Compre seu dominio hoje! Calango! o Portal da Bahia News from London

Menu o Portal da Bahia o Portal do Cacau 24h ao vivo na internet Voce ja esta aqui! a regiao que inspirou Jorge Amado o jornal do brasileiro no exterior os agitos da Bahia
volta para a capa

Hélio Pólvora

Capa
Geral
Itabuna
Ilhéus
Bahia
Malha Fina
Últimas
 
Gente Grapiúna
Colunas e Artigos
 
Media Kit
Expediente
Os Links

Pesquisa:
O que você achou
de Ilhéus?

. Gente Grapiuna

Exemplo de Cidadania
      Admiro até hoje Glória Perez por sua insistência em desvendar a morte da filha Daniela e punir os criminosos. Normalmente em sociedades institucionalmente corretas, eficazes e harmoniosas, dispensa-se o empenho familiar, porque Polícia e Judiciário, trabalhando juntas e com rapidez, se incumbem de averiguar crimes, autuar e punir criminosos.
      No Brasil, chegamos a uma situação em que omissões policiais, aliadas à chicana de advogados malabaristas ou à corrupção pelo dinheiro, requerem interferência da família das vítimas.
      Pagamos impostos para que a Polícia nos proteja, para que a Justiça nos represente nos tribunais da consciência livre, e afinal continuamos de flanco aberto, sujeitos a todas as violências, além de testemunhas inermes de violências contra terceiros.
      A prática da criminalidade impune banaliza-se. A cultura da violência e da morte predomina, vem a quebra dos valores da honra, dignidade e sentimento de justiça. A sociedade, como que anestesiada, adota então a mais fácil das atitudes, que é o silêncio, a resignação
      Como acreditar que, em país assim, a cidadania faça progressos? O pacto social está por um fio.
      Por tudo isso, impressionou-me, semana passada, o que li e ouvi acerca do meu amigo Orlando Pamponet. Sendo ele pessoa calma, estruturada, com a cabeça no lugar, vivendo para a família, eu nem por sombra o julgaria senhor de uma vontade de ferro.
      O que ele não conseguiu contra a vassoura-de-bruxa, na sua Fazenda Futurosa, porque lhe faltam capitais e a tecnologia adequada, acaba de compensar agora com uma perseguição tenaz a um criminoso.
      Não um criminoso qualquer. Trata-se de um vigia que, em razão de um furto descoberto, assassinou a tiros, em Jequié, dois jovens engenheiros. Fora do expediente, e sabendo que as vítimas faziam hora extra, sozinhas, em seus gabinetes, entrou na empresa, enfiou o cano do revólver na boca de uma delas e deu três tiros. Depois, em outra sala, abateu o segundo engenheiro com tiros no peito.
      O duplo homicídio ocorreu há cerca de quatro anos. Fica muito a dever, em barbaridade, a outros tantos crimes que o noticiário divulga todas as horas — os chamados crimes hediondos. Com uma diferença, porém: um dos engenheiros assassinado em Jequié era sobrinho de Orlando Pamponet.
      Entra no caso o fator emoção, o laço de família. O impacto do crime torna-se maior. Os engenheiros deixaram viúvas e órfãos. Com eles, mataram-lhes também a juventude. Vem a revolta, o sentimento de justiça. É natural que o nosso sangue ferva quando nos pisam nos calos ou mexem com alguém do nosso sangue.
      Alguém de quem gostamos, com quem nos sentimos solidários pelas origens, raízes e circunstâncias comuns. Há nesses casos um compromisso mudo e tácito de ajuda. A solidariedade humana se reforça, cobra resultados quando ferida.
      O crime de Jequié, com os pormenores da cobertura dada ao criminoso para que se evadisse, mexeu com o meu amigo Orlando. Um sobrinho seu fora assassinado covardemente e ele passou a não admitir, como indigna, a reação habitual do silêncio, da resignação, do esquecimento. Se nada fizesse para capturar o criminoso, seria cúmplice da sua impunidade.
      E eis como um cidadão pacato, discreto e arredio, se transforma, de repente, em caçador de criminosos. O meu amigo gasta parte do seu tempo, ao longo de quatro anos, em buscas e indagações.
      Empenha nisso os seus recursos financeiros. Viaja, contrata detetives, expõe-se. Conta com o auxílio prestimoso, em São Paulo, de uma pessoa de alta qualificação intelectual. Ele próprio assume as investigações, arrisca-se a entrar em confronto com um criminoso frio a quem atribuem várias mortes no sertão da Bahia.
      A pertinácia em localizar o criminoso, em preparar-lhe armadilhas, em participar de cercos, em outro Estado, mostra um Orlando que eu não conhecia. O ser humano está sempre a nos surpreender.
      Supomos isto, baseados em impressões superficiais, e ele nos contesta na primeira oportunidade. Com tais enredos fazem-se as grandes histórias.
      O gesto misericordioso de solidariedade vem de onde não se espera, produzido por quem nos parece menos capaz. O gesto de covardia e omissão nos espanta, vindo, como vem, de pessoa tida como corajosa e firme.
      O criminoso caçado por Orlando está na cadeia, em Jequié, trazido que foi de São Paulo, por ele apresentado à polícia de Salvador. Nosso amigo deseja vê-lo sentado no banco dos réus. Deseja que a lei o puna e que esta punição sirva de exemplo e desaconselhe atos criminosos.
      Somente então Orlando, satisfeita a sua sede de justiça, descansará. Ninguém o acuse de omissão ou covardia moral. Ele cumpriu, com os naturais riscos da empreitada, um dever de consciência, um ato de cidadania.
      Se todos agissem assim, com desassombro, em defesa da dignidade própria e da dignidade do próximo, eu começaria a crer na evolução do princípio da cidadania neste nosso Brasil.

      Hélio Pólvora, escritor e jornalista.

.
Patrocinado por O jornal do brasileiro no exterior

[ Geral ] ....  [ Itabuna ] ....  [ Ilheus ] ....  [ Bahia ] ....  [ Malha Fina ] ....  [ Comercial ] ....  [ Volta ]

Copyright©2001 A Região Editora Ltda, Praça Getúlio Vargas, 34, 45600-000, Itabuna, BA, Brasil
Telefax (73) 211-8885. Reprodução permitida desde que sem mudanças e citada a fonte.