DR. JÚLIO JOSÉ MÁXIMO DE CARVALHO
DR. DIRCEU HENRIQUE MENDES PEREIRA
DR. JÚLIO JOSÉ MÁXIMO DE CARVALHO

 

O diagnóstico do condiloma acuminado não é difícil de ser feito, informa o urologista Dr. Júlio José Máximo de Carvalho. Mas é preciso o uso do equipamento adequado: o colposcópio ou o peniscópio, com lente capaz de aumentar 12 vezes a visão da região focalizada. O médico encarregado do exame deve ter conhecimento das técnicas de biologia molecular, uso de laser e dos diversos tratamentos disponíveis. Confira abaixo as principais questões envolvendo o HPV e como cuidar-se para evitá-lo. Elas foram extraídas do livro

"Falando sobre HPV (Papilomavírus Humano)" -
Júlio José Máximo de Carvalho (Instituto Garnet, 2003 - SP)

Júlio José Máximo de Carvalho é diretor do Instituto Garnet de urologia e responsável pela implantação do projeto HPV da coordenadoria de DSTs/AIDs de São Paulo (capital).

ENTREVISTA
O QUE O MÉDICO DEVE FOCALIZAR NO EXAME?
No homem, além do pênis o médico deve examinar o escroto, a região inguinal, pube e uretra. Na mulher, além da vagina devem ser examinas a vulva, o períneo, a uretra e principalmente o colo uterino.
QUANDO E COMO FAZER OS EXAMES?
Não deve ser feito logo após a prática da relação sexual e em presença de processo inflamatório. Também não se deve usar cremes, talcos ou desodorantes íntimos antes, para não prejudicar a ação do ácido acético, usado para detectar a presença de lesões. O exame de células extraídas dos genitais, os chamados "raspados", obtidos com pequenos cotonetes ou escovinhas de coleta conhecidas como swab, não são recomendados como prevenção do HPV. Eles podem apresentar resultado positivo mesmo sem a presença de qualquer lesão, o que significa que o vírus não está causando a doença, mesmo estando presente no organismo e o tratamento só deve ser feito quando há lesão, visível ou microscópica.
SE MEU PARCEIRO TEM O HPV QUANTO TEMPO DE RELACIONAMENTO SEXUAL É NECESSÁRIO PARA EU TAMBÉM ADQUIRIR O VÍRUS, OU SER CONTAMINADA?
O contágio pode ocorrer em uma única relação sexual, caso o parceiro tenha o vírus.
Mas nem toda a pessoa que entra em contato com o vírus adquire a infecção e a maioria das pessoas que têm contato com o HPV acaba eliminando o vírus espontaneamente, sem tratamento. Mas se o casal suspeitar de algo e quiser tirar a dúvida recomendo fazer os exames após um mês. Caso a peniscopia e a colposcopia seja negativa, aconselho que repitam os exames depois de oitos meses ou um ano.
SE O MÉDICO PEDIR UMA BIÓPSIA É SINAL DE QUE ESTÁ DESCONFIADO DE CÂNCER?
É muito comum pensar em câncer quando se ouve falar em biópsia e, em relação às mulheres, a biópsia de material colhido do colo do útero sem dúvida tem esse caráter, de investigar a presença de células canceríginas ou pré-canceríginas. Mas a biópsia é pedida não só para averiguar as alterações histológicas (no nível celular) causadas por esse vírus mas também para conhecer o tipo de HPV, o que só é possível com a pesquisa de seu DNA viral, daí a biópsia, ou seja, a coleta e exame de material genético capaz de confirmar a presença do vírus e a sua identificação.
QUANTO TEMPO DEMORA PARA APARECER OS PRIMEIROS SINAIS DE INFECÇÃO?
Pode variar entre três semanas a oito meses. Esse tempo é denominado período de incubação. Mas a pessoa pode estar contaminada e ter microverrugas ou lesões que só serão notadas com a aplicação de uma solução específica. É por isso que o diagnóstico do HPV pode ocorrer meses ou anos depois de a pessoa ter sido infectada. Durante todo esse tempo ela estará transmitindo a infecção. Por outro lado, o parceiro sexual do momento pode não ser o responsável pelo contágio.
PODE HAVER CONTAMINAÇÃO MESMO USANDO CAMISINHA?
É mais raro acontecer mas não impossível, pois muitos indivíduos podem ter lesões microscópicas na região pubiana ou inguinal (a área dos gânglios da virilha) e transmitir o vírus por atrito, durante o contato sexual. Calcula-se que aproximadamente 70% das pessoas que mantém relação sexual sem usar camisinha adquire o vírus, embora nem todas desenvolvam a infecção.
POR QUE NEM TODAS AS PESSOAS, MESMO INFECTADAS, APRESENTAM A DOENÇA?
Calcula-se que o fato de 65% das pessoas livrarem-se do HPV, após o contágio, sem fazer qualquer tratamento, esteja relacional com a imunidade individual. Nosso sistema imunológico está sempre alerta para impedir a entrada no organismo de agentes infecciosos. Mas existem pessoas que apresentam maior ou menor resistência a um determinado vírus, daí a predisposição diferenciada dos indivíduos para desenvolver infecções.
QUE OUTROS FATORES PODEM PREDISPOR O INDIVÍDUO A DESENVOLVER A INFECÇÃO?
O estado físico ou nutricional precário, o estresse, o tabagismo, o uso de medicamentos que diminuem as defesas pessoas são os principais fatores de maior exposição ao HPV. Quanto ao casal, é sabido que em apenas 20% a 40% dos casos os dois apresentam a infecção ao mesmo tempo.
CORRO RISCO DE CONTRAIR A INFECÇÃO COM O SEXO ORAL?
Sim. O sexo oral é uma das vias de transmissão de várias DSTs. Neste caso podem aparecer verrugas no interior da boca, na língua, nos lábios e até mais internamente, nas amígdalas, cordas vocais, faringe e laringe.
A INFECÇÃO ANAL TEM A VER COM O SEXO ANAL?
Não necessariamente. A contaminação também pode ocorrer quando da manipulação local ou por meio das secreções que podem escorrer durante o ato sexual até a região anal.
O RISCO DE CONTAMINAÇÃO É MAIOR NA RELAÇÃO HOMOSSEXUAL?
É praticamente o mesmo das relações heterossexuais, mas quanto maior o número de parceiros sexuais maior a chance de contaminação por qualquer DST. Na relação homossexual masculina a chance de infecção é maior do que entre duas mulheres por causa da penetração anal. O sexo oral e o uso de objetos sexuais de penetração, porém, expõe as mulheres ao mesmo risco dos homens.
É POSSÍVEL A CONTAMINAÇÃO COM O USO DE ROUPAS OU OBJETOS EM COMUM?
Sim. Meninas que compartilham maiôs ou biquínis e meninos que usam roupas de mergulho comuns podem estar sujeitos ao contágio, bem como quem divide toalha de banho, sabonetes e escova de dente.
POSSO TER O VÍRUS E NÃO TER A DOENÇA?
É a infecção da forma latente. Pode ocorrer do mesmo modo como temos bactérias ou fungo em nossa pele e ela continuar normal. Por isso que se diz que pesquisar o vírus, ficar procurando, não é importante. O que interessa é achar algum tipo de lesão (verruga, mancha, prurido). Só se justifica a biópsia para a pesquisa do vírus e o tratamento quando for encontrada alguma lesão, tanto no homem quanto na mulher.
A INFECÇÃO PODE VOLTAR?
Sim. Quando a pessoa infectada for tratada de modo superficial existe o risco de algumas microverrugas permanecerem desapercebidas. Após um tempo essas verrugas podem crescer e ser notadas dando a impressão de que a infecção retornou. O que de fato aconteceu, porém, foi um tratamento incompleto. Outra situação possível é a pessoa ser tratada adequadamente e novamente contaminada por um outro tipo de vírus HPV. Aí, trata-se de uma nova infecção.
Finalmente, há situações em que o vírus incorpora-se à célula humana e passa despercebido por algum tempo. É a forma latente da infecção, que pode manifestar-se mais prá frente caso a pessoa apresente queda da imunidade. Essa situação constrange particularmente as mulheres na pós-menopausa que não mantém mais relacionamento sexual e que, antes desse período não apresentaram a infecção, nos exames rotineiros. De repente elas notam as verrugas exuberantes e não entendem o que está acontecendo.
COMO POSSO PREVENIR UMA INFECÇÃO POR HPV?
Usando sempre a camisinha e evitando ter muitos parceiros são as duas formas de prevenção.
EXISTE MAIOR PREDISPOSIÇÃO AO HPV NA GRAVIDEZ?
A prevalência do HPV em grávidas é igual à de não grávidas. Mas nas grávidas, existem casos em que as verrugas crescem tanto que podem sangrar e até atrapalhar o parto ou contaminar o bebê, portanto devem ser tratadas. Em compensação é comum, após o parto, a redução espontânea das verrugas.
USO PÍLULA ANTICONCEPCIONAL. TENHO MAIS CHANCE DE TER HPV?
Os estudos são conflitantes sobre isso. Não se pode afirmar com certeza se é maior a chance de infecção por HPV em usuárias de contraceptivos hormonais.
TENHO TIDO EPISÓDIOS DE CORRIMENTO VAGINAL E MUITA COCEIRA GENITAL. POSSO TER HPV?
As verrugas causadas pelo HPV geralmente são assintomáticas, mas podem estar associadas a outras infecções que dão coceira e corrimento. Muitas vezes o HPV é descoberto por causa dessas queixas e de exames de rotina. Por isso o auto-exame, a avaliação anual com o ginecologista e o exame de papanicolaou também anual são tão importantes.
O EXAME PAPANICOLAU ANUAL É SUFICIENTE PARA A PREVENÇÃO DO CÂNCER DE COLO UTERINO E AS CONSEQUÊNCIAS DA INFECÇÃO POR HPV?
Estudos indicam que se o papanicolaou fosse oferecido anualmente para todas as mulheres seria possível obter a redução de 95% na incidência do câncer de colo uterino. O exame é o mais indicado como primeira investigação. Quando houver necessidade de localizar lesões suspeitas a colposcopia se faz necessária.
QUANDO POSSO ME CONSIDERAR CURADA?
A pessoa é considerada curada depois de dois exames consecutivos de peniscopia ou colposcopia negativos. Mas é aconselhável fazer novo exame após seis meses pois alguns casos podem evoluir como infecção latente.