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juliana soledade
18.Março.2017

Somos lembrança


As manhãs ensolaradas de domingo eram as mais esperadas nas férias, programávamos no dia anterior, sem nenhum outro adulto por perto e sem muitos detalhes, a responsável pelos dias inesquecíveis na infância tinha tudo bem alinhado na cabeça.

 
Tia Fátima não se contentava em carregar apenas os sobrinhos, unia os agregados como se fossem da mesma família, sem distinção. Animação e ansiedade pouco nos deixava dormir, um comichão invadia quando o dia entrava pela janela.

 
Os preparativos também começavam preliminarmente para que pudéssemos aproveitar o dia inteiro sem surpresas desagradáveis.

 
Saíamos do bairro da Liberdade de ônibus, feito procissão. Apesar das idades próximas, as personalidades eram completamente distintas, contudo, o respeito sempre foi o maior do elo que nos nutria de união e nos carregava em bando para qualquer canto.

 
Nessa oportunidade fomos para a praia do Farol da Barra, não poderia existir cenário melhor, um verdadeiro céu de brigadeiro nos esperava para um dia incrível que a memória sempre deixa registrada como um filme bem produzido.

 
Eu, munida de um lenço chamativo amarrado na cabeça e um batom vermelho para encarar a meninice não passava despercebida por ninguém. Os tios, primos, e a avó não concordavam com tamanha produção, mas nada importava uma vez que os meus pais não estavam por perto. Era a figura da vaidade inserida na criança.

 
A importância dessa tia animada sempre foi traduzida em sorrisos e picolés, em festas majestosas com um pacote de pipoca doce e no cuidado constante quando permanecíamos diante de sua responsabilidade, poderia ser na festinha alheia, na lavagem do Senhor do Bonfim, ou para resgatar as sobrinhas apreendidas pelo juizado de menor num shopping.

 
Tudo sempre ocorria bem, não havia mortos ou feridos, tampouco brigas ou confusões, nos entendíamos bem, com nosso sarcasmo e carnavais fora de época, com ela a frase “o universo conspira a favor de quem não conspira contra ninguém”, faz sentido.

 
Lenço bordô e os lábios sobressaltados com vermelho encarnado garantem as lembranças pretéritas, singulares e indivisíveis. Parece bem que existem qualidades que inerentes à pessoa, o tempo se arrasta e se Tia Fátima queria registrar lembranças para o resto da vida, ela conseguiu com êxito e louvor.



Coluna da escritora Juliana Soledade.

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