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daniel thame
15.Julho.2017

De Mito a mico


Rogério Ceni é seguramente o maior ídolo da história do São Paulo, embora não seja o maior dos craques, já que compará-lo com Leônidas da Silva, Didi, Gerson, Pedro Rocha e Raí (só para ficarmos nos mais marcantes), beira a heresia.

Goleiro-artilheiro, tricampeão Brasileiro, campeão da Libertadores, campeão do Mundo, com uma das mais brilhantes exibições de um goleiro em todos tempos na final contra o Liverpool, Rogerio Ceni fez com que a história do clube se confundisse com sua própria história.

Para a torcida do São Paulo, nada mais nada menos do que o Mito.

Para as demais torcidas, especialmente as dos rivais Palmeiras e Corinthians, um goleiro arrogante, que nem era essa coisa toda. Um ódio que era quase uma declaração enviesada de amor.

No São Paulo, intocável, esticou a carreira até o limite do limite. O zagueiro não podia falhar, o meio campista não podia errar um passe e o atacante não podia perder um gol. Mas Rogério tinha direito a todos os frangos que pudesse engolir, quando o corpo já não obedecia o comando da mente.

Quando resolveu parar (e parou porque quis), teve um jogo despedida grandioso, com o Morumbi lotado, um desfile de craques do passado e, forçoso dizer, pernas de pau do presente.

Um reconhecimento comum nas despedidas de craques nos grandes clubes europeus, mas raríssimo no Brasil, onde gênios da estatura de um Rivelino, um Ademir da Guia e um Gerson não tiveram um jogo de despedida.

Página virada no futebol, página garantida na história, Rogério Ceni poderia curtir a aposentadoria tranquila, com os milhões que merecidamente ganhou fazendo defesas e marcando gols.

Mas, a extrema autoconfiança, necessária para um goleiro, a arrogância mal disfarçada, levaram Rogério Ceni a dar o passo arriscado.

Aceitou (talvez o termo correto seja exigiu) ser técnico do São Paulo.

Não o São Paulo multicampeão, com gestão de time europeu, mas o São Paulo que vive um jejum de títulos, dirigido por incompetentes e que virou um balcão de negócios, uma feira livre, onde é escolher, pagar e levar.

Um time assim não era para novatos como Rogério Ceni, dono de idéias revolucionárias, que quando colocadas em prática (ou não colocadas) se revelaram um retumbante fiasco.

Eliminado nas semi-finais do Paulistinha, eliminado prematuramente da Copa do Brasil e eliminado mais prematuramente ainda da Copa Sulamericana por um timeco marca bufa da Argentina, penando na zona de rebaixamento do Brasileirão.

Esse foi o mundo real de Rogério Ceni, sumariamente demitido pelo seu amado São Paulo, sem dó nem piedade, como se treinasse um íbis da vida.

Nem Ceni foi o Guardiola que ele talvez se imaginou, nem o São Paulo foi um arremedo de Barcelona que, se ele imaginou, talvez seja caso para internação.

Passe bem, obrigado, vida que segue.

De Mito e Mico, a bola as vezes é cruel.

E com Rogério Ceni, ela foi absurdamente cruel.

É o caso, agora, de pendurar as chuteiras da arrogância e calçar as sandálias da humildade.



Coluna do jornalista Daniel Thame.

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