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Olha, Sente e Lembra, Forasteiro
Antigos poetas das ilhas do mar Egeu costumavam imprimir seus poemas em folhas soltas para vendê-los pelas aldeias ou para distribuição a amigos e admiradores. Konstantinos Kaváfis, um dos meus Anjos-de-guarda, continuou a tradição no início deste século. Dessa lição, fiz eco enviando meu trabalho poético através de cartas, e-mails ou publicações literárias alternativas para diversas partes do mundo. Poemas de Sintra, Fez, Vigo, Madri, Lisboa, Paris, Edimburgo, Santa Cruz de Graciosa, Londres, Castelo de Vide, Cascais, Havana e diversas outras cidades. Neles, a homossexualidade é uma experiência humana vivida com toda a intensidade, embora não ostensiva, assim como também são caracterizadas como um caledoscópio: o instinto, o terrível, o invisível, o imaterial, a melancolia, a saudade, a memória sensual, a verdade dos artefactos, o sentimento amoroso, a força da natureza. A condição de exilado voluntário gerou inicialmente Uivos, fruto de dois meses na Galícia. Eu abandonei-me a um encantamento bucólico, abençoado pelos bosques de pinhais e carvalhos de Pontevedra e as águas do rio Tea, e talvez sejam os meus versos que mais acentuam a necessidade de livrar-me da pobreza e mesquinhez da alma humana. Nódoas, Anjos, explode errático e ferido numa nova realidade pessoal, física, questionando o mundo interior, os fantasmas de uma existência solitária - ainda não havia encontrado o amor de minha vida - e o diagnóstico do colapso da civilizaçao, sua patética loucura, sua enfermidade, seu vazio público. Foram onze meses londrinos de símbolos e inverdades, de bom cinema e jazz. Boleros, o terceiro livro, não tem nada a ver com a música chorona de cubana, ilustra a luz da ilha de Fidel, os costumes e a sensibilidade de um povo, a miséria, a desconfiança de todos os poderes, o caos público, o mito de Ernest Hemingway. São livros de possivelmente estilos muitos diversos. Não gosto do igual, aprecio a experimentação. São confissões poéticas de um viajante, que não se cansa de surpreender-se, de motivar-se com o que encontra ao longo do caminho. E não estou só, levo no espírito nestes anos de errância entre montanhas e cursos d'água: Auden, Paul Bowles, Cummings, Genet, Thom Gunn, Rilke, Joao Cabral, Pasolini, Whitman, Rimbaud, Dickinson, Ginsberg, Lorca, Borges, Baudelaire, Rene Char, Ostayen, Hilda Hilst, Genny Xavier, além do grego Kaváfis. Deste modo, e em tão sábia companhia, misturando cidades, línguas, angústias, alegrias e descobertas, insuflo frescura natural na minha alma rebelde. Nada de coração magoado, o importante é a rutilância do desejo. Creio que procuro o Graal dentro de mim mesmo em lugares distantes, fujo do confinamento claustrofóbico. Seria um desperdício de vida? Não importa. Sei que dá-me um prazer tão grande estar no metrô inglês olhando a cara mágica das pessoas como mergulhar nas águas azul-turquesa do mar caribenho. Pois como disse o chinês Zhang Kejiu: "Quando a imobilidade não é satisfatória, somos livres para viajar". |
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