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juliana soledade
10.Junho.2017

A palavra


Antes de embarcar rumo ao velho mundo buscava uma só palavra que definisse a minha ida. Caminhei pelas ruas de Paris em busca de uma expressão que traduzisse o que eu tinha ido fazer ali. Não encontrei. Quando saí de Biarritz - uma cidade litorânea francesa belíssima, rumo a Bayonne a necessidade ainda me martelava. Ao mesmo tempo, o mundo girava ao meu redor, seguia para uma aventura que somente o meu coração descrevia a obrigação de pisar ali. Segui para Saint-Jean-Pied de Port lugar marco para início do Caminho de Santiago. Subi os Pirineus, uma etapa dificílima nos Alpes Franceses para cruzar a fronteira com a Espanha. Tive medo, tive frio, tive vontade de pedir ajuda em um dos dois pontos com o botão de SOS. Resisti, continuei caminhando. Vi as nuvens abaixo de mim, não sabia se admirava ou caminhava. Vieram outras etapas, grandes desafios com o corpo exausto.

 
Fui a pessoa mais feliz que já pisou em Puente La Reina, mesmo depois de ter caminhado por vários dias e ter conseguido costurar a minha segunda bolha, fui dançar em um restaurante. E foi uma verdadeira despedida com os meus amigos italianos entre a sangria e salsa, vivemos uma alegria tão sincera que quase fomos expulsos do albergue. No dia seguinte vi a morte caminhando lado a lado no final dos 46 km, com uma foice enorme, maior do que ela, dizia que o meu dia havia chegado. Não tive forças e caí ajoelhada, pedi um pouco de paciência, apresentei o motivo da missão e clamei a Deus com as mãoszinhas unidas feito criança. Deus ouviu e enviou dois anjos para me resgatar. Qual a palavra que poderia descrever a minha vivência? Essa palavrinha não chegava e eu me irritava cada vez mais.

 
O Caminho me apresentou novas pessoas, novas histórias, novos momentos e muitos novos passos. Transformei a irritação em curiosidade novamente. Caminhava, fazia listas das possíveis palavras, mas nada casava. Soava estranho. Mais estranho ainda era a minha aflição para descobrir a tal palavra.

 
Vivi um caminho duro, de extrema dificuldade, de aprendizados múltiplos. De orações e entregas francas. Ao pisar em Santiago, o melhor presente: atingi o prometido, venci minhas dores, cresci. E talvez essa palavra pudesse traduzir tudo: CRESCIMENTO. Me tornei forte e disso não tenho dúvidas. Senti a evolução do meu espírito, vi minha fortaleza ao caminhar com os pés ensanguentados. Segurei as pontas do emocional durante todo o trajeto sem querer desistir. Chegar à Santiago de Compostela me trazia apenas uma certeza: todos os sonhos são possíveis.

 
Os primeiros passos em Finisterre já me apresentavam a palavra como miragem, em seguida um banho de mar sem roupa, com uma temperatura da água de -4 mostraram-me as primeiras letras num mergulho. Seguindo a tradição com uma roupa nova para o cume do Cabo de Finisterre para apreciar o pôr-do-sol, uma visão que somente eu enxergava sob o mar: DESTINO.

 
Não há nenhuma outra palavra que pudesse fazer mais sentido do que essa. O destino foi causador de travessias, de muitos momentos de felicidade, de oração, de lágrimas impiedosas, de saudade. Ah, saudade que me doía à alma e sacolejava tudo aqui por dentro. O destino me fez sentir dor, me fez ver o amor diferente de tudo que já vivi. O destino me provocou a entrega sem receios, me fez vencer grandes medos. Esse tal destino me provocou a liberdade, os risos, as amizades, a humildade. O destino me ensinou a viver com três calças e três blusas e ainda repartir com quem não tinha. Ele me apresentou uma fé que eu julgava conhecer, uma paz que nunca vivi. O destino me devolveu uma serenidade que eu precisava. Obrigada querido destino!



Coluna da escritora Juliana Soledade.

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