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ANTONIO JR
A Coluna
  • Antonio Jr é escritor baiano, radicado em Barcelona, Espanha. Autor de vários livros, pode ser contactado neste email.
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    Flores de Fuego
        O que já passou não existe e teria dificuldades de falar sobre emoções antigas, sairia artificial, seria como contar a vida de alguém que não conheço. Mas a verdade é que assim como "Guantanamera" poderia ser a musica da minha vida, as recordações de Havana - onde estive em outubro deste ano - continuam fortes e autênticas. O primeiro impacto foi assustador, imensamente assustador.
        Casarões da época da colônia hispânica em ruinas, movimento, cheiros, chulos, traficante de drogas, palácios neo-clássicos
    degradados, ícones do comunismo cubano. Como se a cidade houvesse sofrido uma guerra terrível e nada fosse reparado, embora já iniciado um processo de recuperação do seu centro histórico, financiado pela Unesco. O encanto das cores caribenhas também é
    evidente.
        Não adianta refugiar-se num dos inúmeros, novíssimos e luxuosos hotéis canadenses ou espanhóis e planejar um roteiro de turista tonto. É preciso estar nela, sentí-la com paixão como o fez Ernest Hemingway, que viveu 22 anos por lá, afinal o autor de "O velho e o mar" era um esperto, com duradouras passagens por Paris, Miami e Havana, sempre longe do mundinho de vidas ridículas.
        Firme, enfrentei o sol romântico de outubro, lembrando das notícias da aproximação do Furacão Irene. Aturdido, animado, flutuei pelas ruas desconcertantes, deixando de lado o hotel protegido em Miramar, um bairro onde viviam os ricos antes da revolução, nos tempos do ditador Fulgêncio Baptista.
        Tudo agitado, tumultuado, num ritmo de uma festa contínua e improvisada. Barulho de tambores, acompanhado por cânticos. Sentia-me no Pelourinho. Desviava de espanhóis, alemães e seus guias aborrecidos, entrando em ruas estreitas, cobertas de artesanato popular, telas coloridíssimas e músicos afinados cantando salsas - o certo é que a musica faz parte da vida de qualquer cubano. Parava para admirar carros norte-americanos - cadillacs, buicks ou bel-airs - ou mulheres vestidas totalmente de branco
    jogando búzios ou cartas com charutos gran corona (os maiores) na boca.
        Insolente, perguntei se podia fotografá-la. Ela olhou séria e disse: "Un dólar, muchacho!". Paguei e tirei as fotos necessárias.
        Atravessei a praça da catedral barroca, ofereci cordas de violão para um pobre tocador e enchi os olhos de lágrimas quando uma humilde senhora de mais de 8O anos levantou os braços magros, sorriu e eu não conseguia entender o que queria. Aproximei-me e ela me deu um santinho com a frase "Jesus en vos confio".
        Desviei de um gordo vendedor de flores brancas e frágeis, uma charrete com um velho cavalo levando um chapéu com fitas vermelhas, um travesti de olhar orgulhoso, bicicletas rápidas pedaladas por rapazes bonitos. Na varanda de uma casa habitada por inúmeras famílias, toquei num Cristo de madeira maciça adornado por flores minúsculas e frescas, além de vasos contendo plantas destinadas a fins religiosos.
        Entrei no hotel Ambos Mundos, onde Hemingway viveu na década de 3O, tomando dois mojitos - bebida à base de rum, limão,
    hortelã-pimenta e picante - enquanto a pianista negra e bela tocava um bolero de Nat King Cole. Através da vidraça, vi pessoas de sorriso rasgado ao mesmo tempo apressadas e a passear; o espetáculo de maravilhosos carros dos anos 4O e 5O ziguezagueando entre lentos animais; os ônibus compridos e desconfortáveis cheios demais; os prédios sórdidos e vistosos; putas jovens e sensuais - um museu vivo.
        Movimentos, cheiros, barulhos. Nada falta para o estrangeiro atônito: um mar azul-turquesa com manchas de um outro azul, uma
    história valente, um presente agonizante e aquele ar pouco convincente de felicidade perpétua. Olhei, cheirei, respirei - recordações do Brasil que nos perseguem. Livros de Chico Buarque e Roberto Drummond numa vitrine. Depois apareceu outra imagem qualquer.
        O céu explodiu em fogos de artificio, como flores em chamas. Procurei conversar com os nativos. Falaram de como gostam das novelas brasileiras, mostraram uma fotografia de Regina Duarte no bar-restaurante La Bodeguita del Medio. Só que não é permitido conversar muito tempo com os cubanos, nem fotografar policiais ou fortes militares.
        Numa luxuosa casa de charutos escolhi dois Cohibas. Acendi um deles no El Floridita, sabendo que fumar habanos é uma fonte de prazer e de bem-estar, e pensando que podia estar sentado na mesma cadeira que um dia Ava Gardner ou Gary Cooper descansaram o rabo. Tomei uns tantos daiquiris conversando com o barman-chefe vaidoso de suas dezenas de broches na lapela. Percebi imediatamente a noção de coletividade, a ausência de egoismo. Procurei não enxergar os estúpidos turistas.
        Lembrei Paul Bowles, "não sou um turista, sou um viajante". Assim também pensa o chileno Luis Sepulveda, e penso eu. Os
    turistas são uma espécie de gafanhotos devorando tudo por onde passam. Parecem feitos em série, inexpressivos, numa relação monótona com a vida. Não há espirito, não há fé. Prefiro estar no meio dos pobres, dos loucos, dos santos, dos poetas, dos boêmios, dos mentirosos, dos putos.
        Outra vez o calor e a miséria. Todos queriam dolares. Onde está o desenvolvimento de Cuba? O suor me abraçou como se fosse um monstro pegajoso. O sol fez pontaria à minha cabeça. Logo anoiteceu e ouvi boleros clássicos no cabaré Dos Gardénias, depois bailando no Palacio de La Rumba.
        Amanhecendo, curei a ressaca na praia, ao lado de pescadores, com um livro de Carpentier nas mãos, já que Cabrera Infante e Reinaldo Alas são proibidos. De uma forma tranquila, vi o que os espanhois viram há séculos: a sedução inesquecível do desconhecido.

    Escritor baiano. Os livros dele incluem "Retratos em Preto & Branco - Contos Goticos de Madrid" (l996), "Ficar Aqui sem Ser Ouvido por Ninguém"(l998) e "Nódoas, Anjos e Outros Poemas (2000). Mora em Barcelona.
     

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