Manhã chuvosa de 7 de setembro de 2000. Faltam exatos vinte e três dias para a escolha do novo prefeito de Itabuna, na mais disputada e eletrizante eleição da história da cidade.
O desfile oficial obviamente seria utilizado como peça de propaganda do candidato governista, que disputava a reeleição. Naquele momento, o uso da máquina administrativa, o abuso de poder econômico e a parcialidade da justiça eram gritantes.
Fernando Gomes, tomado pela soberba, se preparava para a vitória consagradora, derrotando de uma só vez Geraldo Simões, Ubaldo Dantas, Renato Costa e Davidson Magalhães.
Inflado por pesquisas maquiadas e cercado por marqueteiros com Phd em bajulação, Gomes previa uma vitória com delirantes 20 mil votos de frente.
Aos poucos que tinham coragem de lhe alertar para o equilibrio da disputa, claríssimo nas gigantestas manifestações de rua em apoio a Geraldo, o então prefeito respondia com o suprassumo da arrogância: eu já ganhei cinco eleições. Você ganhou quantas?. A conversa estava encerrada ali, sob aplausos dos lambe-botas de toda espécie.
Mas, naquele 7 de setembro, além de toda a exploração da estrutura de poder, faltava a demonstração de força.
Após o desfile oficial, estava programado o chamado Grito dos Excluídos, manifestação promovida pela Igreja Católica e entidades populares, sem qualquer conotação política. A caminhada, que não teria bandeiras dos partidos políticos, seria pacífica e passaria pelo palanque de Fernando Gomes quando ele já não estivesse lá.
Até que, do palanque, alguém deu a idéia: não vamos deixar o pessoal caminhar pela Cinquentenário. Um repórter de tevê que estava ali ouviu outra frase: vamos pará-los, nem que seja na porrada. Foi a senha para que a Polícia Militar desse a ordem: não tem Grito dos Excluídos.
Como não tem Grito dos Excluídos, cara pálida? Isso aqui é um movimento da Igreja, pacífico. Estamos numa democracia.
Democracia é uma palavra que cavalos e cavalos com farda de PM desconhecem. Se a ordem era não descer, então ninguém desce.
Há quem garanta que o vento da eleição virou ali. Quem viveu aqueles momentos, não esquece a pancadaria insana, os cassetetes, os cavalos avançando sobre pessoas indefesas, bombas de gás lacrimogêneo sendo lançadas aos montes. Uma criança de dois anos foi atingida nos olhos.
O festival de violência durou cerca de 15 minutos. Mas suas consequências teriam o poder de irradiação capaz de mudar o destino da eleição.
Imagens feitas pela equipe de tevê de Geraldo Simões foram utilizadas no horário eleitoral gratuito, enquanto o programa de Fernando, na mesma noite, exibia um horripilante clip em homenagem à independência. Nas imagens o candidato ungido exibia na face o 'já ganhei' de sempre.
O contraste entre um candidato imperial e o povo apanhando da polícia foi magistralmente explorado pela coordenação da campanha de Geraldo. E se precisava de mais uma demonstração de truculência, ela foi dada no dia 10 de setembro, com uma cavalgada pelas ruas de Itabuna.
Outra vez os cavalos!
E veio a música 'Apesar de Você', fundindo imagens da pancadaria do 7 de setembro e da cavalgada do 10 de setembro.
Para completar, veio a frase No meu voto mando eu, que hoje tem tantos pais e na verdade não tem pai nenhum. A frase, usada em campanhas do movimento sindical, estava hibernando entre as muitas idéias que eram levadas à produtora dos programas de rádio e tevê de Geraldo.
Foi testada numa caminhada pela Cinquentenário, não mais do que 10 camisetas vestidas por integrantes da própria equipe, e se espalhou como um rastilho de pólvora até se transformar na frase mais forte de toda a campanha.
Contra a truculência explícita, uma declaração de independência explícita.
Já não era apenas o Grito dos Excluídos, mas o grito de toda uma cidade que precisava dizer que não tinha dono, que não era refém dos fernandos, borges e acms. Que não temia o coronel que fazia as vezes de capataz.
Hoje, quando o distanciamento do tempo já permite uma análise racional daqueles momentos marcados por tanta emoção, pode-se dizer que em 2000 a Independência teve duas datas, embora uma tenha sido consequência da outra.
No dia 7 de setembro, era Independência ou Porrada.
E a porrada garantiu a independência. Mudou a história.
Que, é preciso deixar bem claro, é sempre escrita pela ótica dos vencedores.
Fosse outro o resultado e talvez se escrevesse aqui que há um ano a violência subjugou uma cidade inteira. Ou nem se escrevesse aqui porque muito provavelmente não haveria onde (e nem quem) escrever.
Festejemos pois, com Grito dos Excluídos e tudo (desta vez sem polícia para reprimir) a independência que ajudamos a construir e somos todos responsáveis em manter.