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Hélio Pólvora

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Nau sem lastro
      Se o Brasil naufragasse numa ilha deserta e dependesse de uma nau para fazer-se ao mar, ficaria a ver navios.
      Foi mais ou menos o que aconteceu na comemoração falsamente ruidosa, enganosamente democrática e no fundo patrioteira dos 500 Anos. Construíram com mundos e fundos, quer dizer, dinheiro grosso, a réplica da nau capitânia da frota cabralina. A caravela viria da Baía de Todos os Santos para Porto Seguro, como atrativo maior da festa.
      Não veio, porque não navegou. E não navegou porque já não se fazem navios como há cinco séculos. E porque a tecnologia, pelo menos em se tratando de embarcações de madeira, esqueceu-se de incorporar conquistas náuticas. Triste participação tiveram os nossos construtores náuticos. Faltou-nos um Infante Dom Henrique, faltou-nos uma península de Sagres.
      Mas certamente faltou-nos sobretudo a certeza, aquela certeza do poeta Pessoa, de que navegar é preciso. Para navegar bem, sem naufrágios, com ou sem ventos assoprando, com ou sem Adamastor e Cabo das Tormentas, por esses mares tenebrosos, há que ter-se estabilidade.
      Os fenícios tinham-na. Segundo o travesso Eça de Queiroz, entraram eles em “esguias trirremes e, olhando a pálida estrela polar, navegaram todos os mares”. Nós, aqui, muitos séculos decorridos, navegamos num oceano de incompetência. Lembramo-nos de tudo, do leme e das velas, dos mastros e do tombadilho, mas esquecemos, na pressa dos 500 Anos, o lastro.
      Do lastro depende a estabilidade. Os navegadores portugueses que nos descobriram ou acharam já tinham demonstrado que, sem lastro, não se chega nem ao Cabo da Meia Idade.
      Antes de enfunarem velas no rumo da metrópole, carregavam os porões com pau-brasil. E de tanto fazerem lastro derrubaram as nossas matas. Tiraram-nos o lastro das madeiras e o outro lastro, o ouro, aquele que serve de garantia à moeda. Sem madeiras de lei e sem ouro de lei, só conseguimos circunavegar esperanças.
      Navegar não é apenas singrar mares e ares, terrestres ou cósmicos. Na semântica brasileira navegar significa também andar, seja embarcado ou a pé, a cavalo ou em trem-de-ferro.
      Se os meus raros e fiéis leitores lerem por aí que alguém andou a navegar os pampas, as estepes, ou os cerrados cobertos de soja, não vá franzir o cenho: está certo, navega-se também em terra firme, por eufemismo ou metáfora.
      Uma velha música, creio que uma marchinha brejeira, ensina ainda que navegar significa fazer das tripas coração. Eis alguns versos gravados nas estrias da minha memória de menino grapiúna:
      Como vai você?
      Vou navegando
      Vou temperando,
      Pra baixo todo santo ajuda
      Pra cima toda coisa muda...
      Tio Cosme, quando chegava lá em casa, na expectativa de um almoço regalado, costumava responder assim, em sua voz de barítono, quando meu pai lhe perguntava como dia.
      Navegar é fingir que este é o melhor dos mundos. É comer o prato de mingau pela beirada, na tentativa de, um dia, chegar com a colher de pau ao centro. Navegar é maneirar, é fazer como o malandro que, antes de cair na gandaia, deixa uns tostões com a negra e um conselho:
      Toma esta grana curta, joga no bicho, vê se te agüenta...
      Navegar é o mesmo que empurrar com a barriga. Mudamos de letra, o espírito continua o mesmo.
      Se os construtores da Nau Capitânia fossem mais sofridos, e não tivessem no banco uma verba fantástica com que construir uma simples caravela dos tempos cabralinos, certamente não teriam esquecido o mais reles dos pormenores da engenharia náutica, que é o lastro.
      De pau-brasil, de embaúba, de coirana ou de ouro, não importa: navega quem tem lastro.
      Receio que a Nau Capitânia, mesmo providenciado o lastro, não arribe a Porto Seguro. Chove muito na Costa do Descobrimento, os mares andam mais picados e plúmbeos que as saudades do poeta Ovídio no seu exílio mediterrâneo.
      Os 500 Anos já passaram, esqueçam a caravela no estaleiro. Assim ela não corre o risco de naufragar, quem sabe, à entrada da barra de Ilhéus, no lugar do Itacaré, que foi o Titanic grapiúna.

      Hélio Pólvora, escritor e jornalista.

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