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A primeira manchete a gente nunca esquece
Itabuna, 27 de maio de 1987. “Itabuna é pioneira em projeto integrado de saúde”. Com destaque, uma foto do então prefeito Ubaldo Dantas e do então ministro de saúde Roberto Santos.   13 anos depois, foram tantas as manchetes inesquecíveis que seria quase impossível citar todas, nessa trajetória que fez de A Região um dos principais veículos de mídia impressa do interior da Bahia.   Manchetes, aliás, refletem o estado de espírito de uma comunidade, como bem observou o jornalista Bob Fernandes, de Carta Capital, quando aqui esteve para produzir um caderno especial sobre o ocaso da civilização cacaueira.   Não por acaso, citou manchetes de A Região como termômetro dessa realidade irreversível, a despeito das soluções milagrosas, que nunca dão em nada, apontadas de tempos em tempos pela Ceplac.   Um sonoro ACABOU em letras garrafais sintetiza uma realidade que muitos, até hoje, por coincidência ou simples comodismo, relutam em não aceitar.   Um ano depois, uma outra manchete estampava, com direito a foto do navio ocupando quase metade da capa, a importação de cacau vindo da Indonésia.   Hoje soa até ridículo lembrar a cena em que Leal, integrante de um exército brancaleone tupiniquim composto de produtores, tentava inutilmente impedir o desembarque do cacau. Na época, tinha lá seu simbolismo.   Denuncia comprovada, o Vestibular foi terceirizado e nunca mais se teve denúncia de fraudes.   Manoel Leal jurava de pés juntos que haviam colocado cópias do gabarito embaixo da porta da sede do jornal. Óbvio demais para ser verdade.   A fator dessa versão, o fato de que Leal me liga na madrugada anterior à circulação do jornal e pergunta, com voz de quem está preocupado: “e se esse negócio for furado?”. Só consegui responder com uma frase: “nós estamos fodidos”.   Estava dado, dessa maneira, o maior furo da história do jornal.   Outra máfia, denunciada em sucessivas manchetes, a dos cartões de crédito clonados, teve melhor sorte. Imperou mesmo a impunidade e os empresários envolvidos no esquema não foram punidos.   Impunidade que se verificaria depois, num crime ainda pior.   Apreendida em termos, porque apenas uma pequena parte da tiragem foi entregue a um grupo de PMs armados até os dentes. A maior parte dos exemplares, providenciamente escondida quando a polícia chegou, foi distribuida durante a madrugada.   “Se descobrirem, prendem a gente”, ironizou Manoel Leal. “Prendem você, que é o dono”, respondi. “Mas é você quem escreve”, rebateu Leal, encerrando a discussão.   Essa história do “mas quem escreve é você” tempos depois produziria uma segunda história que - ainda - não é o caso de se contar.   Possivelmente como consequência dessa manchete, em janeiro de 1998 vinha a manchete sem texto que fala por milhares de palavras.   No centro da primeira página em branco, uma foto 3x4 de Manuel Leal, com uma tarja preta na boca. Haviam calado o fundador do jornal com seis tiros, na lógica de que calariam o jornal.   Não calaram. E vieram manchetes denunciando a impunidade para este crime. E vieram manchetes comprovando esquemas de notas frias na prefeitura de Itabuna, revelando a concorrência viciada da Emasa.   Manchetes, como já foi dito acima, são termômetros de uma socidade, mesmo quando essa sociedade, ou suas lideranças, vivem uma apatia de corar de vergonha.   Se a primeira manchete a gente não esquece, a última costuma ser a melhor de todas, até que venha a próxima.   E que A Região, a despeito de todos os percalços, de todas as pressões, está mais vivo do que nunca.   Porque esta é uma longa história, feita de manchetes inquescíveis e - como esquecê-los, de profissionais que, plagiando Isabel Allende no antológico livro Eva Luna, estão interligados numa mesma história.   Daniel Thame, jornalista |
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