os sentidos e
naquele outro poço de sentimentos que constrói a sensibilidade.
Uma vez dentro, pode-se identificar com idoneidade quais
são, na obra de arte, os sentimentos estéticos, artísticos
ou temáticos por natureza. Sua competência é maior e
nos diz quais categorias (ou naturezas) têm realmente valor, posto
que uma coisa é registrar a presença de elementos artísticos
ou
estéticos e outra, muito diferente, é que de fato sejam
valores artísticos e estéticos.
Ianelli une e separa cores com tal delicadeza
que sua obra
nos desafia a separá-las, depois de percebê-las e de
diferenciar entre si seus matizes e suas valorações.
Exige-nos, enfim, imaginação. Mas o faz mediante essa variedade
de mística ou religiosidade que nos suscita a personalidade de seu
vermelho. Se percebemos beleza,
esta será singular. Para sermos precisos, o vermelho vibrante opera
como um espelho e nele refletimos nossos sentimentos; ou melhor : nossa
capacidade de traduzir as cores em sentimentos estéticos e em idealizações.
Como temos a capacidade psíquica de ver no inanimado sentimentos
humanos, somos capazes de perceber a tela de Ianelli como taciturna, cujo
laconismo cromático nos pressiona.
É assim como o valor artístico
da obra de Ianelli se constituiu pelo fato de ir mais além do modernismo,
para acentuar o plano pragmático e assim subverter uma das idéias
fundamentais de arte, tão ligada aos planos semântico e
sintático como vitais. Propriamente, ele participa em
inovações artísticas de acordo com as exigências
de nosso
tempo. A taxação desse valor demanda conhecimentos de
história de arte e requer familiarização no manejo
dos
conceitos atuais de arte. Por outra parte, contribui com
novos modos de tratar a cor livre, para dotá-la de originais
intensidades estéticas. Sua gama pessoal é facilmente
identificável. Para perceber essas cargas estéticas, basta-
nos abrir nossa sensibilidade e decidir se gostamos ou não.
Muito tempo os abstracionistas reclamaram como
um mérito seu o ativar ? com suas obras ? a capacidade sensorial,
sensitiva e a de significar (ou mental) do receptor. Com razão, pois
a obra de arte constitui uma gama de exercícios ou
enriquecimento humano, uma vez que ensina a perceber,
sentir e pensar. Causa prazer, sem dúvida. Mas o prazer também
ensina, como os brinquedos, vale dizer, educa.
O oligocromismo e o quase monocromismo de Ianelli nos
transforma e enriquece, se aceitamos o desafio de perceber
seus pormenores cromáticos e os sentimos, pensamos e
interpretamos. Quanto maior for a interpretação suscitada
pela carga estética de sua cor, mais positiva será a nossa
valoração da obra que a contém.