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Fernando Caldas
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TheBigDoor.com
O Voto dos Existentes
... por pior que seja a situação na China, nossos calos doem muito mais. (Mário Quintana).
Segundo o Le Monde (edição de 14 de fevereiro de 2002) Lula acaba de fechar acordo político com o
Bispo Edir Macedo e com o partido a ele ligado (o PL), o que justificaria o fato de no Brasil apenas
a TV Record ter dado ênfase ao Fórum Mundial, realizado recentemente em Porto Alegre (a despeito da
ampla cobertura internacional). São coisas da política...
Contudo, o fato (além de outros relativos ao "novo" PT - como a promessa de uma vez vencedor das
eleições manter o pagamento das dívidas e de anunciar previamente o nome do suposto Ministro da
Economia, o que tranqüilizaria o mercado etc) merece reflexão:
1. Se o PT está apenas blefando e pretende, uma vez tomado o poder, ferir os acordos de campanha,
estamos diante de maquiavélicos;
2. Se, ao contrário, o PT pretende de fato realizar um governo ameno, e que - segundo Cristovam
Buarque, "cuidará do social sem mudar o econômico" (Revista República - fev. 2002), teremos um
mandato semelhante ao que aí está, salvo pelo fato de Fernando Henrique dentro de tal estética ser
um estadista mais apto que Lula...
Quem é o eleitor do PT? Basicamente (indicam as pesquisas), trata-se de jovens ou idealistas que
sonham com a velha promessa do Estado-Pai e justo, voltado para as classes menos favorecidas,
corajoso o suficiente para cuidar de uma vez da problemática agrária e ambiental, invertendo a
lógica do atual modelo de produção, constituindo-se em gerador de transformações estruturais.
Contudo, ao aliar-se a grupos de outras linhagens ideológicas, o PT frustra os seus eleitores,
abrindo-se, paralelamente, para apoios e acordos com segmentos antes estranhos (basicamente o poder
econômico). Na instância simbólica, a atitude do PT representa a renúncia do sonho, instaurando o
partido como mais um partido, substantivo comum no jogo dos interesses...
Ora, mas nesse caso o que é melhor, votar em Lula ou em Serra? Se o PT, através de tais posturas
esdrúxulas a si mesmo, a sua essência, admite que não é possível a governabilidade nos padrões
socialistas puros, então por que votar em Lula? Nesse caso, o candidato ideal é José Serra. Afinal,
o atual ministro da saúde tem um histórico coerente de militância política. Trata-se de alguém que
foi aos poucos atingindo práticas de sobrevivência ao sistema. Serra é o velho comunista, mas que
também conhece as estruturas das políticas públicas e as complexas relações de um mundo
pós-modernizado. Serra será o presidente do avanço lento do Brasil, da consolidação da democracia,
através da dinâmica da organização social, afinal, a nossa legislação já tem subsídios suficientes
para que o povo brasileiro tenha fortes ingerências nos destinos do país, através de conselhos,
promotorias públicas, ong's etc.
Infelizmente, nossos códigos soam hipócritas, visto os milhões de analfabetos, famintos e
abandonados... Serra não é bem visto pela direita nacional (não tem o histórico burguês de FHC, por
exemplo), muito embora a sua ênfase seja às questões de ordem meramente conjunturais. Como Cristovam
Buarque, Serra sofisma quando fala em cuidar do social sem considerar as instâncias econômicas. Tal
não é possível, sabemos.
Mesmo assim, a tentativa da candidatura Roseana Sarney, que é a candidatura do FMI e da ALCA
reflete a preocupação de setores mais extremados da direita. Serra pretende acelerar as negociações
do livre comércio do Brasil com a União Européia, contrariando os interesses norte-americanos;
pretende também continuar sua jornada contra as multinacionais de medicamentos, dessa vez,
ameaçando quebrar a patente de drogas que combatem a hepatite C.
Mas em nenhum momento José Serra propõe transformações profundas (as velhas "reformas de base" que
já depôs tantos presidentes não passam nem de longe por seu discurso).Pois é!...
Não obstante, se o que se quer é um presidente que reacenda o estado forte, que re-estatize as
empresas públicas leiloadas (como a Vale do Rio Doce), que priorize as questões nacionais,
fomentando, por exemplo, pesquisas na área energética, incentivando o uso da energia solar e eólica,
o álcool; um presidente que tenha pulso forte, que faça renascer o espírito cívico nas crianças e
jovens e que decrete a soberania do Brasil ante os outros países, que soerga as nossas forças
armadas e invista num arsenal atômico capaz de nos impor respeito externo, então, o candidato ideal
chama-se Enéas.
Enéas cujo perfil muito se assemelha aos protótipos idealizados pela TFP e pelos
integralistas da década de quarenta. O curioso é que até o final da Copa do Mundo estas questões não
interessarão ao povo. Mesmo a partir de agosto, elas só servirão para debates incautos e análises
superficiais de mesa de bar. O mais engraçado é que um voto vale um voto e o escrutino é o único, o
único mesmo, momento em que todos são iguais perante a lei.
O mais engraçado é que o povo não está nem aí para Lula, Serra, Roseana, Enéas e cia. O povo é
aliado da Rede Globo e está preocupado com a (não) convocação de Romário para a seleção. E depois,
eleição boa mesmo é para prefeito e vereador, quando se podem conseguir telhas, dentaduras e
ligamento de trompas.
O povo anda muito triste com a queda das Torres Gêmeas, com o risco de atentado terrorista, com
medo da violência vista na telenovela do Jornal Nacional violento.O povo, afinal, é a grande
abstração, menor talvez apenas que a abstração que é o Estado. Entre ambos, nós, os falsos
entendedores de tudo; últimos utópicos, românticos, modernos, sei lá o quê...
Os metafísicos, cuja condição de existentes - nossos calos, incomoda bem mais que a situação na
China. Por não sermos chineses, votamos. Talvez por nem brasileiros sermos, mas por simplesmente
existirmos, estarmos-aí... Em três de outubro, as urnas eletrônicas contabilizarão nosso voto; voto
chulo, voto festim, voto obrigatório. O voto dos existentes.
*Fernando Caldas é Filósofo, Mestrando em Meio Ambiente, Professor da Universidade Estadual de
Santa Cruz, Cantor, Compositor e Diretor de Planejamento e Projetos da Fundação Itabunense de
Cultura e Cidadania - FICC.
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