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DANIEL THAME
A Coluna
  • Daniel Thame é Chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Prefeitura de Itabuna. Jornalista renomado, foi editor de A Região por mais de 10 anos e colabora com o jornal.
  • Leitura
  • A Região indica entre os melhores sites de opinião do Brasil o Observatório da Imprensa, do jornalista Alberto Dines, um site de critica da imprensa que vai mudar sua postura diante dela.
  • Jornalismo
  • Outro site recomendado por A Região é o de Marcel Leal, presidente da Rede Morena, que discute jornalismo, marketing, política, ética e internet.
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    É o 14!
         
          - Pra me deixar em paz eles querem fechar o jornal. Fechar o jornal é o mesmo que me matar...
          Estávamos lá pelo oitavo chopp (cada um!) de um final de sexta-feira qualquer de um ano qualquer do século passado.
          Não, não era um dia qualquer nem um ano qualquer. Era o ano de 1997 e nem era em qualquer dia que Manoel Leal se abria daquele jeito. Seus temores eram justificados. Pressionados por ACM, Fernando Gomes et caterva, Leal vinha sendo ameaçado de prisão com toda a cobertura espetaculosa que a mídia nazi-carlista é capaz de fazer através de sua rede de comunicação.
          -Porra Leal, nosso jornal não vai fechar nunca.
          A resposta, seca e quase um apelo para que ambos acreditássemos naquilo como fato consumado, foi quase uma senha para que, embalados por mais alguns hectolitros de chopp, fizéssemos planos de um jornal diário, que atingisse o sul e sudoeste da Bahia, que circulasse em Salvador....
          Era tudo no condicional naquele momento em que, não fosse a fantasia liberada pelo chopp e o torpor causado pela fumaça de um habano honesto, haviam até dúvidas sobre a circulação da próxima edição do jornal.
          O relógio do tempo avança. É noite de 14 de janeiro de 1998. Manoel Leal é apenas um corpo crivado de balas, estendido na morgue da Santa Casa.
          Pragmáticos como só os gangsters sabem ser, optaram pela solução final.
          - Agora é que essa porra de jornal não fecha mesmo. Só se matarem a redação toda.
          Era um desabafo entre lágrimas, num turbilhão emocional em que palavras não são e nem devem ser medidas. Mas era também um compromisso, uma espécie de pacto de sangue.
          Outra vez, e dessa vez sem a fantasia do chopp e o torbor do havano, não havia o condicional, ainda que para muitos, inclusive alguns de nós, a dúvida é se haveria a edição seguinte.
          O relógio avança no tempo, os ponteiros seguem o rumo natural da história. Leal agora é um retrato na parede e uma placa na entrada da sede do jornal.
          Não, Leal não é apenas isso! É uma chama, que conseguiu, na sua tragédia pessoal e coletiva (coletiva, sim, porque a sua morte brutal foi um crime contra todos aqueles que defendem e praticam a liberdade de expressão), transformar um pequeno grupo de pessoas num exército cuja única arma era o desejo de manter o jornal vivo.
          Cada edição (e o incrédulo Luiz Conceição é testemunha de quantas vezes eu dizia que Leal estava ali ao meu lado, 'ditando' as Malhas, 'sugerindo' a capa) era uma vitória.
          Abre parêntese: Davidson Samuel, Simone Nascimento, Domingos Mattos, Ailton Silva e Ricardo Ribeiro eram quase meninos, recém-saídos da adolescência, quando se viram mergulhado nesse 'fogo cruzado'. Se mantiveram firmes, unidos, ainda que alguns meses tivessem 90 dias e as dificuldades não fossem poucas. Eles provavelmente não imaginam o quanto foram importantes nesse processo. Até porque esse é um negócio onde muita gente com carimbo de competente/experiente costuma pular do barco ao menor sinal de tempestade.
          Estamos chegando ao segundo semestre de 2000. Retrato na parede, placa, chama. Leal também é símbolo de uma impunidade vergonhosa.
          Vive-se a mais acirrada disputa eleitoral da história de Itabuna.
          E lá está o jornal (havia outro caminho?) na trincheira. Uma intifada grapiúna, onde a pedra combate o canhão.
          E a pedra vence o canhão!
          Poucas vezes em sua história de acertos e (por que não?) equívocos, A Região teve uma postura tão definida, tão clara. Era necessário e assim foi feito porque assim teria que ser feito.
          Até porque, e aí nem a produção anual de chopp da Antarctica e nem todos os habanos do mundo seriam capazes de mascarar, era uma questão de sobrevivência.
          Abre outro parêntese: já escrevi várias vezes que Leal tinha virtudes fantásticas e defeitos terríveis, como aliás todos nós os temos, uns mais, outros menos. Sempre fugi da tentação fácil da remissão dos pecados e da quase beatificação, ainda que uma morte brutal como a dele permitisse tal absurdo.
          Mas - e isso estava preso na garganta - é preciso que se escreva uma coisa: Manoel Leal era autêntico, assumido. Em certos momentos mandava o escrúpulo às favas e não ficava posando de bom moço, vestal.
          Dez dia antes das eleições. Resultado imprevisível. Futuro idem.
          Havia a informação, segura, de que a última edição de A Região antes do pleito seria apreendida pela Justiça. Motivo? E desde quando se precisa de motivo nessa terra onde em, sendo aliado de ACM, tudo pode?
          Vai se revelar aqui um pecadilho e o Marcel Leal e o Luiz Conceição que assumam a cumplicidade comigo.
          A edição do dia 25 de setembro sai com uma informação no canto da primeira página: "Aviso aos leitores: o jornal só volta a circular no dia 2 de outubro, com o resultado das eleições municipais".
          Perdão, de novo, leitores: o jornal circulou na quinta-feira, três dias antes do pleito, numa daquelas edições pra se guardar como relíquea: denúncias de compra de votos perpetrada pela inevitável Maria Alice e o prenúncio de uma, para muitos improvável, vitória de Geraldo Simões, naquele domingo de 1° de outubro, que depois entraria para o rol das chamadas datas inesquecíveis.
          Foi, no bom sentido, uma molecagem, como se um Garrincha de papel, no esplendor de sua forma e de sua genialidade, driblasse o juiz de maneira a transformá-lo num João qualquer.
          Essa era uma revelação guardada para um livro imaginário que um dia talvez Deus e esse misto de brisa e tempestade permanente que é a minha vida permitam escrever. Talvez....
          Antecipo-a aqui como um testemunho que nos remete àquela sexta-feira onde Manoel Leal disse que morreria se acabasse o jornal e, ainda que hoje um pouco distante de A Região (menos que deveria, mais do que gostaria), reafirmo o que disse naquela conversa que grudou nos meus neurônios:
          -Porra Leal, nosso jornal não vai fechar nunca.
          14 anos!
          14.
          E isso, acima de tudo, porque existe uma chama que não se apaga e nem vai se apagar enquanto cada leitor de A Região continuar alimentando o fogo que se renova todas as semanas.

     
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