Hélio Pólvora
De Hélio
Silva Galo
Nau sem lastro
Exemplo de Cidadania
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Cuma?
O sobrenome Cuma data pelo menos de 1963, quando Rockefeller combatia a malária através do Ponto IV. Um dos nossos inspetores era Adjoval Santana Macedo, mais conhecido por Macedo, ou Macedo da Macedônia.
 
Tinha direito a jipe, que dirigia por esses cafundós. A fiscalização rigorosa impedia-o entre outras coisas de dar carona. E numa bela manhã de pimavera, quando a alma trina mais que um sabiá do Pontal, eis o intimorato caçador de mosquitos a caminho da póvoa de União Queimada, procedente de Almadina.
 
À beira da estrada está uma moça de pés no chão, sapatos ao ombro e carregando pesada mala. Tinha os pés brancos e pequenos. A julgar por eles, o resto do corpo devia ser uma formosura, naturalmente com os acidentes geográficos colocados todos nos lugares certos do mapa. .
 
Macedo sentiu pena. É bem verdade que a memória estalou, lembrando-lhe o impedimento da carona. Mas um dos pés, atraídos pelos pés da moça, que funcionavam, estes, como ímãs, já se havia adiantado à memória e calcado o freio.
 
Vista de perto, não era tão guapa e faceira assim, mas servia para uns olhares e uns amassos. Dirigiram-se ao Itajuípe. Conversaram. Ignoro se a conversa rendeu, mas o certo é que, à entrada do Itajuípe, sobre o rio Almada, esperava-os o severo chefe do distrito do Ponto IV, Antônio Reis, de Itabuna, que procurava Macedo em busca do relatório da gasolina.
 
O inspetor encostou o jipe e esperou pelo pior.
 
— Seu Adjovaldo, o relatório está pronto?  
— Está, sim senhor.  
— E esta moça na boléia, quem, é?  
— Mora na Fazenda Luanda, é professora e perdeu o ônibus.
 
Antônio Reis contornou o jipe para interrogar a moça.
 
— A senhora leciona onde?  
— Cuma?
 
Pelo visto, a moça não havia entendido.
 
— Seu Adjovaldo, desça amanhã para Ilhéus, no jipe.
 
O severo inspetor desceu antes, a tempo de narrar a grave ocorrência ao Dr. Evaldo, chefe do setor, e que não chegava a ser doutor, porque de topógrafo não passava. De modo que, ao chegar por sua vez a Ilhéus, Macedo teve de apresentar-se logo ao Setor.
 
Seu emprego bem pago estava por um fio. Os chefes locais tinham ordem dos gringos de não tolerar faltas. A carona, então, era um crime. O escritório estava deserto, sem as recepcionistas. Macedo conseguiu descobrir o porteiro e indagou:
 
— Cadê as moças daqui?  
— Subiram a chamado do Dr. Evaldo.
 
Para testemunhar o interrogatório, gemeu Macedo da Macedônia. Entrou no gabinete de cabeça baixa e vista turva. Os ouvidos pareciam entupidos pelos zumbidos de mil mosquitos de malária.
 
Sentado, ares de magistrado, Dr. Evaldo leu os autos e entrou a inquirir o réu. As moças disfarçavam risinhos.
 
— A moça era bonita?  
Macedo titubeou.  
— Não minta. Gosto de homem que diz a verdade.  
— Era um pouco, doutor.  
— Mais do que a Rita Hayworth em Gilda?  
— Ah, não.  
— E o senhor passou a mão?  
Macedo fingiu-se desentendido.  
— Pergunto se o senhor bolinou, apalpou, pegou nos seios...  
— Bem, doutor, eu...  
— Não minta, seu Adjovaldo. Olhe que recebi relatório...  
Dr. Edvaldo divertia-se. As moças serviam-lhe de platéia.  
— Apalpou ou não?  
Macedo da Macedônia confessou que, na ausência de Glenn Ford, havia tomado algumas ousadias com a bela Gilda.  
Os olhos de Dr. Evaldo luziam, uma baba escorria-lhe da boca.
 
Hélio Pólvora, escritor e jornalista.
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