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conversa sabatica

21 de Novembro

Coronel do cacau: mitos e realidades
      Aviso aos queridos quasenenhum leitores que enviaram emails nestes últimos cinco dias, todos foram destruídos pela crueldade de uma peça deste monstro chamado computador. A bandida, assegura-me o técnico Robson, chama-se "placa mãe"...
      Foi coisa assim como passar para a marginalidade pois, segundo ele, a miserável "se degradou"! Arquivos e textos simplesmente desapareceram. Daí que até as maltraçadas de sábado passado foram para o beleléu. Após colocação de uma nova megera eletrônica, voltei ao normal. Amém.
      Vocês nem imaginam quanto de interesse sobre o Coronel do Cacau existe por esse Brasil afora. Nas palestras que dou subordinadas ao título acima percebo ser enorme a confusão existente na cabeça das pessoas, provocada em boa parte pelos livros do nosso grande conterrâneo Jorge Amado quando na sua vasta obra mistura ficção e verdade, heroísmos e trambiques, coragem e covardia, etc.
      Cumpro promessa que fiz ao engenheiro químico Henrique Baviolli Venturini, residente em Goiânia, um dos participantes do grupo para o qual falei mês passado em Brasília que, por ter chegado já no final do meu tempo, não assistiu toda a palestra, na qual estava muito interessado, pois esteve em Ilhéus há cerca de um ano, voltando maravilhado com a cidade, nossas praias, nosso povo, etc.
      Tem exigido muito de minha paciência e didática separar joio de trigo. Tive a felicidade de conhecer pessoalmente dois Coronéis autênticos, Henrique Alves e José Firmino Alves, já bastante envelhecidos que, embora com sobrenome idêntico, não eram parentes, até ao contrário, por toda vida ferrenhos adversários políticos.
      Ainda simples criança, asseguro que relembro com bastante nitidez seus traços de personalidade, posturas, ambições, etc. Toda literatura à qual pude ter acesso devorei com avidez.
      Possuo também, em meus arquivos históricos, muitos documentos de indiscutível autenticidade, como Diploma Oficial comprovando a patente que lhes era outorgada pela Guarda Nacional (corporação fundada em 1831, como unidade auxiliar das forças armadas), assinados inclusive pelo Presidente da República de cada época.
      Essas patentes, que só poderiam ser pagas com dinheiro vivo, partiam de Alferes chegando até à de Coronel. Será ledo engano imaginar estarem ao alcance de qualquer pessoa. Existiam critérios, a serem obedecidos.
      Coronel, por exemplo, a mais importante de todas, só poderia ser outorgada a quem tivesse comprovadamente colheita de 10.000 arrobas de cacau por safra anual, assim mesmo dependendo de apresentação por autoridade estadual partidária do Governo, além de capacidade para mobilização de pessoas, prestígio social, etc.
      Para um entendimento correto, haveremos de avaliar três questões: o caráter de classe do Estado, o sistema político suscitado pelo advento da República e a estruturação política.
      Acho de absoluta importância destacar que um hábito, até nossos dias adotado, é chamar muitos fazendeiros ou grandes comerciantes de "coronel", sem que o sejam de "papel passado". Trata-se evidentemente de um tratamento cerimonioso e até certo ponto demonstração de reconhecimento a prestígio que possam ter.
      Antes de concluir, desejo esclarecer que, além do prazer, sinto grande emoção toda vez que sou instado a falar sobre aqueles homens que nos legaram esta civilização grapiúna.
      Certa vez, conversando com o amigo Cid Teixeira, sem dúvida o maior historiador vivo da Bahia, manifestou uma opinião absolutamente igual à minha. O Coronel do cacau é diferente dos coronéis do Recôncavo, perdidos num baronato decadente.
      Confesso que, para mim, atualmente, um dos aspectos mais interessantes deste assunto é o estudo aprofundado sobre o que chamo de "ocaso do coronelismo autêntico", fator político resultante principalmente da modernização institucional brasileira.
      Aí, já são outros quinhentos...


adelindo Por Adelindo Kfoury Silveira, jornalista, escritor, rotariano e historiador da Fundação Jupará® de Cultura e Ecologia. Email para a.kfoury@globo.com


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