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viva a vida
18.Novembro.2017

Sem hora para acabar


“Pensava que tinha todo o tempo do mundo, até que não teve”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi as várias versões desta frase, dita por parentes de quem morreu de repente.

A frase resume o que é a vida ou pelo menos o que não esperamos dela.

Todo mundo vive como se a morte só acontecesse com os outros ou como se ela estivesse sempre muito longe.

A verdade é que a vida não tem hora para acabar e não falo isso no sentido das baladas (vai durar para sempre) e sim o inverso: pode acabar a qualquer momento, não importa se você é saudável, novo e sortudo.

Como já foi escrito por alguém que não lembro, “começamos a morrer desde o momento em que nascemos”.

Admita, a vida nada mais é que uma viagem rumo à morte, única certeza científica sobre a nossa existência. Por isso o importante não é chegar bem ao destino, mas curtir a viagem.

Como as pessoas sempre pensam que tem “todo o tempo do mundo” para as coisas, vai deixando para depois o que deveria fazer hoje.

Por ter “todo o tempo” as pessoas também deixam de dar valor às pequenas coisas do dia a dia, que são tão importantes quanto as grandes.

Quer exemplos? Quantas vezes você passou dias brigado com alguém que ama, com um amigo, por causa de alguma besteira? Ele (ou você) podia ter morrido nestes dias.

Quantas vezes você foi dormir brigado com quem ama? Ele podeira não ter acordado no dia seguinte.

Quantas vezes você saiu de casa sem beijar seu amor? E se na volta ele tivesse morrido? Quantas vezes passou vários dias emburrado, sem falar com ninguém, isolado? A vida podia ter terminado neste período, para você ou os outros.

Todo mundo tem um caso de morte repentina de alguém que conhecia ou gostava.

No meu caso foi o amigo Martial Câmara, da Bitway, de Ilhéus. Almocei com ele numa quarta-feira no Los Pampas. Conversamos muito, rimos muito, curtimos muito o papo e a amizade.

No sábado, 3 dias depois, recebi uma ligação para avisar que ele tinha morrido.

Se eu tivesse adiado aquele almoço, não teria tido a felicidade daquele papo.

Justamente porque a vida não tem hora para acabar, você nunca deve adiar algo que quer fazer para “depois”. O depois pode não acontecer.

Eu tenho uma ótima relação com a morte, que para mim é só uma passagem para outra vida, outro lugar.

Sei que ela pode chegar a qualquer momento, por isso não termino o dia com raiva de ninguém, de nada.

Não perco tempo com problemas pequenos, com os que se resolvem sozinhos ou os que não tem solução.

É perda de vida.

Muitos problemas parecem graves, mas vários e resolvem sozinhos se você tiver paciência para esperar e firmeza para aguentar.

Problemas de verdade são perder a visão, um braço, uma perna, ficar paraplégico, perder a casa, perder amigos, ter uma doença grave e debilitante.

O resto é só incômodo, mas muita gente deixa de viver, de dormir, de conversar fiado, de passear porque está sem dinheiro, por exemplo. Mas dá para fazer tudo isso de graça.

Talvez seja sentimento de culpa por ter prazer enquanto deve a alguém. Não devia. Uma coisa não pode impedir a outra, pois juntas se equilibram.

Se tenho vontade de ler, leio; de comer, como; de ver um filme, vejo; de ouvir música, ouço; de jogar videogame, jogo.

Não deixo o almoço com os amigos para depois, não deixo para usar a roupa nova numa ocasião especial, não guardo o vinho para um dia que o mereça. O dia é hoje.

Os romanos tinham a frase prefeita para o que devia ser feito: carpe dien (aproveite o dia). É meu slogan de vida.

Já escrevi sobre isso antes: se meu dia está muito ruim, coloco música e ele muda na hora, melhora.

Experimente, quando estiver num dia péssimo, ouvir música, ler, assistir um filme, dar um passeio na praça.

Focar na história, no som ou na paisagem ajuda a deixar os problemas de lado por um tempo. O suficiente para achar a solução para eles. Viva.

Porque você já sabe que a vida não tem hora para ac


O editorial de A Região, por Marcel Leal.

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