a regiao
Find more about Weather in Itabuna, BZ
por do sol
18.Março.2017

Um dia qualquer


João acordou naquele dia como se fosse um dia qualquer. Como em qualquer dia, tomou café da manhã e saiu para trabalhar.

Não se despediu da esposa porque tinha brigado com ela na noite anterior. Não beijou a filha porque estava com pressa.

Como em um dia qualquer, podia ter ido pela orla, curtindo o visual da praia e o belo dia de sol, mas optou por ir pelo centro, cinzento e feio, para ganhar tempo.

Na hora do almoço deste dia qualquer João recudou o convite e um amigo para almoçar.

Estava louco para comer o frango frito com polentas do seu restaurante favorito, mas acabou comendo sanduíche frio na empresa.

No fim do dia, indo para casa, João podia ter parado no mirante para aproveitar o por do sol que, mesmo neste dia qualquer, sempre era lindo visto dali, uma das grandes atrações da cidade.

João teve vontade de tomar um sorvete, mas a preguiça não deixou que desviasse do caminho.

Neste dia qualquer, João também rejeitou o convite de dois amigos para um happy hour com chopp e muito papo num bar da praia.

Queria chegar logo em casa, mudar a roupa e assistir tevê. Não porque estava com vontade, mas porque podia ver o pessoal no dia seguinte.

João tratou este dia como um dia qualquer, fez o mínimo possível, deixou muita coisa para depois e não prestou atenção nas pessoas que ama ou gosta.

Mas este não era um dia comum, longe disso.

Este foi o último dia de João nesta vida, da qual saiu com um infarto fulminante a poucos metros de casa.

Não chegou, não mudou a roupa, não assistiu tevê, não reviu a esposa, a filha nem os amigos, nunca mais viu um por de sol, tomou sorvete ou comeu seu prato favorito.

Não nesta vida.

João saiu dela cheio de arrependimentos, por ter tratado este dia como um dia qualquer, comum. Seu último pensamento foi “se eu soubesse...”

O fato é que não temos como saber se este é nosso último dia ou se é apenas um dia qualquer.

Por isso vivo cada dia como se fosse o último. Nunca deixo minha esposa, minha filha, sem me despedir, sem um beijo, um sorriso, uma graça.

Faço tudo o que tenho vontade, na hora em que tenho vontade e nunca recuso o convite de um amigo.

Posso ir para a próxima vida de repente, mas não vou me arrepender de nada que fiz ou deixei de fazer naquele dia, porque não tratei como um dia qualquer.

Quando partir, partirei bem, sem arrependimentos nem angustia.

Partirei sabendo que aproveitei desta vida tudo o que pude. Enfim, vivi.

E você?

Brasil dos absurdos


O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Félix Fischer mandou soltar um homem que furtou quatro desodorantes avaliados em R$ 32. Réu primário, ele ficou meses preso por não ter como pagar fiança de um mínimo.

Eu sou contra qualquer bandido, de punguista aos ladrões de banco.

Mas o Brasil sofre de uma aguda falta de senso, exemplificada neste caso.

Começa pelo dono do mercado, que podia ter pego de volta os desodorantes sem prestar queixa.

Segue pelo delegado, que, fosse eu, pagaria os R$ 32 ao queixoso e daria uma lição de moral no ladrão.

Passa pelo juiz, que sabia que o ladrão não teria como pagar a fiança. Podia ter condenado ele a limpar as calçadas ou qualquer outro serviço para a sociedade.

A falta de bom senso dos três fez com que a Justiça gastasse milhares de reais para tramitar o caso até o STJ, tudo por causa de R$ 32.

Quem pagou por toda essa insanidade foi você, fui eu, foi a própria vítima.

São nossos impostos que pagam pela falta de bom senso e de inteligência.

Casos iguais a este não deviam resultar em prisão e sim em serviço social, que dá humildade e benefício.

Talvez até ensinasse bom senso aos envolvidos.


O editorial de A Região, por Marcel Leal.

|