Ary Barroso foi uma das estrelas mais brilhantes da constelação formada pelos grandes compositores da chamada era de ouro da história da música popular no Brasil (toda a década de 30 e o começo da seguinte). O autor também se distingue por ter criado uma das canções brasileiras mais conhecidas no mundo em todos os tempos: "Aquarela do Brasil", considerada uma espécie de hino nacional não oficial.

Entre nossos compositores, ele foi o primeiro a trabalhar e a se tornar conhecido fora do país; antes de Tom Jobim, nenhum outro obteve o seu sucesso internacional. "Aquarela do Brasil", bem como "Na Baixa do Sapateiro", também de sua autoria, foram as primeiras canções brasileiras que se tornaram clássicos nos Estados Unidos (seguidas, depois, por "Tico-Tico no Fubá" e os standards da bossa nova "Garota de Ipanema", "Meditação" e "Desafinado").

Ary Barroso sobressaiu como praticante de uma modalidade de samba de andamento lento, o samba-canção dos anos 30. Com "Aquarela do Brasil", ele inaugurou um novo filão no gênero, o samba-exaltação, em 1939. Identificado pelo ufanismo, com ele o estilo adquiriu uma importância artística que transcendeu a própria moda que lançou – a de cantar as riquezas naturais e culturais do país – e que se instaurou durante o período do Estado-Novo, do presidente Getúlio Vargas.

Ary Barroso contribuiu para a urbanização conferida ao samba no início dos anos 30, compondo uma obra que, também nos períodos posteriores, evidenciou um gosto mais sofisticado sem prejuízo de seu caráter popular. Ele é visto, com justiça, como um importante modernizador da música brasileira de seu tempo.

A bossa-nova teve nele uma referência relevante, como um dos elementos aproveitáveis da nossa tradição de que João Gilberto se serviu para levar a cabo a sua radical revolução sonora. Ary constitui até hoje num dos compositores mais interpretados pelo músico-cantor, que o grava desde o início de sua carreira.