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juliana soledade
20.Maio.2017

No caminho de Santiago


Doze dias caminhando e eu sempre perco a noção do tempo. Preciso parar e coçar a cabeça para saber exatamente por onde já passei e qual o dia da semana. Essa tarefa de pensar em tempo integral apesar de proveitoso é um desgaste. Perguntas e respostas sempre mudam de posição. As respostas tornam-se perguntas mais difíceis e muitas vezes sem respostas.

 
Com doze dias eu precisei parar, meu corpo pediu um pit stop como daqueles da fórmula um: rápido, porém necessário para atravessar a linha de chegada. Aos doze dias de andanças foi o que mais caminhei, 48 km em muitas horas sob o sol, frio e a presença do divino nas mais diferentes formas: a rajada de vento que empurravam as lágrimas, os passarinhos que cantarolavam em meus ouvidos, as flores que me afagavam.

 
A cruz do ressuscitado no alto da montanha antes de Burgos me recordou que nenhum sofrimento é em vão. E que por Ele vale a entrega a minha fé.

 
Aos doze dias resolvi me presentear com uma noite em um hotel. Sem roncos alheios, sem precisar dividir banheiro ou alimento. Sem ser acordada às 4 da manhã por outro peregrino desesperado para começar a sua caminhada e nem ser obrigada a dormir exatamente no horário indicado.

 
A última vez que me olhei no espelho foi no meu quarto. Uma saia de bolinhas e uma sandália nos pés para uma bonita despedida com a graciosidade de uma menina de 28 anos querendo ganhar o mundo com apenas dois braços. Ontem, com a toalha envolta ao meu corpo ao me deparar no espelho que tomava uma parede da suíte, um susto. No mínimo 20 anos mais velha, a toalha despencou e pude analisar cada pedacinho que encontrava ali: as mãos queimadas de sol mostravam que elas não abraçam o mundo, mas sim corações; os pés entre bolhas e sangue, a força inexplicável que conduz cada um ao seu destino; os ouvidos tão familiarizados com idiomas diferentes; a boca que mais agradecia do que pedia. Somente o brilho nos olhos continuavam intactos como os de uma menina sonhadora em busca de um mundo que me acolha verdadeiramente.

 
Com doze dias quase 400 km percorridos me atentei mais as pessoas que partiam do que aquelas que chegavam. Algumas reencontrei ao longo do trajeto, outras tenho certeza que jamais verei. E assim continuo o caminho, como uma pessoa mais madura, que entende que nenhum sofrimento é em vão. Que a palavra destino tem um significado muito interessante quando começamos a fazer parte dele com entrega. Entendo que a dor passa e que eu estou crescendo com um sorriso no rosto.



Coluna da escritora Juliana Soledade.

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